Quem tem ido às compras nos supermercados percebeu que os preços dos alimentos estão pela hora da morte. No último mês, produtos como arroz, farinha, leite e óleo de soja tiveram alta de mais de 30%, e acabaram dando um susto no consumidor que precisou comprar o básico para pôr na mesa. O presidente Jair Bolsonaro sentiu o descontentamento e apelou ao “patriotismo” dos supermercados para segurar preços.

Enquanto a média do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) acumulou alta de apenas 0,4% até julho, a categoria de alimentação no lar avançou 4,9% no mesmo período. Mas o que explica essa escalada no custo da comida? O 6 Minutos conversou com especialistas para saber as razões desse fenômeno.

Demanda de outros países

Não é só no Brasil que a ida ao supermercado está mais cara. A FAO, órgão pertencente à ONU (Organização das Nações Unidas), faz um acompanhamento mundial no preço de alimentos por meio de um índice. Esse indicador bateu, no mês passado, o maior valor desde o início da pandemia do coronavírus. A razão para a escalada foi uma demanda maior por alimentos no mercado internacional, puxada principalmente pela China.

“A economia chinesa sofreu um freio em janeiro e fevereiro, por causa da quarentena, mas em maio as coisas já começaram a se normalizar. Para sustentar o crescimento pós-pandemia, o país reforçou a política de segurança alimentar, importando mais produtos alimentícios”, explica Julia Braga, professora de economia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

O apetite do gigante asiático fez o preço das commodities subirem. No último mês, o mercado internacional registrou um aumento de 27% no preço do milho, de 30% no da soja e de 43% no do arroz. Como os grãos são a base de alimentação dos bovinos, suínos e de aves, essa alta também acaba refletindo no preço da carne. O arroba do boi gordo, por exemplo, está até 40% mais cara do que em agosto de 2019.

AlimentoVariação no preço desde janeiro
Cebola81,6%
Manga60,6%
Abobrinha47,5%
Morango36,1%
Alho36%
Feijão mulatinho34,4%
Feijão fradinho32,9%
Feijão preto29,5%
Batata-inglesa25,2%
Batata-doce25,1%
Pepino24,8%
Cenoura21,2%
Alface20,8%
Melão20,3%
Feijão carioca19,1%
Pimentão18,1%
Leite longa vida17,3%
Brócolis16,8%
Arroz15,7%

Mas se esses itens são produzidos no Brasil, por que os preços são influenciados pela demanda externa? Apesar de ser um dos maiores produtores de grãos e carnes do mundo, o Brasil é atingido por choques de demanda do exterior. “Mesmo que o produtor brasileiro destine seus alimentos para o mercado interno, ele vai balizar o preço pelo valor que ganharia se estivesse exportando”, explica Braga, da UFF.

Além disso, todos os produtos alimentícios são negociados em dólar, e a própria variação da moeda americana influencia os custos para os consumidores. No mês passado, o dólar avançou 5%. No ano, a valorização acumulada é de 31%.

É só isso? A demanda interna também está aquecida. A professora da UFF explica que os alimentos passaram a ter maior importância no orçamento das famílias brasileiras, já que os gastos com outros itens, como combustíveis e serviços, caíram desde o início da pandemia. Vale lembrar que a alimentação em casa tornou-se mais frequente, o que aumentou as despesas com itens da cesta básica. Em razão disso, os supermercados estão repassando integralmente o aumento dos custos da indústria alimentícia.

Os próprios combustíveis, que chegaram a baratear e a aliviar bolso dos brasileiros no início da quarentena, voltaram a subir a partir de maio. Com a gasolina e o diesel mais caros, os custos de distribuição dos alimento subiram e o frete ficou ainda mais salgado.

Quando os alimentos vão ficar mais baratos? As perspectivas, infelizmente, não são boas. O dólar deve permanecer alto até o final do ano, e a demanda externa por commodities não tem dado sinal de trégua, principalmente diante de um cenário de possível recuperação econômica pós-pandemia.

“O alívio para os consumidores vai depender do comportamento do câmbio. Quanto às demanda externa, só vai haver uma reação positiva dos preços dos alimentos na próxima safra, que começa apenas no início do ano que vem”, explica Braga, da UFF.

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