A escalada no conflito entre poderes e o risco de ruptura institucional já estão batendo na economia real, mantendo o dólar acima de R$ 5 e elevando as expectativas de inflação. A esse cenário conturbado, se somam as crescentes preocupações com as contas públicas, o que força o Banco Central a subir os juros mais do que seria necessário em condições normais de temperatura e pressão.

O diagnóstico é de Ilan Goldfajn, que hoje comanda o conselho do Credit Suisse no Brasil e que foi presidente do BC entre 2016 e 2019. Ao longo do seu mandato, a autoridade monetária reduziu os juros básicos de 14,25% para 6,5% ao ano, ao mesmo tempo em que implementou uma agenda de modernização e aumento da concorrência no sistema financeiro.

Em entrevista ao 6 Minutos, Goldfajn fez uma análise do cenário macro, comentou a revolução tecnológica entre os bancos e fintechs e avaliou as consequências que o clima de forte tensão na política brasileira pode ter para a economia.

Para o executivo, a tendência é que o Brasil siga no longo prazo com juros abaixo de 10%, mas lembra que os riscos fiscais podem atrapalhar. “O cenário fiscal torna o controle da inflação muito mais custoso. Tem que ter um juro maior, a economia tem que desacelerar, aí você não consegue criar mais empregos no Brasil. Você torna a política monetária muito mais difícil. Para controlar a inflação, você acaba tendo que desaquecer a economia mais do que seria necessário”, apontou.

Leia abaixo a entrevista completa com Goldfajn.

Alguns economistas afirmam que nenhum BC do mundo dá conta de controlar inflação em um cenário de risco fiscal muito elevado. Como o senhor vê esse cenário, ainda mais com as eleições se aproximando?

O cenário fiscal torna o controle da inflação muito mais custoso. Tem que ter um juro maior, a economia tem que desacelerar, você não consegue criar mais empregos no Brasil. Torna a política monetária muito mais difícil. Para controlar a inflação, você acaba tendo que desaquecer a economia mais do que seria necessário.

O ideal é sempre a política econômica do país estar alinhada com a política monetária, você faz um controle fiscal e isso ajuda no controle da inflação e permite juros menores.

A gente observou isso nos últimos anos. Os juros foram caindo na medida em que o fiscal melhorou. Teve teto de gastos, teve a reforma da Previdência, e algumas reformas que foram acontecendo nos ajudaram a derrubar a taxa de juros. E o BC tem o poder, com a comunicação, trabalhando expectativas, de derrubar a inflação.

É claro que no limite você tem o que se chama dominância fiscal, na qual a política monetária não consegue agir. Mas não acho que é o caso, é muito extremo. Normalmente, a política fiscal não atrapalha. Não acho que estamos em dominância fiscal. Apenas os juros acabam sendo maiores do que deveriam ser e a economia sofre mais porque o fiscal não está arrumado.

Estamos vivendo um momento muito tenso, dia a dia tem alguma notícia de confronto entre poderes. O que isso pode fazer com a economia brasileira?

Eu acho que já está fazendo. Todos esses ruídos, todas essas incertezas, estão fazendo com que as nossas expectativas de inflação lá para frente subam, mesmo com a nossa economia, que provavelmente vai desaquecer. Quando você olha a taxa de câmbio, que afeta a inflação, ela não cede, está lá acima de R$ 5, não consegue cair mesmo com apreciação de commodities.

Todos esse conflitos de certa forma desnecessários, essas brigas, essa vocalização, não são os conflitos reais que a gente tem. Conflito real é a perda de poder de compra das pessoas, a inflação sobe e elas não têm dinheiro para comprar, elas não têm um emprego que precisam ter. São esses os conflitos reais, os problemas reais.

O senhor acha que existe um risco real de ruptura? Por muito tempo se considerou que isso era só falatório, espuma. Isso passou a ser um risco concreto?

Eu normalmente não costumo ver ameaças onde não existem, mas nesse caso acho que a gente não deveria minimizar quando altos poderes começam explicitamente a falar que não vai ter eleição, começam a falar em poder moderador. Não podemos achar que é tudo bravata, que é tudo algo para a mídia, que é tudo algo para grupos específicos. Acho que a sociedade tem que levar a sério o que os seus governantes falam. E não pelas expectativas de inflação, mas a própria democracia, que temos que levar a sério.

O Banco Central demorou para começar a subir os juros? 

Nosso problema foi o ano passado. Tínhamos uma crise de covid que nunca antes tinha sido experimentada, a última pandemia foi a gripe espanhola, há 100 anos. Em março, abril, todo mundo ficou isolado, a queda do PIB foi enorme, e a pergunta que se fazia era o que a política monetária podia fazer.

