Mesmo quando a pandemia de coronavírus perder tração, a tendência é que as viagens internacionais percam parte do antigo apelo, pelo menos no médio prazo, aumentando o peso dos voos domésticos na receita das companhias aéreas.

A avaliação é do sócio da consultoria empresarial Bain & Company e especialista em aviação André Castellini, que em entrevista ao 6 Minutos explicou que esse cenário se deve ao fato de que muitos países desenvolvidos passarão a investir pesado para detectar o mais cedo possível novas infecções.

“Os países desenvolvidos que tiveram prejuízos humanos astronômicos com a pandemia vão direcionar esforços de inteligência para detectar cedo possíveis novas doenças contagiosas, e fechar as fronteiras muito rapidamente como reação”, aponta. “Se esse cenário se concretizar, vai criar um receio em torno das viagens internacionais. O viajante não quer ficar ‘preso’ em outro país no meio dessas emergências.”

De acordo com ele, outra mudança mais permanente trazida pela pandemia é nas viagens de negócios, que respondiam por 60% da receita das empresas do setor aéreo. Na avaliação do especialista, 25% desse mercado deixará de existir. “Parte das viagens organizadas por empresas eram uma mistura de negócios com lazer, com eventos em hotéis organizados por farmacêuticas, montadoras. Muitos desses eventos vão deixar de ocorrer”, avalia.

Leia abaixo a entrevista completa.

Quais as perspectivas para as companhias aéreas no pós pandemia?

Ainda tem bastante incerteza sobre quando e como a demanda voltará. Há variáveis que ainda não estão muito claras. Uma das incertezas é a própria evolução da doença e como vai ser a terceira onda. Outra dúvida são as restrições para viagens internacionais. Em julho, haverá uma abertura razoável na Europa e nos Estados Unidos, mas ainda não se sabe se isso vai englobar brasileiros.

O terceiro bloco de dúvidas é o quanto as soluções de videoconferências, que avançaram bastante, vão substituir as viagens a negócios. Sabemos que será algo significativo, mas não se sabe ainda qual a proporção disso.

E ainda temos as incertezas envolvendo o nível de atividade econômica no Brasil e o patamar de câmbio que teremos. No cenário base, estamos prevendo que mais de 25% das viagens corporativas que eram feitas antes da pandemia, e que representavam 60% da receita das companhias aéreas, não acontecerão mais.

Como ficarão as viagens internacionais?

Em primeiro lugar, é importante lembrar que no mundo todo os países saem da pandemia endividados. Por isso, o crescimento global de médio prazo será mais baixo do que seria sem a pandemia. Isso explica porque o Fed [banco central dos EUA] está tão preocupado com o cenário global. Esse endividamento é ruim para a atividade econômica.

Mesmo assim, os países desenvolvidos que tiveram prejuízos humanos astronômicos com a pandemia vão direcionar esforços de inteligência para detectar cedo possíveis novas doenças contagiosas, e fechar as fronteiras muito rapidamente como reação. Se esse cenário se concretizar, vai criar um receio em torno das viagens internacionais. O viajante não quer ficar ‘preso’ em outro país no meio dessas emergências, e vai começar a pensar duas vezes antes de pegar um voo para o exterior.

E isso favorece os voos domésticos?

Sim. A própria queda de viagens de negócios vai fazer o mix ser mais favorável para os voos domésticos. As pessoas tendem a ficar mais tranquilas viajando dentro do país, em especial as mais velhas.

Como você vê o papel do chamado “consumo de vingança” se a pandemia perder tração no Brasil? Pode haver um pico de demanda por alguns meses?

Esse consumo de rebote ou consumo de vingança vai acontecer, inclusive nas viagens corporativas. Algumas viagens de negócios podem acontecer para resolver temas pendentes durante a pandemia, por exemplo.

Vamos ver um pico momentâneo, que pode fazer com que o volume de voos seja até mais alto ou próximo de níveis pré crise. Mas depois vai bater a realidade de que parte das viagens de negócios vai deixar de acontecer. Parte das viagens organizadas por empresas eram uma mistura de negócios com lazer, com eventos em hotéis organizados por farmacêuticas, montadoras. Muitos desses eventos vão deixar de ocorrer.

Também teremos um aumento de viagens para casamentos que foram postergados, aquela festa do bar mitzva que não aconteceu, a pessoa que vendeu uma fazenda e vai regularizar o negócio, tudo isso.

Mas depois voltaremos a um nível coerente com a atividade econômica. As perspectivas para o dólar em 2022 não são boas quando se pensa no quanto as eleições presidenciais serão polarizadas. Acreditamos que o setor aéreo só volta para os níveis pré-pandemia entre o final de 2022 ou o início de 2023, e o internacional somente em 2025.

Qual a tendência para os preços das passagens no médio prazo?

A tendência é de alta, porque o encolhimento da indústria gera uma ‘deseconomia’ de escala. Alguns custos das companhias podem ser renegociados para baixo, como leasings [arrendamento de aviões], mas representam pouco das despesas. Além disso, o real se desvalorizou e o combustível de aviação aumentou.

André Castellini, sócio da Bain & Company e especialista no setor aéreo (Divulgação)

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