O desemprego em alta combinado à disparada de preços está dificultando o reajuste real da renda dos trabalhadores. Julho, por exemplo, foi o pior mês do último ano em negociações salariais, segundo o Boletim Salariômetro, divulgado pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

O que isso significa? Que as negociações salariais não estão conseguindo acompanhar a inflação do período. Em julho, o reajuste salarial médio ficou em 7,6%, abaixo da inflação acumulada nos últimos 12 meses de 9,2%. Ou seja, os salários tiveram perda real e o poder de compra dos trabalhadores foi achatado.

Para Hélio Zylberstajn, coordenador do Projeto Salariômetro e professor da FEA-USP (Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo), esse descolamento entre a correção dos salários e a inflação vai continuar por um bom tempo. “A fotografia lá da frente não é muito boa, não dá para se animar. A projeção é que o INPC continue em alta nos próximos meses, não dando muito espaço para recomposição de salários.”

Veja abaixo entrevista com Hélio Zylberstajn:

Por que os reajustes salariais não estão conseguindo acompanhar a inflação?

São vários os fatores. O primeiro é que a inflação está muito alta. O indicador utilizado nas negociações é o INPC, que mede a inflação para famílias com renda até cinco salários mínimos. Para essas famílias, a inflação gira em torno de 10%.

O segundo fator é que para recompor os salários, seria preciso dar um aumento muito alto. E o país ainda não saiu da recessão, ainda estamos patinando. As empresas não conseguem dar aumentos salariais, porque elevaria demais o custo da folha de pagamento.

Essa situação deve ser revertida nos próximos meses?

A fotografia lá da frente não é muito boa, não dá para se animar. A projeção é que o INPC continue em alta nos próximos meses, não dando muito espaço para recomposição de salários

Por que os trabalhadores não conseguem batalhar por esse reajuste?

O cenário não está muito favorável. O desemprego está muito alto, o trabalhador não consegue endurecer demais na negociação porque há o temor de perder seu emprego.

Então não é o caso de fazer greve? Elas vão voltar?

Elas voltam quando o mercado está muito aquecido. Aí o poder de barganha dos trabalhadores aumenta e eles conseguem exigir mais das empresas. Nas condições atuais, o poder de barganha está muito reduzido. O trabalhador pensa em fazer greve, mas ele olha para o estoque da empresa e vê tudo cheio. A greve é um favor para a empresa, ajuda ela a parar de produzir.

Reajustes por categoria

De acordo com o boletim, apenas o segmento de comércio atacadista e varejista conseguiu reajuste com ganho real (9,5%) em julho. Já bancos e serviços financeiros (9,2%) conseguiram, ao menos, empatar com a inflação.

Para os próximos meses, o INPC deve ficar acima de 9% e romper a casa dos 10% em setembro, se mantendo em pelo menos 7% até meados do primeiro semestre de 2022.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).