E aqui não se falava somente em dar liquidez, ajudar os mercados, se falava em juros mesmo. E o que eu percebia na época era que o mercado, analistas, todos estavam na linha um pouco extrema. Vamos reduzir juros para zero, vamos fazer o que chamam de QE, que é o quantitative easing, que é a expansão monetária, vamos emitir moeda.

E isso não foi o BC, foi o mercado, foram analistas, todo mundo. O BC embarcou um pouco nisso, levou os juros a 2% ao ano. Não embarcou completamente nisso, não levou a zero. Mas acho que ele embarcou pela metade.

Levou os juros a 2% e fez o foward guidance. E o que é o foward guidance? É se comprometer a ficar com juros de 2% por muito tempo.  E muita gente dizia: juro negativo é normal, em países desenvolvidos o juro é zero, está tudo certo. Mas quem tem um pouco de experiência em Brasil, em inflação, dizia: olha, o Brasil não é país de inflação baixa não, é país de cuidado, nosso objetivo é sempre cuidar da inflação, e não cuidar da desinflação.

E as vezes eu vejo que tem analistas dizendo: ih, vai ter inflação muito baixa. Lembro de ex-secretário do Tesouro preocupado, dizendo que nunca mais vai voltar a inflação no Brasil. Em seis meses, a inflação está quase 10%. Então, é um erro de diagnóstico.

E agora muita gente vem dizer: foi o BC que demorou. Não. Foi todo o mercado, todos os analistas, que basicamente foram extremos no ano passado e acabaram levando nossa política monetária a terreno que não deveria ter ido. Agora estamos correndo atrás do prejuízo. O BC vai subir juros, a inflação vai acabar cedendo, mas juros e inflação não precisavam chegar ao nível em que estão chegando.

Se o fiscal estivesse em ordem, daria para resolver com menos confusão. Se não tivesse tanto ruído institucional, também. Mas a combinação de fiscal, ruído institucional e uma ida extrema a 2% por mais tempo, a combinação desses três nos levou onde estamos hoje.

Então foi uma espécie de tempestade perfeita?

É, a diferença é que tempestade ocorre, não somos nós que fazemos. E esses três fatores fomos nós que criamos, de certa forma.

O senhor acha que o Brasil deixou para trás totalmente a época de juros acima de 10%? A gente pode ter essa certeza?

Quando eu saí do BC, eu tinha muita esperança que os dias de juros altos iam ficar para trás, e que a gente ia ficar numa faixa de um dígito, e que ia subir, ia descer.

Ainda sou otimista de que mudamos estruturalmente. Mas na verdade estamos remando contra, estamos fazendo um esforço grande para sair desse um dígito, estamos quase lá.

O BC agora tem autonomia. O que o senhor acha que isso muda na prática? 

Tem a autonomia de facto e a autonomia de jure, que está na lei. As duas são muito importantes. Eu não substituiria uma pela outra. A autonomia de facto é o controle sobre expectativas, confiança no BC, as pessoas saberem que não tem risco de descontrole lá na frente.

A de jure tem uma contribuição muito importante. Em épocas de eleições, por exemplo em 2022, é possível que haja mudança de governo. Mas o Banco Central não vai mudar, porque por lei a autonomia do BC vem com mandatos fixos.

Então, o mercado, agentes, trabalhadores, quando olharem vão dizer: olha, mudou tudo, mas o Banco Central, a política monetária, a estabilidade do sistema, os bancos, meus depósitos, tudo está com a mesma estabilidade. Isso é diferente de 2002, 2018, quando mudou o governo e houve muita dúvida sobre o iria acontecer.

Em poucos meses o Pix teve uma adesão impressionante, virou até rede social. E agora estamos entrando na segunda fase do open banking. Acha que vai garantir uma concorrência maior, e bater inclusive nos juros futuramente?

O Pix começou lá atrás, é um projeto da agenda BC +, da agenda BC#, é uma agente contínua, começou lá, a gente chamava de pagamento instantâneo. É um sucesso total. É claro que sempre tem riscos, mas a atual diretoria, o atual presidente, estão de parabéns. O avanço do open banking também tem riscos, tem que administrar um pouco a transição para se ter dados bancários abertos, mas com cuidado para respeitar o sigilo de todo mundo. São projetos muito bons.

Para o sistema financeiro essa agenda tem sido um sucesso pois é inclusiva, é trazer mais participantes, trazer fintechs, trazer gente jovem, que antes não estava no sistema.

Esse ecossistema está se desenvolvendo. Tenho uma analogia na cabeça que é: em um terreno mais árido, você consegue fazer com que chova, que um rio passe e de repente volta a brotar todo o verde, flores, animais voltando, um outro habitat. Acho que estamos começando a observar isso voltar no sistema financeiro. Não acho que os animais vão mudar, mas vai acrescentar, mais animais vão vir.

 

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