A energia elétrica, as carnes e os combustíveis são alguns dos vários produtos que ficaram mais caros em maio e estão comprometendo o orçamento dos brasileiros.

Fazer uma pesquisa de preços antes de comprar ou trocar um item por outro mais barato ajudam a driblar os efeitos da inflação, mas é impossível não ser impactado de alguma forma. “Como tudo subiu, é difícil ficar ileso. As famílias já acumulam alguma perda na qualidade de vida”, afirmou André Braz, coordenador do IPC da FGV/Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) em live ao 6 Minutos (assista abaixo).

No ano passado, a inflação ficou muito concentrada nos alimentos, pesando mais para as famílias de baixa renda. Neste ano, as pressões estão mais espalhadas, trazendo redução na qualidade de vida.

“O ritmo de aumento de preços dos alimentos está um pouco menor, mas não quer dizer que a alimentação cabe no orçamento. A taxa acumulada continua alta e é um grande desafio para as famílias de baixa renda, mas em compensação, todas as outras despesas que ficaram mais comportadas no ano passado estão subindo”, afirma Braz.

A inflação de maio, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), chegou a 8,06% nos últimos 12 meses. Apesar do ritmo mais forte, Braz afirma que não há descontrole de preços e que o indicador deve desacelerar no segundo semestre deste ano.

Leia a entrevista que Braz deu ao 6 Minutos:

O que aconteceu com a inflação neste mês? Quais foram os itens que mais pesaram no bolso dos brasileiros?

A inflação de maio surpreendeu todo mundo. Estávamos esperando um resultado em torno de 0,7%, mas o oficial veio 0,83%. O que chamou atenção é que a participação de preços administrados, que são aqueles controlados pelo poder público, foi maior do que o esperado.

A gasolina, por exemplo, normalmente é influenciada pelo preço do barril do petróleo e da desvalorização cambial. Hoje, o preço do petróleo está bem controlado e o real tem se valorizado, então o que explica o aumento do preço é que a de tipo C, que usamos para abastecer os carros, usa álcool anidro na composição e os derivados da cana de açúcar, como o açúcar que consumimos em casa e o álcool, têm subido muito nos últimos meses.

Os medicamentos também chamaram a atenção pelo reajuste de preços em abril, que se espalharam e foram sentidos em maio, com alguma expectativa de refletir na inflação de junho também. Também tivemos mudança para a bandeira vermelha patamar 1 nas contas de energia.

Quando a gente junta a gasolina, os medicamentos e a energia elétrica, que são itens de peso no orçamento familiar, entendemos porque a inflação veio um pouco mais alta do que podíamos esperar.

Era esperado que estivéssemos com os preços mais altos ou a situação está descontrolada?

Eu diria que não há um descontrole, há uma inflação mais forte por vários fatores. Passamos por uma desvalorização cambial importante e o preço de várias commodities subiram muito, como a soja, o milho e o trigo.

Neste ano, vamos ter um desafio maior do que no ano passado, quando a inflação foi muito concentrada nos alimentos, fazendo com que as famílias de baixa renda percebessem uma inflação muito elevada. Quanto mais a família concentra seu orçamento no consumo de alimentos, o que é característico de pessoas de baixa renda, mais ela percebe um nível mais alto.

Agora se levarmos em consideração toda a cesta de consumo, que envolve gastos com serviços, com ir ao cinema, teatro, comprar roupas, passagens, a inflação do ano passado fechou próxima de 4,5%, que impactou mais as famílias de classe média alta. São pessoas que, por causa da pandemia, consumiram menos com lazer e até economizaram dinheiro.

Na passagem de 2020 para 2021, as pressões inflacionárias se espalharam mais. O ritmo de aumento de preços dos alimentos está um pouco menor, mas não quer dizer que a alimentação cabe no orçamento. A taxa acumulada para os alimentos continua alta e é um grande desafio para as famílias de baixa renda.

Em compensação, todas as outras despesas que ficaram mais comportadas no ano passado estão subindo. A expectativa é que a gente feche o primeiro semestre do ano com inflação de 12 meses em 9%. Para o segundo semestre, o indicador deve desacelerar, porque nossa moeda está se valorizando e o Banco Central tem feito revisões para cima na taxa básica de juros.

É provável que a inflação feche o ano em torno de 6%. Esse número não é bom, porque nossa meta é 3,75%, mas já sabíamos, pelas dificuldades, que fecharíamos acima da meta.

Vivemos um desemprego elevado, com preços de produtos da cesta básica subindo, o que aumenta ainda mais o desafio das famílias. Com sorte, esse segundo semestre não vem só com recuo da inflação, mas com o aumento do emprego, o que deve aliviar as pressões para os brasileiros.

Os salários em baixa são um contraponto para segurar a inflação? Tem alguma relação?

Sim, o emprego em baixa segura o consumo. As pessoas não vão se endividar desempregadas ou mesmo quando estão empregadas, porque têm medo de serem demitidas repentinamente. Muitas empresas ainda estão com dificuldades.

