O Tesouro Nacional se preparou para 2022 com munição robusta para gerir a dívida pública, ano de eleição presidencial. O colchão de liquidez brasileiro, que atingiu R$ 1,01 trilhão em outubro, deve terminar o ano ainda mais reforçado.

O valor pode chegar a R$ 1,1 trilhão no encerramento de 2021, segundo cálculos do ex-secretário do Tesouro Carlos Kawall, hoje diretor da Asa Investments, e do ex-chefe do Demab do BC Sergio Goldenstein, atual estrategista-chefe da Renascença. O volume está pouco abaixo da máxima histórica, de R$ 1,2 trilhão em agosto de 2021, e próximo ao total de vencimentos do Tesouro em 2022, de R$ 1,14 trilhão.

Isso não significa que o Tesouro “não precise fazer nada” durante o próximo ano, diz Kawall, já que uma queda no caixa também pode gerar estresse no mercado. O governo passa a ter, no entanto, um poder muito grande de suavização quando o mercado estiver ruim, e de acelerar as emissões quando houver mais demanda, diz ele.

“Se houver momentos de volatilidade, ou de estresse no mercado de juros, seja por fatores domésticos, seja por externos, o Tesouro tem espaço para reduzir suas emissões, tanto de prefixados, quanto de NTN-B”, diz Goldenstein.

Além da volatilidade historicamente mais elevada em ano de disputa para presidente, o Brasil passa ainda por um cenário de inflação alta e perspectiva de crescimento baixo. Tudo isso pode ainda ser agravado por esperadas altas de juros nos Estados Unidos e fortalecimento do dólar.

Um ano de cobertura

O patamar suficiente para honrar quase um ano inteiro em vencimentos é relativamente novo na estratégia do Tesouro. Até 2015, o governo costumava ter em caixa o suficiente para cobrir entre três e seis meses de dívida. Esse valor foi sendo elevado ao longo dos anos, chegando a 12,7 meses em 2016 e 12,6 meses em 2018.

A atuação recente do Tesouro se favoreceu do aumento da demanda por títulos pós-fixados, as LFT, na medida em que a taxa Selic vem sendo elevada pelo Banco Central. As ofertas expressivas de LFT têm permitido o alongamento do perfil da dívida e uma distribuição de títulos com um equilíbrio melhor.

“Como as emissões passaram a ser mais equilibradas, com o aumento da participação relativa de LFT, o Tesouro não vai exercer uma pressão relevante sobre a curva de juros no próximo ano nas suas ofertas públicas”, diz o estrategista-chefe da Renascença.

Riscos

Em um contexto de elevação de juros pelo Fed e de agitação pelas eleições no Brasil, não dá para se descartar a possibilidade de que uma turbulência no mercado possa obrigar o Tesouro inclusive a partir para a recompra de seus títulos, como já aconteceu antes. “A chance de um episódio desses ocorrer em 2022 é bastante razoável e essa ‘gordura’ que o Tesouro está tendo vai ser muito importante no ano que vem”, diz Kawall.

O maior risco para o Tesouro, no entanto, é doméstico, especialmente se houver sinais de descontinuidade fiscal ainda maior em 2023, com aumento de gastos e continuidade do populismo. Nesse caso, não será um colchão de R$ 1 trilhão que vai resolver todo o problema, na avaliação do ex-secretário.

Um aumento da percepção do risco de crédito, devido a uma deterioração aguda do cenário fiscal, poderia afetar o mercado secundário de dívida, chegando ao mercado primário, segundo Goldenstein.

O Tesouro, na situação atual, pode ser comparado a um bombeiro que está bem abastecido de água para apagar um incêndio, diz Kawall, mas tudo depende também do tamanho do fogo. “O problema é que no Brasil as pessoas fazem o que fizeram agora com o fiscal: viram que melhorou um pouco e já querem gastar mais e estragar tudo.”

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