Racismo reverso? Talvez você tenha escutado essa palavra nos últimos dias após a polêmica envolvendo os programas de trainee abertos pelo Magazine Luiza e Bayer. Com salário de quase R$ 7.000, as duas empresas abriram, pela primeira vez em suas histórias, programas de treinamento exclusivamente para negros.

O que era para ser tratado como política afirmativa de inclusão racial se transformou em uma discussão sobre discriminação contra brancos após o tuíte da juíza Ana Luiza Fischer Teixeira de Souza Mendonça: “Discriminação na contratação em razão da cor da pele: inadmissível”, tuitou ela.

Existe racismo reverso contra brancos? Não. E é preciso entender primeiro o que é racismo antes de falar sobre racismo reverso, segundo Guilherme Gobato, sócio-fundador da Diálogos Entre Nós, consultoria de diversidade e inclusão.

“Gosto de citar a [filósofa e escritora] Djamila Ribeiro: racismo pressupõe uma estrutura de poder em que alguém domina e alguém é dominado. O negro nunca teve poder institucional para promover o racismo contra o branco. Nunca existiram navios branqueiros. Não houve escravidão de brancos”, afirma ele.

Para Gobato, falar em racismo reverso é querer negar a própria história do Brasil. “Foram 338 anos de escravidão no Brasil. Todas as desigualdades de oportunidades se perpetuaram desde então.”

Que desigualdades são essas? O racismo se dá desde a desigualdade de salários e menor presença de negros em cargos de liderança até em situações do dia a dia. “Um branco é seguido no shopping por simplesmente ser branco? Um negro sim. Na TV, a maioria dos atores e atrizes são negros?”, exemplifica Gobato.

Não é ilegal fazer uma seleção exclusivamente de negros? Tanto não é como está prevista em lei. Se trata de uma ação afirmativa, disposta no artigo 4º da Lei nº 12.288, conhecida como Estatuto da Igualdade Racial: “a participação da população negra, em condição de igualdade de oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do país será promovida, prioritariamente, por meio de: I- inclusão nas políticas públicas de desenvolvimento econômico e social e II- adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa, dentre outras”.

O que é discriminação positiva? O MPT (Ministério Público do Trabalho) tem uma boa explicação para isso: “é um tipo de discriminação que tem como finalidade selecionar pessoas que estejam em situação de desvantagem tratando-as desigualmente e favorecendo-as com alguma medida que as tornem menos desfavorecidas”.

“A discriminação positiva é amparada MPT, que por sua vez se fundamenta na Constituição. Racismo reverso é como unicórnio: não existe, mas algumas pessoas acreditam nele”, diz Gobato.

Por que esses programas de trainee deram o que falar? Gobato diz que outras empresas já abriram antes programas com contratação exclusiva de negros. Mas que os da Bayer e Magazine Luiza geraram mais polêmica. “Não sei se pelo salário elevado ou se pelo momento de crise e desemprego elevado que pode levar os trabalhadores brancos se sentirem preteridos para boas oportunidades.”

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