CEO da Tiffany, da Pandora e da Lacoste. Essas foram algumas das cadeiras ocupadas por Rachel Maia ao longo dos seus 30 anos de carreira. Hoje, ela é CEO da própria empresa, a RM Consulting e conselheira em quatro grandes companhias.

Com uma carreira inspiradora, Rachel diz que ainda está “no meio da escadaria” e que tem muito o que conquistar na vida profissional. Além de almejar ser uma boa conselheira e fazer sua empresa ter sucesso, quer aumentar o número de oportunidades a mulheres negras no mercado de trabalho.

“Para mim é muito importante colocar negros na liderança, porque eu vivo a liderança. Eu sou uma empresária, sou uma presidente e sei o quão raro ainda é encontrar mulheres negras na liderança. Simples assim. O que eu quero é construir um legado de ter mais mulheres negras na liderança“, afirma Rachel.

Um dos projetos da executiva em andamento é um programa de mentoria focado em mulheres negras, para que ocupem cargos de liderança no futuro. Em março deste ano, Rachel lançou seu primeiro livro, chamado “Meu Caminho Até a Cadeira Número 1”.

Assista aos principais trechos e leia a entrevista de Rachel Maia ao 6 Minutos:

Como surgiu a ideia de fazer mentoria para mulheres negras? Como tem sido o processo?

Este não é o primeiro grupo que eu mentoro. Já mentorei a Adriana Barbosa [CEO do Pretahub], a Luana Génot [diretora-executiva do Instituto Identidades Brasil], Patricia Santos [CEO da EmpregueAfro], entre outras mulheres. Todas negras, que este é meu foco. Para mim, é muito importante colocar negros na liderança, porque eu vivo a liderança. Eu sou uma empresária, sou uma presidente e sei o quão raro ainda é encontrar mulheres negras na liderança. Simples assim. O que eu aposto é construir um legado de mais mulheres negras na liderança.

Pode parecer simples, mas é uma jornada longa, eu não posso queimar etapas. Tem todo um processo de mercado, de apresentação, de validação, das pessoas entenderem. E não é que todo mundo que você mentora ou aposta que acontece. Então você tem que formar, criar esse pool de talentos para que as empresas pincem conselheiras. Eu estou ainda nesse processo de formação, quero formar um pool de talentos, de mulheres negras. Elas existem, estão aí e eu só estou tendo a delicadeza de evidenciá-las melhor e compartilhar minha experiência.

É por isso que veio este desejo de dar continuidade a algo em que sempre acreditei. Mulheres têm que apoiar mulheres. Não quer dizer que nós estamos eliminando homens, nada disso, só vamos apoiar mulheres, são coisas distintas. Precisamos dos homens? Isso é indiscutível, só que mulher apoia mulher.

Meu trabalho hoje é de conselheira, depois de 30 anos de mercado. Tenho dois anos de conselheira na Unicef (Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância), um ano no varejo, sete meses no turismo e, agora, cinco meses no minério. Quando se é conselheira, é um outro tabuleiro, uma outra forma de ver o business, estrategicamente falando.

Isso me dá mais chance de ter essa visão de como nós podemos criar oportunidades. Eu vejo que as empresas querem fazer que isso também aconteça. Eu abri esse programa para 40 mentoradas e tive que estender para 50 porque recebi mais de 3.000 inscrições.

Esse múltiplo é algo muito importante, porque acaba sendo um banco de dados rico de mulheres negras. Eu tenho muitas amigas, presidentes e executivas, que sempre levantam a mão e eu não tinha muito o que fazer. Agora eu tenho, é um processo que estou formatando de talent aquisition.

É mais um novo negócio para mim e uma coisa se conecta com a outra. Eu estou fazendo algo para formar um pool, mas também vou evidenciar outras tantas negras para que isso possa acontecer. Isso vai demandar tecnologia e um outro processo, de como fazer de forma tecnológica. Aí eu gosto, eu quero entender como posso fazer isso da forma mais assertiva.

Você é inspiração para muitas pessoas, tanto por ser mulher, como por ser negra, e ter chegado à cadeira número 1. Como você enxerga estar nesse lugar, o que significa isso para você?

Responsabilidade, construção de uma jornada, protagonismo, mas solidão. Eu não quero essa solidão. Por isso que eu tenho também essa responsabilidade de mentorar, apoiar e detectar, porque nós temos muitas mulheres talentosas por aí. Eu também uso isso na minha empresa. Meu time entende isso, que eu contrato pessoas talentosas que estão em formação. Eu formo pessoas, esta é uma característica da empresária Rachel. Isso tem se mostrado assertivo e eu gosto, gosto bastante.

O que é preciso fazer para chegar no mesmo lugar que você chegou? Como se profissionalizar?

Primeiro, algo que eu não discuto é que conhecimento é poder. Eu fiz quatro MBAs, porque tinha que preencher as lacunas, tinha que fazer as coisas acontecerem. Quando o conhecimento me faltava, e faltou diversas vezes, eu corria atrás. Mas além do conhecimento, acho que estar alerta às oportunidades.

