O Banco Central abriu no último dia 31 de maio inscrições para um programa de educação financeira sem precedentes na história da instituição. Até o final de 2022, o Aprender Valor, como foi batizado o projeto, quer ensinar 22 milhões de alunos brasileiros de escolas públicas do ensino fundamental sobre orçamento familiar, poupança e crédito, em uma iniciativa na qual foram investidos R$ 11 milhões.

O 6 Minutos conversou com Mauricio Moura, diretor de Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta do BC, sobre a iniciativa, financiada por uma parceria com o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos do Ministério da Justiça e desenvolvida pelo Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

De acordo com ele, já foram enviados 19 projetos diferentes, com planos de aulas, vídeos e atividades, para aplicação em sala de aula de forma transversal, ou seja, pensados para serem ensinados junto com a grade curricular. Alguns deles foram adaptados para o ensino à distância, necessário durante a pandemia.

“Temos que mudar a capacidade do brasileiro de se relacionar com o seu próprio dinheiro. O diagnóstico de que algo precisa ser feito é muito claro”, aponta ele. “No Aprender Valor estamos falando de crianças, de formar cidadãos, então começamos pelo básico. É o pla [planejamento], pou [poupança], cre [crédito]”, resume, referindo-se aos pilares do programa.

Leia abaixo a entrevista completa.

O Banco Central sempre teve projetos de educação financeira. Qual a diferença do Aprender Valor? O BC há vários anos vem fazendo projetos de educação financeira. A grande diferença é que de dois anos e meio pra cá fizemos um redirecionamento, saindo de ações mais pulverizadas com pouco alcance para um projeto concentrado e que atinge muita gente.

O Aprender Valor vem nessa esteira. Escolhemos o ensino fundamental, onde há 22 milhões de alunos, para um programa para levar educação financeira a essas crianças. Pensamos: tem que ser escalável, com amplitude, para atingir o Brasil todo nos mais diversos formatos e níveis.

Como funciona o programa? Nos demos conta de que não poderíamos nos basear em ações pessoais, em que o servidor vai em cada escola do Brasil para treinar cada um dos professores, senão não atingiríamos todas as instituições neste século. Vamos fazer algo para que os professores tenham acesso, usando tecnologia à distancia para chegar na ponta, e deixar aberto para todos irem buscar.

Por isso, temos que ter uma plataforma com material disponível e que possa ser aplicado em sala de aula, em que todos possam aprender ao mesmo tempo. Para isso funcionar, os pré-requisitos são: relacionamento, ou seja, professores, escolas, regionais de educação e secretarias de educação precisam estar envolvidos.

Se todos esse elos não comprarem a ideia, o professor pode não ter o apoio que precisa do coordenador, diretor, secretário de educação. Um dos desenhos é: vamos envolver toda a cadeia, então estamos fechando parcerias com as secretarias da educação e levando treinamento para os gestores de escola, todos dentro da mesma plataforma.

Isso cria um microssistema pra que a educação financeira de fato faça parte daquela secretaria, vencendo barreiras e promovendo uma grande parceria com todos. É preciso também ter material adequado com os conceitos básicos de educação financeira.

O que mais é necessário para que esse objetivo seja alcançado? O segundo pilar é ter material adequado pronto para colocar dentro da sala de aula. Se for isolar a educação financeira, pode haver dificuldade de colocá-la na grade. Por isso, o projeto será de forma transversal, integrando a educação financeira com as disciplinas obrigatórias.

Colocamos um plano de aula, com objetivos e ações em sala, inserido na rotina da educação. Em vez de ser um custo para o professor, é uma solução, em que a educação financeira é ensinada com outras disciplinas.

Mas ainda faltava um pedaço: o professor só ensina o que ele entende. E ele entende de educação financeira? Nem todos entendem, como muitos brasileiros, por isso, em vez de apenas conteúdo, criamos um treinamento para eles, para a sua própria vida, para ele mesmo poupar. Sabemos da situação remuneratória dos professores e que muitos têm problemas financeiros.

E existe uma carga horária mínima? Esse conteúdo é obrigatório? Não. Os professores assumem o compromisso de administrar determina quantidade de aulas. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) coloca a educação financeira como uma das 14 disciplinas transversais, junto com educação para o trânsito, por exemplo.

Desde quando o projeto vem sendo desenhado? Começamos a desenhar em 2019. Em 2020, estreamos projetos pilotos em alguns estados: Pará, Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná, além do Distrito Federal. A ideia foi testar o formato, ver se funciona. Isso rodou em 2020 e era para já ter sido finalizado, mas a pandemia atrasou tudo. Tivemos que mudar uma série de abordagens, e isso acabou ficando pronto no final deste semestre.

O piloto se mostrou eficiente e adequado, e agora abrimos nacionalmente. Desde o dia 31 de maio, abrimos inscrições, e qualquer escola pode se juntar ao programa.

Que tipo de conteúdo é ensinado? Há um estudo que mostra que os alunos que tiveram educação financeira desenvolvem uma relação melhor com modalidades mais perigosas de crédito, como o cheque especial, por exemplo. Sim, fizemos um estudo com o Banco Mundial sobre o cheque especial em que foram treinados 30 mil estudantes entre 2010 e 2011. Analisamos isso 20 anos depois, e a conclusão é que eles possuíam menos propensão a entrar no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito.

No Aprender Valor estamos falando de crianças, de formar cidadãos, então começamos pelo básico. É o pla [planejamento], o pou [poupança] e o cre [crédito], como chamamos.

O planejamento é como entendo o orçamento familiar. Quando a criança aprende alguma coisa na escola, naturalmente leva isso para dentro de casa. Quantos adultos aprenderam sobre educação ambiental, por exemplo, porque as crianças aprenderam primeiro na escola? Então ensinamos o planejamento e entender o orçamento familiar.

Além disso, tem o pou, que é o poupar, ensinar o valor da poupança, não a aplicação, mas no sentido de guardar recursos para enfrentar momentos de crise. E poupar ativamente, não apenas o que sobra.

O terceiro é o cre, o crédito, em que ensinamos a criança a tomar crédito com responsabilidade, entendendo os produtos financeiros e usando os melhores para suas necessidades reais.

A tendência é demonizar o crédito, como se todo crédito fosse ruim, e não é bem assim. Quando se toma um crédito imobiliário, que cabe no orçamento, você está aumentando o seu patrimônio. O ruim é o crédito mal tomado.

Já temos 19 projetos entregues abarcando esses três pontos, e cada um possui de cinco a 10 aulas, que os professores podem usar de forma totalmente livre. Vamos liberar outros 35 projetos na sequência.

Por que um projeto assim amplo é necessário no Brasil? Tem o teste do Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], que mostra que o letramento financeiro do brasileiro, até mesmo em termos de compreensão de matemática, é muito baixo, fica nas últimas posições.

Esse déficit matemático é o motivador. Temos que mudar a capacidade do brasileiro de se relacionar com o seu próprio dinheiro. O diagnóstico de que algo precisa ser feito é muito claro. Por isso buscamos parcerias, como o financiamento do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, que investe R$ 11 milhões no programa. Para atingir milhões de estudantes, é bem barato.

É correto dizer que esse é o programa mais ambicioso de educação financeira do Banco Central? Sim, nunca fizemos nada tão ambicioso e tão grande.

 

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