Quando um empresário ou empreendedor passa a investir em companhias de outras pessoas, a prática é chamada de investimento anjo. Camila Farani, “tubarão” no programa Shark Tank e presidente da G2 Capital, uma boutique de investimento em startups, diz que ainda há muito espaço para novos investidores-anjo no mercado de negócios brasileiro.

“Vejo que existe muito espaço para mais investidores-anjo e essa movimentação será crucial para impulsionar nossa indústria de base inovadora no Brasil”, afirma Farani. Nos últimos 10 anos, investiu mais de R$ 35 milhões em startups e empresas de tecnologia, entre aportes individuais e em grupos.

Em maio, lançou um livro chamado “Desistir Não é Opção: O Caminho Mais Rápido Entre a Ideia E Os Resultados Se Chama Execução”. Farani diz que escreveu motivada pela inquietação e que espera que a publicação possa ajudar quem quer empreender no Brasil.

“O livro foi a maneira que encontrei de compartilhar minha trajetória e meus conhecimentos, compartilhar o que eu aprendi. Mais do que respostas, espero trazer provocações e ajudar os leitores a formularem mais perguntas em relação às suas carreiras e seus negócios, aguçando a curiosidade e a mentalidade de aprendizado contínuo”, afirma.

Leia a entrevista de Farani ao 6 Minutos:

Como ser um empreendedor de sucesso no Brasil?

Hoje em dia, posso dizer que o empreendedor que entende de perto seus consumidores e coloca suas necessidades no centro da estratégia é aquele com maior probabilidade de ter uma empresa sólida e de destaque. O sucesso em si é um conceito subjetivo, mas podemos ressaltar alguns pontos. Esse primeiro que eu mencionei é um deles, assim como algumas habilidades comportamentais que fazem toda a diferença para o empreendedor: mentalidade de aprendizado constante, a inquietude, conhecer a fundo o seu mercado naquilo que eu digo que é o tradicional “gastar sola de sapato”. E, claro, manter uma gestão financeira equilibrada.

O que você analisa na hora de investir em uma empresa?

Para uma empresa chamar a minha atenção, o primeiro passo que enxergo como importante é que tenha um time complementar. O que eu mais vejo acontecer é uma startup ter tecnologia, mas não ter uma boa pessoa de produto, especialista no “coração do negócio”, ou mesmo um fundador não comprometido o suficiente. Outro aspecto que analiso é o modelo de negócio: se existe um grande problema, uma solução e quão tracionado pode ser este negócio (quanto ele pode crescer). Um bom negócio precisa trazer uma solução para um problema existente no mercado.

Se isso não acontece, aquele empreendedor corre o risco de entrar no conceito do No Market Need, ou seja, criar uma solução que pode até ser boa, mas que o mercado não quer ou não precisa. Para conquistar um investimento, o produto ou serviço precisa ter mercado. Um terceiro aspecto é o tamanho do mercado, as possibilidades de saída como investidora. São mais de 350 itens a serem avaliados, mas, em resumo, eu analiso se o time tem capacidade e complementaridade entre si para que a startup cresça e possa justificar o investimento, avalio se o mercado é grande o suficiente e se o que a empresa oferece realmente resolve uma dor do mercado.

Existe algum tipo de companhia ou segmento que te atrai mais? Quais e por quê?

Acredito que não se trata de preferência, mas de observar as tendências de mercado. As startups e empresas de tecnologia em destaque são aquelas que estão trazendo soluções para a nova realidade do consumidor. Durante a pandemia, cresceram muito os negócios que atendem à economia de baixo contato (low touch economy) – como soluções de logística para delivery – e também que facilitaram a interação entre as pessoas nos processos remotos. Alimentação saudável, telemedicina, de educação e e-commerces (retailtech) também estão entre alguns destaques do momento. Mas independentemente do setor, é fundamental observar se a empresa tem potencial de escala.

Qual o caminho para se tornar investidor-anjo no Brasil? É um mercado com espaço para novos players?

Antes de tudo, acredito que vale a pena dizer quem é o investidor-anjo. Normalmente é um (ex) empresário, empreendedor ou executivo que já trilhou uma carreira de sucesso, acumulando recursos suficientes para alocar uma parte para investir em novas empresas, bem como aplicar sua experiência apoiando a empresa – o chamado smart money.

Também é possível por meio de gestão de recursos, o que é efetivado por fundos de investimento. O investimento anjo em uma empresa é normalmente feito por um grupo de dois a cinco investidores, tanto para diluição de riscos como para o compartilhamento da dedicação, sendo definido um ou dois como investidores-líderes para cada negócio, para agilizar o processo.