Algo que é importante, que eu estou fazendo do lado de cá, é brigar para que o mercado crie mais oportunidades. No meu tempo, ser uma presidente era muito mais rarefeito.

Hoje, eu tenho a responsabilidade de, com outros presidentes amigos meus, que posso mencionar de uma forma muito feliz, como Paula Bellizia (VP de Marketing do Google), Carla Assumpção (diretora na Swarovski), Paula Mageste (CEO da Globo CondéNast), Fiama Zarife (diretora no Twitter), Leonel Andrade (CEO da CVC), Edvaldo Vieira (CEO da Amil), Mauricio Pestana (CEO da Revista Raça), Ana Paula Bógus (VP da Havaianas), Cris Junqueira (CEO do Nubank) e Guilherme Benchimol (CEO da XP Inc.). São esses executivos que eu tenho a responsabilidade, sim, de influenciar. Influenciá-los para que a gente possa gerar mais oportunidades. São pessoas que falam “Rachel, traga talentos”. Tenho essa responsabilidade monstro e sou grata a essas pessoas.

Nós que fomos minimizados, minorizados por tanto tempo, não somos a minoria. Então, se mostre, se deixe ser visto e, quando não for percebido, faça ser percebido. É uma jornada de ganha-ganha. Você se mostra e eu vou atrás de criar oportunidades. São sempre muitas idas e vindas, que também aconteceram comigo. Tiveram mais “nãos” do que “sim”, muitas portas que me fizeram querer pensar em desistir, mas eu não desisti. Eu levantava no dia seguinte e sacodia a poeira.

Na mentoria, só tem talento de pele tão retinta como a minha e essas meninas querem ser vistas. Criar oportunidades para elas é uma das minhas responsabilidades. E olha que fantástico, elas também estão dando oportunidade para o mercado percebê-las. Isso tudo é algo que tem que ser celebrado de forma grandiosa. Eu foco no setor econômico e quero continuar dessa forma. Eu serei a pessoa que falará alto para todas elas, para dar voz e vez a estas mulheres. Isso para mim é muito importante: dar voz e dar vez a todas essas pessoas que querem.

Você sente que o preconceito está diminuindo no mercado de trabalho?

Eu também mentoro pessoas brancas, presidentes de empresas. Eu preciso desses aliados. Hoje eu devo mentorar uns 20 e poucos executivos do mais alto escalão. Eu uso essas mentorias para que eles entendam que existem outros talentos. Um ganha com o outro.

Sim, existe aí um movimento, estamos a passos lentos. Existe ainda uma negação de que não é preciso se letrar, porque é o talento quem diz. Eu sempre tive talento, mas eles não eram reconhecidos. É preciso entender que eu tenho a necessidade sim de estar indagando por dar voz e vez. Eu vejo isso, que existe um movimento de mais empresas, mais executivos, querendo entender o que é diversidade, equidade e inclusão. O que é representar, o que é pertencer e como fazer isso de forma equitativa. Sem sombra de dúvidas está acontecendo.

O que as empresas que querem mudar precisam fazer para ter uma política de diversidade? Como fazer na prática?

Primeiro, parar e entender o que é essa variável S do ESG. Em seguida, tratar de parar, se abrir para o novo. Muitas vezes é novo. É importantíssimo letrar-se. Qual a diferença do letrar para o treinar? O letrar é você aprender algo novo da sua vida, descontruir parte para reconstruir. Este letramento é necessário que você absorva. Essa parte da sociedade que foi minorizada, foi construída para que passasse despercebida. Então é necessário reconstruir e este processo de reconstrução se dá através de letramento.

Aí você, empresa global, grande, pequena, média, também se torna aceleradora de novos negócios. Busque conhecimento. Quando você não tem, é isso que tem que fazer. Você não tem que estudar valores da empresa? A questão de diversidade e inclusão é um valor. Então, você tem que estudar, tem que entender, tem que se letrar. Letramento hoje é conhecimento e conhecimento se torna poder.

Como foi o processo de escrita do seu livro “Meu caminho até a cadeira número 1”?

Esse negócio que dizem que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro é default [padrão a ser seguido], não é default na minha vida. E eu passei quase um ano fazendo análise se eu deveria ou não expor as minhas misérias. Quando eu tive um break, conversando com minhas amigas, que me apoiam, elas disseram “Rachel, você deveria fazer um período sabático e compartilhar [sua trajetória]”. É simples, mas ao mesmo tempo as pessoas acham que precisam de histórias extraordinárias para conquistar esses espaços extraordinários. Não, não, histórias simples também conquistam espaços extraordinários.

O que você vislumbra daqui para a frente? O que te faz continuar seguindo sua jornada?

Tenho tanta coisa, ainda estou no meio da escadaria. Se você falar “Rachel, você já chegou lá?”, vou dizer que não, que essa cadeira número 1 podem ser várias coisas. Agora, a minha cadeira número 1 é ser uma conselheira muito boa e trazer o sucesso para a RM Consulting. E, óbvio, é sempre um tripé na minha vida: o Capacita-me, que é a parte filantrópica, ser um canal para potencializar, não só jovens, mas pessoas da periferia, através da educação. Minha mola é a educação e acho que através dela se conquista o mundo.

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