Não é novidade que o Boticário é uma das empresas queridinhas dos brasileiros. E para continuar ganhando os corações dos clientes, a companhia está apostando ainda mais em tecnologia para melhorar a experiência de compra e fidelizar mais pessoas.

Daniel Knopfholz, vice-presidente de Digital e Tecnologia do Grupo Boticário, afirma que as varejistas que conseguirem usar a tecnologia para resolver situações simples do dia a dia vão se destacar no mercado.

“Será que as pessoas vão aceitar fazer fila em uma loja ou vão achar um absurdo [depois da pandemia]? A tecnologia terá que ajudar a resolver esse problema, porque se a fila era algo que ninguém gostava, ela pode virar um motivo de desistência, então se torna prioridade resolver isso. Será que as pessoas não vão querer comprar porque não vão querer levar dinheiro ou cartão? Ou a compra vai ter que ser digital com reconhecimento fácil ou outra solução?”, questiona Knopfholz.

A empresa também vê a tecnologia como um instrumento de impacto social e, por isso, abriu um curso com 400 vagas para formar desenvolvedores. Segundo Knopfholz, o curso tem como foco resolver a falta de mão de obra qualificada no mercado e dar oportunidade a pessoas de baixa renda.

Mas fazer um curso profissionalizante não é a única forma de entrar nessa área, que está aquecida no mercado de trabalho. “A gente pensa que programar é só para quem tem talento e claro que ele ajuda, mas, assim como em qualquer profissão, existe técnica, que exige disciplina e aprendizado. Acho que a pessoa deve confiar que ela pode aprender e não desistir nos primeiros desafios, porque não é fácil”, afirma.

Leia a entrevista de Knopfholz ao 6 Minutos:

O Grupo Boticário oferece um curso para desenvolvedores de tecnologia. Qual o objetivo da formação?

O programa se chama Desenvolve e veio para resolver três problemas: um do Grupo Boticário, um do mercado e um social. O nosso problema, que é o mesmo do mercado, é falta mão de obra qualificada para linguagens específicas de programação que são muito necessárias e que entregam muito valor ao cliente.

Há 2 anos e meio, quando eu assumi a área de tecnologia, tínhamos sete desenvolvedores em casa em uma equipe de 250 pessoas. Hoje, temos 1.500 pessoas e praticamente 1.000 são desenvolvedores. É um crescimento muito acelerado e, assim como nós, tem muitas empresas contratando no segmento.

Por outro lado, vemos um problema social e uma oportunidade nessa situação. O mundo está em crise, no Brasil a situação é ainda pior, já que mais afundado em desemprego e inflação. Entendemos que era possível fazer o match entre desempregados e essa demanda existente, mas a maior oportunidade é que o mercado descobriu que para ser desenvolvedor não é necessário fazer um curso de longo prazo. Dá para aprender com dedicação e muito estudo e formar desenvolvedores entre quatro e seis meses.

Chegamos em um formato muito legal e resolvemos fazer disso um movimento de transformação social. Na área de tecnologia, a maioria dos profissionais é homem branco. A nossa transformação também é de buscar mais diversidade dentro da área.

Colocamos candidaturas para homens ou mulheres, mas demos mais vagas para mulheres, vagas reservadas para negros, para pessoas com deficiência e todas essas pessoas tinham que ter uma renda familiar de, no máximo, R$ 1 mil. Sabemos que uma vez no mercado, o desenvolvedor começa com um salário de, pelo menos, R$ 1 mil, às vezes até R$ 3 mil, então temos a capacidade de formar essa pessoa e triplicar a renda média daquela família em seis meses.

Para quem quer se tornar desenvolvedor e não pode fazer um curso, o que fazer para se profissionalizar? 

O legal é que não fomos os únicos a ter a ideia de fazer esse tipo de curso, já existiam algumas escolas gratuitas no mercado. Então a primeira coisa é procurar, porque existem outras oportunidades legais por aí. Mesmo assim, para quem não conseguir a tempo ou não for selecionado, é muito importante estudar e aprender a programar.

Estamos falando de uma área técnica então, para começar, você tem que ter alguns fundamentos. Existem muitos cursos no YouTube, livros. Precisa ter um pouco de curiosidade para estudar e ir atrás. Claro que é melhor fazer um curso, mas é possível baixar um programa online e ir treinando, existem versões gratuitas para iniciantes.

Não ter medo é o primeiro passo. Nós pensamos que programar é só para quem tem talento, é claro que ele ajuda, mas, assim como em qualquer profissão, existe técnica, que exige disciplina e aprendizado. Temos muitas pessoas na nossa equipe que não têm formação universitária, que são autodidatas e são craques de programação. Acho que a pessoa deve confiar que pode aprender e não desistir nos primeiros desafios, porque não é fácil.

Desde o início da pandemia, o e-commerce cresceu muito. O consumidor brasileiro mudou com essa nova realidade?