A inflação nos desafia pelos custos de matérias-primas. Sabemos que insumos agrícolas e industriais estão mais caros em todo o mundo e no Brasil é ainda pior, pela desvalorização cambial. A situação seria mais complicada se a gente tivesse uma demanda forte nesse momento. De certa maneira, o desemprego ajudou a conter a evolução da inflação.

Existe alguma perspectiva de reduzir os custos das commodities em breve ou isso ainda deve demorar?

Ainda vamos ver por algum tempo. O contraponto é que com a nossa moeda valorizando entramos em uma queda de braço: fica mais caro, mas a nossa moeda ganha valor. Isso mitiga um pouco o aumento de preços em dólar de algumas matérias-primas, mas eu diria que vai continuar porque a China e os Estados Unidos estão fazendo um política expansionista que aumenta a demanda e o apetite desses países pelas commodities.

Outro tema que tem preocupado é o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), usado no reajuste de contratos de aluguel. Por que existe uma diferença entre o IGP-M e o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) e o que isso impacta nos contratos?

O IGP-M é uma média ponderada de três índices. O primeiro é o IPP (Índice de Preços ao Produtor), que mede a inflação do agronegócio e da indústria, que está pressionado pelo aumento dos preços da soja, do milho, trigo e das carnes na pecuária e pelo minério de ferro, alumínio e cobre na parte industrial.

Como o IPP corresponde a 60% do IGP-M, ele acabou puxando mais o resultado. O indicador ainda considera o IPC (Índice de Preços ao Consumidor), que é parecido com o IPCA, e a inflação da construção civil, que também está muito pressionada pelo aumento de custos, principalmente do PVC, de tintas, de cimento e de concreto, itens básicos para a construção, que são dolarizados, e tiveram um avanço de preços nos últimos meses.

Em um momento como esse, quando paramos para entender qual a contribuição de cada indicador para a sociedade, vemos que o IGP-M não está relacionado ao mercado imobiliário. Ele mede desafios da economia que estão no agronegócios, na indústria, e no consumo das famílias. O mesmo acontece com o IPCA, ainda que esteja mais baixo, monitora a variação do custo de vida. Essa discussão sobre que indexador usar para os contratos ainda vai render bastante.

Ao proprietário interessa que o imóvel continue alugado, porque ele não quer perder uma renda e ganhar uma despesa extra. Hoje, os donos estão abertos a negociar e os inquilinos por razões mais obvias ainda, porque se não for negociar, vai pagar um reajuste de mais de 30%, que é inadequado.

Como driblar essa inflação que contamina os preços dos alimentos? É melhor substituir, deixar de consumir? 

Para esticar o orçamento, temos que procurar promoções, fazer um bom inventário do que tem em casa para evitar comprar dobrado e não investir em grandes quantidade. A leitura do mercado é a seguinte: no início da pandemia, muitas famílias iam às compras e, com medo de desabastecimento, compraram mais do que iam precisar. Aquela ação trouxe aumento de preços, porque é a lei da oferta e da procura.

Não estou dizendo para comer menos, mas substituir por algo que está mais barato ou renunciar a um produto que está caro. Também é interessante preferir comprar em locais que tem desconto por quantidade, como atacarejos. Isso ajuda a driblar a inflação, mas como tudo subiu, é difícil ficar ileso. As famílias já acumulam alguma perda na qualidade de vida.

A situação deve se estender para 2022?

O Banco Central está aumentando a taxa básica de juros, mas não traz nenhum efeito para 2021, só para o próximo ano. O aumento demora de seis a nove meses para fazer efeito na economia, mas é exatamente o que precisa ser feito para diminuir a inércia e a indexação. Com os juros, o BC mostra que está comprometido com a meta de inflação. A do ano que vem é menor ainda, de 3,5%.

Não houve aumento antes, porque precisavam do instrumento da política monetária para estimular a economia. A gente só gera emprego e renda dando crédito mais barato para as empresas se animarem a investir.

Ano que vem vamos cumprir a meta?

Existem muitos desafios, temos que ver como a política de vacinação vai ficar. Para a economia aquecer de uma vez por todas, voltar a normalidade e trazer as pessoas para o mercado, a sociedade precisa estar amplamente vacinada, isso é prioritário.

Também temos as contas públicas, que precisam ser colocadas no eixo, e a atual crise hídrica. Se a energia está mais cara, o custo dos serviços vai subir. Isso também atrapalha a produção de grãos e a pecuária. Temos vários desafios, mas devemos pelo menos ficar dentro do intervalo da meta no próximo ano.

A alta do juro do Banco Central pode atrapalhar uma retomada da economia?

Aumentar o juro encarece o crédito e pode frear a retomada da atividade. Por isso, essas decisões de política monetária precisam ser tomadas rapidamente, na dose certa, para diminuir o impacto na atividade e não comprometer a retomada da economia. No momento, o melhor é subir a Selic.

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