Se as estimativas se confirmarem, o Brasil apresentará em 2020, ano marcado pela forte contração da economia global como consequência da pandemia de coronavírus, uma das menores quedas do PIB (Produto Interno Bruto) entre os países da América Latina. Por outro lado, a retomada da nossa atividade econômica neste ano também acabará sendo uma das mais fracas da região.

Projeções do Banco Mundial feitas no início deste mês apontam que a economia brasileira terá um tombo de 4,5% em 2020 –os dados oficiais ainda não foram divulgados. Neste ano, a alta será de 3%. Os analistas ouvidos semanalmente pelo Banco Central estão um pouco mais otimistas: esperam queda de 4,3% no ano passado e crescimento de 3,45% em 2021, segundo o último relatório.

ESTIMATIVA PARA O PIB DE PAÍSES DA AMÉRICA LATINA EM 2020 E PROJEÇÃO PARA 2021  
PAÍSESTIMATIVA/ PIB 2020 (em %)PROJEÇÃO/ PIB 2021 (em %)
Argentina-10.64.9
Bolívia-6.73.9
Brasil-4.53
Chile-6.34.2
Colômbia-7.54.9
Costa Rica-4.82.6
República Dominicana-6.74.8
Equador-9.53.5
Haiti-3.81.4
Jamaica-94
México-93.7
Nicarágua-6-0.9
Panamá-8.15.1
Paraguai-1.13.3
Peru-127.6
Suriname-13.1-1.9
Uruguai-4.33.4
Fonte: Banco Mundial

A razão para o desempenho brasileiro ter sido melhor (ou menos ruim) no ano passado é a quantidade de estímulos à economia, com destaque para o auxílio emergencial. “Dentro dos emergentes, o Brasil foi um dos países que mais colocou estímulos, apesar de ter uma situação fiscal frágil”, aponta Luís Cesário, economista-chefe da empresa de investimentos Asset 1. “Isso fez com que a nossa recuperação fosse bem rápida, nos destacando entre os emergentes. Foram estímulos diretos, como o auxílio emergencial, e indiretos, como os incentivos ao Banco Central”.

Rossano Oltramari, sócio e estrategista da gestora 051 Capital, lembra que boa parte do mergulho dado pela economia brasileira entre março e abril, quando o impacto do isolamento social sobre a atividade foi sentido com mais força, já foi recuperado. “A economia já retomou mais de 80% do que foi perdido nesses meses. O que não voltou foi o setor de serviços, que depende diretamente do fim da pandemia para reagir”.

Efeito do fim do auxílio e velocidade da vacinação são dúvidas para 2021

Neste ano, entretanto, o cenário é diferente. Ao lado do fim do auxílio, cujo impacto será sentido com força em especial neste primeiro trimestre, a segunda onda de coronavírus e a lentidão do processo de vacinação em massa no Brasil é uma das principais preocupações dos economistas para este ano.

“Em 2020, os países desenvolvidos conseguirão fazer uma retirada mais lenta dos estímulos fiscais, ou até mesmo implementar novos pacotes, como será feito nos Estados Unidos. Não é o caso do Brasil, onde nosso fundamento fiscal é ruim, com nossa dívida próxima de 90% do PIB”, aponta Cezário.

Outra pedra no caminho é a ineficiência da nossa vacinação contra a covid-19, crucial para a retomada da economia e para que os estímulos fiscais deixem de ser tão necessários.

“A vacinação poderia mitigar ou acentuar o efeito do aperto fiscal. Por enquanto a perspectiva é ruim, já que começamos esse processo atrasado e o plano ainda parece desorganizado. Há um problema de curto prazo para se conseguir importar doses prontas e insumos”, aponta o economista da Asset 1.

Oltramari, da 051 Capital, afirma que a vacinação é crucial para permitir a retomada de serviços, setor altamente empregador e importante para a melhoria no mercado de trabalho acontecer. “A economia vai crescer forte quando o setor de serviços começar a deslanchar. Mas estamos em plena segunda onda, com início da vacinação atrasada. Ainda não sabemos se será ou não necessário um lockdown, isso vai depender dos dados que forem saindo”, aponta Rossano

O Brasil ainda enfrentará outras dificuldades pelo caminho. Uma delas é a inflação, que segundo os analistas do boletim Focus deverá subir 3,43% neste ano.

“Em 2020, infelizmente tivemos altas de preços expressivas em produtos importantes, que acabaram batendo na inflação. O grupo de alimentação apresentou alta acumulada de mais de 14%. Creio que esse ano teremos menor pressão nos preços dos alimentos, mas tudo vai depender de como a economia vai responder à vacinação, com qual velocidade a economia vai se recuperar”, diz Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos.

O que joga a favor do Brasil

Há alguns pontos, por outro lado, que jogam a favor do Brasil em 2021. Um deles é a poupança que uma parcela da população fez no ano passado, seja pelo medo do futuro, seja porque o isolamento social restringiu o consumo.

A expectativa é que uma parte desses recursos voltem à economia neste ano, mas isso acontecerá de forma mais lenta, não compensando imediatamente o fim do auxílio. “A preocupação é com o fato de que a queda da renda de quem recebia o auxílio vai ser rápida, abrupta, enquanto que a volta da poupança gerada pela pandemia é mais lenta, está ligada ao ritmo de vacinação”, explica Cesário.

Ainda do lado do otimismo, a expectativa é que alguns setores tenham desempenho particularmente bom neste ano. “Setores ligados ao consumo devem ter um bom desempenho, como o setor de construção, que foi muito penalizado nos últimos anos, e aqueles ligados à recuperação doméstica, como ensino e shoppings”, diz Espírito Santo, da Órama. “Pesa contra o fim do auxílio emergencial e a falta de reformas. Seria muito importante que pudéssemos voltar ao ajuste fiscal que estava em curso antes da pandemia”.

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