Uma parte do consumidor mudou, a outra só acelerou uma tendência que já existia. Todos iam passar por essa transformação digital, mas algumas pessoas poderiam continuar alguns anos sem precisar das compras online.

A tendência de crescimento do e-commerce era óbvia. Em 2018, compramos a Beleza na Web porque queríamos ter uma participação relevante no mercado. Com a pandemia, o que aconteceu é que, quem já usava o e-commerce, passou a usar praticamente o tempo todo. Quem usava pouco, aumentou a frequência, e, quem não utilizava, principalmente aqueles com menos acesso à internet ou mais idosos, entraram no mercado.

Estas pessoas fazem compras mais pontuais e planejadas. Talvez essa tenha sido a principal mudança de comportamento que aconteceu: eles entraram em um mercado que não estavam antes, mas com um comportamento diferente dos demais, porque são menos impulsivos, acumulam várias coisas para comprar de uma vez só.

Ainda sobre as compras online, a entrega rápida é a meta de muitas varejistas. Esta é uma preocupação do Grupo Boticário? 

Com a digitalização, as necessidades do consumidor vão ficando mais exigentes, a régua vai subindo. Não basta só ter a loja na sua cidade, ter dois ou três canais de vendas, como lojas, e-commerce e venda direta, mas o consumidor quer receber o produto em uma hora, por exemplo.

As necessidades vão ficando mais sofisticadas e a entrega rápida, hoje, é uma das necessidades latentes do consumidor. Mas nem sempre a entrega rápida é a que tem o prazo ideal, já que muitos consumidores querem comprar um presente para alguém e que chegue exatamente na data de aniversário do outro. Essa é a entrega mais difícil de ser feita.

A mesma coisa vale ao preço. Talvez o consumidor prefira uma entrega mais lenta e mais barata ou feita com bicicleta, para não emitir gases poluentes. O rápido não é a única necessidade. Ele é latente, mas existem outras questões relacionadas. O Grupo Boticário entende que, com milhares de revendedoras na rua, com quatro mil lojas e vários canais online de venda, tem uma capacidade de fazer entregas dentro dos prazos, custos e qualidade esperados.

Na hora da compra, vocês aceitam Pix no e-commerce. Como está a adesão dos clientes?

A adesão é muito alta e o Pix tem substituído rapidamente o boleto, que era um método bastante comum de compra para quem não tinha cartão de crédito. O consumidor confia bastante no Pix, o que é muito legal de ver, porque é um meio de pagamento importante para o mercado, que traz mais segurança para todo mundo. É uma transação mais barata tanto para o consumidor como para a empresa, além de fazer o fluxo de caixa girar mais rápido. Está funcionando muito bem.

Como funciona o programa de aceleração de startups do Grupo Boticário?

Buscamos companhias mais estruturadas e com potencial para solucionar problemas que os clientes encontram no nosso segmento. O primeiro é relacionado ao varejo em si, para solucionar problemas como encontrar formas de comprar mais rápido ou pagamentos mais simples. Por isso, buscamos retailtechs.

Depois, buscamos beautytechs, empresas de beleza que estão trazendo alguma inovação ao mercado, que misture cosméticos, fragrâncias e tecnologia. E um terceiro problema mais amplo é resolvido com empresas que chamamos de trendsetter, que são aquelas que estão criando novas formas de comportamento para os consumidores.

Nos inspiramos em vários programas que já existem no mercado, como o da Endeavor. Para nós, o investimento é a parte minoritária do GB Ventures, nosso foco sempre foi acelerar as empresas e, obviamente, podemos aportar algum investimento para as companhias que fizerem sentido para a gente. Na segunda edição, o foco é acelerar 10 startups [as inscrições estão abertas].

Quais são os desafios para o varejo conseguir expandir cada vez mais?

O desafio de todos os varejistas é entender como será o comportamento do consumidor em um eventual retorno ou manutenção de estabilidade da covid, depois de termos vivido quase dois anos de experiências tão diferentes e intensas.

Será que as pessoas vão aceitar fazer fila em uma loja ou vão achar um absurdo? A tecnologia terá que ajudar a resolver esse problema, porque se a fila era algo que ninguém gostava, ela pode virar um motivo de desistência, então se torna prioridade para resolver.

Será que as pessoas não vão querer comprar porque não vão querer levar dinheiro ou cartão? Ou a compra vai ter que ser digital com reconhecimento fácil ou outra solução? Ou até vão preferir a compra em casa, mas vamos ter que ter lojas para gerar experiências incríveis?

Temos que entender qual o problema profundo dos clientes e achar soluções simples. Acho que a empresa que conseguir resolver uma fila de uma loja física, por exemplo, vai ter muita vantagem competitiva. Precisamos entender quais são os novos desafios e resolver os problemas para que os consumidores consigam pagar o menos possível, com menor impacto socioambiental e economizando tempo. As empresas que olharem para esse tripé vão estar sempre a frente.

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