A melhora gradual da economia brasileira e a aprovação da reforma da Previdência em outubro passado abrem caminho para a reconquista do grau de investimento pelo país, certo? Não é bem assim e o caminho para isso é longo, adverte a Fitch Ratings, uma das três grandes agências de classificação de risco do mundo.

O que disse a agência? A Fitch Ratings elogiou os juros baixos, mas destacou uma série de outros riscos do lado político que podem afetar o cenário para reformas neste ano, sem emitir sinais de melhora no curto prazo na nota de crédito soberano do país.

O que é mesmo o grau de investimento? Por que ele importa? O grau de investimento (investment grade em inglês) serve como uma espécie de selo ou atestado de confiabilidade de um país em honrar em dia os seus pagamentos em dívida soberana, ou seja, nos títulos vendidos pelo governo.

Um país que dispõe do grau de investimento de 2 das 3 grandes agências se torna apto a receber investimentos dos grandes fundos do mundo, uma vez que muitos deles colocam essa pré-condição na hora de alocar seus recursos. Um país que tem esse selo acaba beneficiando também as empresas, facilitando a emissão de títulos.

As outras duas mais importantes agências são a Standard & Poor’s (S&P) e a Moody’s. Todas são americanas.

Quanto tempo deve demorar para que o país recupere o grau de investimento? Shelly Shetty, diretora sênior e co-head de ratings soberanos das Américas para a Fitch, disse que, em média, países com perfil parecido com o do Brasil demoram de dez a 11 anos para recuperar o grau de investimento, contra uma média geral de seis anos.

As três agências cortaram o Brasil para território especulativo (abaixo do grau de investimento) entre setembro de 2015 e fevereiro de 2016, em meio a um processo de piora fiscal e de aumento da dívida pública.

Qual a análise que a Fitch faz da política fiscal do país? A executiva considerou uma “boa notícia” a queda da dívida pública com proporção do PIB em 2019, mas previu que o país ainda caminha para registrar déficits primários — ou seja, a gastar mais do que arrecada, sem contar os gastos com juros — até pelo menos 2022.

Ela ressaltou que a reforma da Previdência sozinha não é capaz de levar a uma consolidaçao fiscal, ou seja, a fazer o governo reduzir os déficits e, por tabela, a dívida — isso aconteceu em 2019 graças a fatores extraordinários, como pagamentos do BNDES ao Tesouro e a venda de uma parte das reservas internacionais.

O que disse a diretora da Fitch? “Precisamos ver o que vai passar (de reformas) considerando as eleições de outubro. Existem riscos políticos, riscos sobre a capacidade de aprovar as reformas, e vamos avaliar o que isso significa em termos do processo de consolidação fiscal”, afirmou Shetty em evento em São Paulo.

Qual a previsão para a economia? A Fitch prevê que a taxa Selic permanecerá baixa pelo menos ao longo deste ano, com os juros baixos devendo ser sentidos na cadeia de crédito e nos mercados de capitais.

Ainda assim, o crescimento potencial do Brasil estimado pela Fitch segue abaixo de 2%. Em dezembro passado, a agência elevou de 2,0% para 2,2% a previsão de crescimento econômico do país para 2020 e também aumentou — de 0,8% para 1,1% — o número para 2019.

Afinal, qual a nota de crédito (rating) da Fitch para o Brasil? A última atualização da nota do Brasil pela Fitch ocorreu em novembro passado, quando a agência confirmou o “rating” “BB-” com perspectiva estável, devido ao elevado endividamento do governo, à rigidez fiscal e ao fraco crescimento econômico potencial. Essa nota está três degraus abaixo do mínimo necessário para o grau de investimento (“BBB-” na escala da agência).

(Com a Reuters)

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.uol.com.br/whatsapp.