O investimento total por empresa é em média entre R$ 200 mil a R$ 500 mil, podendo chegar até R$ 1 milhão. Determinar a quantia que você está preparado para alocar em cada oportunidade é o primeiro passo para começar – e claro, ter apetite para risco. O interessado precisa pensar em qual percentual do patrimônio vai alocar em capital de risco. Esse número pode ser calculado com base em algumas suposições gerais.

Tendo em mente que o investimento anjo profissional é uma atividade de longo prazo e de pouca liquidez, é importante destinar apenas volume de capital que não lhe fará falta. A maioria dos especialistas sugere que, devido ao risco e à volatilidade, você não deve dedicar mais do que 10% de sua carteira a essa classe de ativos.

Como você vê que ficou o empreendedorismo após a crise causada pela pandemia?

A pandemia impôs desafios sem precedentes para as empresas, fossem elas pequenas, médias ou grandes. Vejo isso em três principais dimensões: adaptação ao novo comportamento do consumidor, necessidade de planejar novas formas de entrega de produtos ou serviços e também de gerir equipes remotamente. Algumas já conseguiram se adaptar, outras seguem com desafios grandes e precisarão se reinventar.

O que ficou nítido é a necessidade de revisitar modelos de negócios, formas de cobrança e inclusive a essência de produtos e serviços. Porém, o desafio está em compreender o que quer e como consome esse consumidor pós-pandemia. Empresas precisarão entender como se adequar a ele e à economia de baixo contato que se potencializou na pandemia.

Quando falo da economia de baixo contato, ou low touch economy, falo sobre a necessidade das empresas em conseguirem se adaptar às novas formas de interação com o cliente, de como gerenciar pedidos e entrega delivery, entre outros atributos. O cliente cada vez mais busca por eficiência, comodidade, conveniência e adaptabilidade e a transformação digital que se tornou compulsória com a pandemia, tornou isso mais evidente para o mercado de forma geral.

Qual dica que você daria para quem quer sair do emprego com carteira assinada e começar a empreender?

A primeira pergunta, além de uma das mais fundamentais de qualquer plano de negócio, seja qual for a área de atuação, é: qual problema você resolve? Para chegar à resposta, o empreendedor terá de descobrir alguns pontos essenciais como qual é o seu mercado, quem é afetado e quão profundo é o problema. Compreender a fundo isso tem uma relação direta com a razão de ser do seu negócio, que é: qual a solução para o problema?

Aqui, quando buscar a solução, o empreendedor terá de ter bem claro o que é o seu produto ou serviço, como ele funciona e, assim, também saber qual é o foco da empresa. Abrir mão de um trabalho estável não é fácil, então quanto mais preparado para as adversidades a pessoa estiver, mais segura ela vai se sentir para dar este passo. Outra dica é ler meu livro, que trata de muitos assuntos pertinentes ao início dos negócios.

Muita gente empreende no Brasil por necessidade. Como se preparar para manter um negócio lucrativo?

É importante a empresa identificar as necessidades contínuas de orçamento e recursos que continuarão após o produto ou serviço entrar no mercado. Isso inclui tempo e dinheiro gastos na manutenção do produto ou serviço. O empreendedor deve ter os olhos abertos não apenas nas suas escolhas e ações, mas também em suas consequências e seus desdobramentos para que possam, de fato, construir empresas sólidas e redes sustentáveis. É preciso descobrir se a empresa tem foco definido, estrutura e, principalmente, um propósito para cumprir no mercado e na sociedade.

Cada vez mais as empresas estão focadas em aumentar a diversidade no quadro de funcionários, desde os cargos mais baixos até postos de liderança. Como você vê esse movimento para o ecossistema de negócios brasileiro?

Existe uma necessidade não apenas das empresas contratarem talentos diversos, mas estabelecerem programas de desenvolvimento que deem condições a todos os funcionários de desenvolverem seu potencial e serem reconhecidos por isso. Trata-se de abrir portas para a entrada na empresa e de construir pontes para que cada um possa desenvolver o seu caminho profissional quando já estiverem dentro dela. E, claro, ter métricas claras e objetivas que balizem esse reconhecimento.

Dentro das próprias empresas, ter equipes mais diversas significa ter visões complementares, experiências mais completas e ricas para a própria instituição. Isso sem contar nos resultados que essa complementaridade traz também: companhias que contam com diversidade e inclusão em sua equipe são 11 vezes mais inovadoras, e seus colaboradores são 6 vezes mais criativos do que os dos concorrentes, por exemplo, segundo o relatório “Getting to Equal 2019: Creating a Culture That Drives Innovation”.

camila farani

Crédito: Divulgação

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