O avanço da vacinação, sozinho, já mostrou que não é suficiente para salvar as vendas do comércio. Em agosto, as vendas do setor afundaram 3,1%, resultado que surpreendeu o mercado porque veio muito pior que o esperado – a expectativa era de crescimento. Entre os motivos que explicam esse freio no consumo está a disseminação da inflação.

“Ainda que a pandemia pareça mais controlada com o avanço da vacinação, outros fatores estão puxando para baixo o comércio”, diz Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do IBRE FGV (Instituto Brasileiro de Economia da FGV). “Setores como hiper e supermercados, combustíveis e lubrificantes, que sentem o impacto da inflação de maneira mais direta, foram afetados.”

Mas não é só a inflação que está segurando a disposição do consumidor de gastar. O crédito mais caro, o aumento do desemprego, o fim do auxílio emergencial e as incertezas sobre as condições econômicas e políticas de 2022 também inibem os gastos.

“Estamos passando por um período de forte pressão inflacionária, que deteriora a renda das famílias. E tudo isso em um cenário de desemprego elevado, crise energética, desorganização das cadeias produtivas”, diz Bruno Machado, diretor de contas da consultoria Kantar.

O Índice de Confiança do Consumidor do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da FGV) já sentiu esse mau humor. Em setembro, caiu para 75,3 pontos, menor patamar desde abril, após recuperação da segunda onda de covid-19.

Vai faltar consumidor?

O último trimestre do ano é marcado por datas importantes para o varejo, como Natal e Black Friday. A dúvida é se esse consumidor vai ter dinheiro ou confiança para gastar em condições tão desfavoráveis. Afinal, os preços subiram e os salários não acompanharam o aumento.

“Para este fim de ano, diria que o maior risco é de falta de consumidor. Estamos vendo uma inflação bastante forte, um desemprego que não baixa a guarda, o crédito ficando cada vez mais caro. O consumidor está abalado com todas essas circunstâncias e com as incertezas”, afirma Jean Paul Rebetez, sócio-diretor da Gouvea Consulting.

Segundo Viviane Seda Bittencourt, coordenadora das Sondagens do Ibre, a queda na confiança do consumidor é generalizada. “O pessimismo é maior entre as famílias de menor poder aquisitivo, mas é bastante disseminado entre todas as faixas de renda.”

Projeções

Por enquanto, a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) mantém a previsão de as vendas do varejo vão crescer 4,9% neste ano. Mas alerta que a alta de preços pode limitar essa alta.

Já a XP estima um desempenho um pouco mais fraco, de 4,5% para este ano. Para 2022, a corretora prevê um avanço de 1,2%.

“Acreditamos que as vendas no varejo irão crescer de forma modesta no curto prazo (e com sinais erráticos na comparação mensal)”, diz em relatório Rodolfo Margato, economista da XP.

Tobler, da FGV, diz que o varejo deve fechar o ano com crescimento, pois continua acima do nível pré-pandemia. “A expectativa é que essa recuperação aconteça de forma mais gradual daqui para a frente em função desses fatores macroeconômicos, da inflação que não cede, da falta de confiança. Tudo isso gera turbulência, fazendo com que a recuperação seja gradual.”

Mau humor também na indústria

A indústria começou a sentir os efeitos do pessimismo do consumidor e do comércio. Em setembro, o Índice de Confiança da Indústria do FGV IBRE caiu 0,6 ponto, segundo mês consecutivo de queda após quatro meses de altas.

Para a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), o risco de falta de insumos é um limitador do crescimento do setor. “Se a economia melhorar, vai faltar produtos”, diz o presidente da entidade, José Ricardo Roriz Coelho.

 

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