Com 13 lojas, a Livraria da Vila anunciou planos de abrir mais três unidades dentro de shoppings centers ainda este ano. Pode parecer loucura se imaginarmos que essa expansão começou em 2020, ano em que vários segmentos do varejo ficaram de portas fechadas por mais de 60 dias.

Mas o presidente da empresa, Samuel Seibel, disse que essa ampliação já era planejada e houve oportunidade de colocá-la em prática na pandemia. Ou seja, a mesma crise que fechou lojas dentro de shoppings abriu a oportunidade de negociar melhores contratos de aluguel.

Apesar de também ter sentido o baque da pandemia no seu negócio, Seibel diz ter a esperança de que a vida voltará à normalidade com o avanço da vacinação. E quando isso acontecer, suas livrarias estarão localizadas em pontos estratégicos.

Para o empresário, educação e leitura estão intrinsicamente ligados. Por isso, segundo ele, ideias como a de acabar com a isenção tributária dos livros só reforçam a desigualdade econômica da população.

“É evidente que ninguém vai deixar de comprar feijão para comprar livro. Mas dizer que o pobre não vai ler nunca… É uma tristeza ouvir isso, é condenar a pessoa à falta de conhecimento. A classe média também lê pouco, três ou quatro livros por ano. Se a isenção acabar, os preços vão subir e ela também vai comprar menos livros. Não vejo sentido nisso.”

Leia abaixo entrevista de Seibel para o 6 Minutos:

Qual o segredo para crescer em um ramo que redes como Cultura e Saraiva entraram em recuperação judicial?

Não é bem por aí e não somos só nós que estamos crescendo. Tem a empresa de um colega, a Leitura, que também está se desenvolvendo e se expandindo muito. Acho que o mercado de livros no Brasil teve altos e baixos. É um mercado que nunca se aproveitou de grandes momentos de euforia do mercado. A bolsa estava estourando e o setor de livros crescia ligeiramente. Da mesma forma que havia uma depressão grande, e não havia um sofrimento na mesma proporção. Então ele é um mercado estável, sem grandes crescimentos e sem grandes involuções. Você citou duas empresas que por diversas razões passaram o que passaram.

Vamos saber só lá na frente se o que estamos fazendo foi uma decisão acertada. E esse plano de expansão remonta a 2018 e 2019, anos que foram bons para o setor, em que tivemos uma venda forte e que discutimos estratégias para o futuro, de espaços para ocupar e de aproveitar oportunidades que pudessem surgir. O e-commerce foi uma dessas oportunidades, lançamos ele em dezembro de 2019, antes da pandemia.

No começo de 2020, nem considerávamos mais aqueles planos anteriores. Na virada do semestre, começaram a surgir convites [de abertura de loja] e foi o caso de colocar em prática o que tínhamos pensado lá atrás.

Mas abrir loja no meio da pandemia não é assustador?

Acredito que ao longo do tempo as coisas irão se normalizar. Não sei se será igual ao que tínhamos em 2019, se vai ser menos. Se vai ser ainda maior, não dá para prever. Mas vimos a inauguração dessas lojas como oportunidades e achamos que valeu a pena tomar essa decisão.

No ano passado, abrimos duas lojas, uma no shopping Eldorado e outra no Park Shopping São Caetano. Há 30 dias, inauguramos outra no shopping Anália Franco. Ao mesmo tempo, outas possibilidades surgiram em locais considerados muito promissores, com bom fluxo de consumidores e em regiões em que não estávamos presentes.

O valor do aluguel foi determinante para escolher esses locais?

Saber se o preço foi bom vai ser respondido depois, se as vendas alcançarem o patamar desejado e projetado. Mas sim, acreditamos que fizemos boas negociações e, principalmente, em locais muito bons. Se fizermos um levantamento dos melhores empreendimentos do país, nossas lojas estão nesses locais. E nos shoppings de ponta, a vacância é mínima, perto de zero.

Vocês são apostar na mega store ou em tamanhos menores de loja?

Preferimos lojas menores, com controle melhor do espaço, do estoque, do pessoal e com um visual mais fácil. Já tivemos duas experiências de lojas maiores, uma no Cidade Jardim e outra no JK Iguatemi. Ambas bem localizadas e tivemos que tomar a difícil decisão de mudar para u, local menor, de sair de um lugar de 2.500 m² para outro de 400m². Percebemos que não é nossa cara ter loja grande. Fizemos uma reforma da loja do Shopping Higienópolis e reinauguramos a do shopping Maia, que passou de 800 m² para 300 m² e pouco. Essa é a nossa cara, é assim que dá para tocar o barco.

Mas por que em shopping? Vocês não nasceram com loja de rua?

A loja de rua tem alguns limitadores. A loja de shopping não sofre com questões como frio, quente, chuva, falta de local para estacionar. E oferece todo tipo de comércio, tem restaurante, cinema. E a loja de rua enfrenta características diferentes ao longo do dia, o movimento é um de dia, outro à noite e muda nos fins de semana. Mas sim, nascemos como loja de rua e levamos 14 anos para ir para os shoppings.

E como estão as vendas online?

Ele fatura cerca do 7% do total, tem mês que vai melhor, em outros cai. Quando tudo tá fechado, aumenta. Não é nossa principal fonte de receita, mas já vai galgando posições e ficando à frente de algumas lojas. Hoje, as lojas de rua e do shopping Higienópolis são as que têm melhor desempenho. O site vem crescendo em ritmo orgânico, até porque temos muita preocupação com a questão logística. E março, quando tudo fechou, fomos muito testados.

O Brasil lê pouco mesmo?

A desigualdade é tão grande em todos os campos, e portando na educação também. E educação e livros estão absolutamente interligados. Quanto maior a educação, maior p índice de leitura. E não estou me referindo somente aos países da Europa e Estados Unidos, mas também aos da América Latina.

E mesmo com a crise, com dificuldade de lojas fechadas, continuamos vendendo, o que mostra que tem público leitor. O livro oferece um universo tão grande de deleite, escape e conhecimento que dificilmente outra manifestação cultural vai oferecer. O livro te acompanha por dias, por semanas.

E pobre não lê no Brasil?

Hoje, o livro tem isenção de PIS, Cofins e ICMS. Essa isenção sempre foi vista como importante para a formação de uma sociedade, pois é um incentivo à leitura. Ela existe desde 2004 e, por muito tempo, fez com que o livro subisse muito menos que a inflação. Falar que pobre não lê é uma inverdade ou um jogo de palavra. Há eventos culturais, como feiras e cursos, em que os autores são da periferia ou vão para lá falar com as pessoas.

É evidente que ninguém vai deixar de comprar feijão para comprar livro. Mas dizer que o pobre não vai ler nunca… É uma tristeza ouvir isso, é condenar a pessoa à falta de conhecimento. A classe média também lê pouco, três ou quatro livros por ano. Se a isenção acabar, os preços vão subir e ela também vai comprar menos livros. Não vejo sentido nisso.

E como ter mais leitores?

A pessoa precisa ir para a escola, para a biblioteca, adquirir o hábito de leitura. Desmistifica o livro como objeto que não pode dobrar ou riscar. Precisamos de bons professores e não podemos elitizar o que não precisa ser elitizado.

Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis

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