A semana que começou tende a ser uma das mais movimentadas e importantes do ano. As eleições presidenciais nos Estados Unidos acontecem amanhã (3), em meio a um cenário dúbio: a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump parece cada vez mais líquida e certa, mas a disputa eleitoral pode acabar na Justiça, o que deixaria o pleito sem um desfecho por semanas. Além disso, a situação da pandemia do coronavírus na Europa continua preocupante.

No Brasil, grandes instituições, como os bancos Itaú e Banco do Brasil, e as companhias aéreas divulgam seus resultados trimestrais. No entanto, o brilho dos balanços deve ser ofuscado por toda a agenda externa, principalmente pelos efeitos da incerteza sobre os índices acionários nos Estados Unidos, e como tudo isso respingará no cenário brasileiro.

Veja mais detalhes sobre o que deve ser importante na semana.

Eleições nos Estados Unidos

Na terça-feira (3), milhares de americanos irão às urnas para escolher quem deve ser o próximo presidente dos Estados Unidos. Apesar de amanhã ser o grande dia das eleições, em 2020 o rito de votação será diferente. Primeiro porque mais de 90 milhões de cidadãos já manifestaram seu voto antes da data oficial – seja por correios ou indo às urnas de forma antecipada. E segundo porque alguns estados vão permanecer com as urnas abertas por mais alguns dias, após a terça-feira, para permitir que mais eleitores consigam votar.

Para entender a importância desse prazo, vale uma breve explicação: nos Estados Unidos, o dia de votação é um dia útil, em que o comércio, serviços e indústria funcionam normalmente. Há uma grande crítica quanto a essa dinâmica, pois ela tende a excluir os eleitores mais pobres, que deixam de votar por não ter tempo ou por não poder se dar ao luxo de perder horas de trabalho.

“As pessoas têm o salário descontado se saem para votar durante o horário de trabalho. Além disso, em algumas regiões dos Estados Unidos há poucos postos eleitorais, o que gera filas enormes”, diz Fernanda Magnotta, especialista em política norte-americana e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Ela lembra que a pandemia do coronavírus só piora essa situação. O medo de aglomerações tende a reduzir a taxa de comparecimento dos americanos nas eleições, o que torna o resultado ainda mais imprevisível.

“A maioria dos estados vai receber as cédulas de votação por uma ou duas semanas além da data oficial das eleições – alguns, como Washignton, aceitarão votos pelos correios até o dia 23 de novembro. Somente 8 estados vão ter contabilizado 98% dos votos no dia seguinte às eleições. Ou seja: a contagem inicial de votos pode apontar para um resultado diferente do real, dependendo da data em que todas as urnas forem apuradas”, diz Conrado Magalhães, analista político da corretora Guide Investimentos.

Quando saberemos quem será o presidente dos Estados Unidos? Essa é uma pergunta ainda sem resposta. Caso as primeiras apurações já apontem para uma vitória massacrante de um dos candidatos, não será necessário esperar que todos os votos sejam contabilizados para saber quem ocupará a cadeira presidencial. Mas se as margens ficarem apertadas, é possível que o resultado oficial só venha no final do mês, o que deixaria os Estados Unidos em um limbo político por semanas.

Além disso, há, ainda, a chance de o atual presidente, Donald Trump, questionar judicialmente uma eventual vitória de seu opositor. “O Trump já falou diversas vezes que as eleições foram fraudadas. Ele tem criticado a votação pelos correios, e quando questionado nos debates se acataria uma vitória do Biden, ele tergiversou”, lembra Magnotta, da FAAP.

A contestação do resultado poderia vir por meio de um pedido de recontagem de votos em alguns estados. Isso já aconteceu em 2000, quando Bush e Al Gore disputaram voto a voto a presidência e, em um processo de recontagem, a vitória ficou nas mãos do republicano.

Mas se, agora, a vitória de Biden for sólida em diferentes estados, o atual presidente perde força para contestar judicialmente as eleições. “O Supremo americano tem agora um viés forte conservador – vale lembrar, inclusive, que o Trump indicou 3 dos atuais ministros da corte. Claro que é difícil imaginar que o Supremo vá fazer uma ‘maracutaia judicial’ para eleger o Trump de forma não legítima, mas se houver argumentos para contestar e uma votação de margem apertada, esse questionamento pode funcionar”, diz Magalhães, da Guide.

Os analistas têm apontado as atuais de eleições como as mais imprevisíveis de toda a história norte-americana. O ineditismo causa, claro, muita tensão, mas as apostas maiores, inclusive entre o mercado financeiro, têm sido na vitória de Biden — ainda que o candidato não seja o que mais agrada os investidores.

“A essa altura, o mercado financeiro só quer que haja um desfecho o mais breve possível. É provável que vejamos muita volatilidade nas cotações das bolsas e no dólar até que o próximo presidente americano esteja definido”, diz o analista da Guide.

Como os índices americanos estão influenciando fortemente o Ibovespa, essa tensão também deve chegar aos preços das ações brasileiras. É importante que o investidor aperte os cintos para a semana que começa.

2ª onda de coronavírus na Europa

Outro ponto de tensão da semana é a situação da pandemia nos países europeus. Praticamente todos os países do continente voltaram a registrar um número recorde de novos casos da doença, o que confirma a tese de segunda onda de contágio por covid-19. Embora esse seja um fato bastante negativo, é possível dizer que o pior não passou, mas já foi calculado.

A maioria dos líderes europeus já determinou restrições e quarentenas parciais até, pelo menos, o próximo mês. Ao contrário da primeira onda de lockdowns, os fechamentos atuais não colocam toda a economia sob pausa, mas somente alguns setores – a estratégia mais adotada tem sido a da imposição de toque de recolher, para evitar a ocorrência de eventos sociais durante a noite.

O grande receio era que a retomada econômica da Europa fosse aleijada pela necessidade de novos lockdowns, mas aparentemente não é isso que está acontecendo. Ainda é cedo para dizer se as restrições impostas serão suficientes para amenizar a segunda onda, mas, por enquanto, uma queda brusca e profunda na economia, parecida com a vista entre março e abril, ainda parece distante.

“Como a maior parte dos países já tomou decisão de fechar, agora o mercado financeiro vai esperar para ver efetividade das medidas. A Europa está entrando no inverno, veremos se as restrições vão funcionar ou se o inverno vai falar mais alto e impor uma nova onda de contágio”, diz Magalhães, da Guide.

Balanços ofuscados

A semana terá, ainda, a divulgação de importantes balanços financeiros no Brasil. O Itaú divulga seus resultados na terça-feira, mas o desempenho financeiro do bancão deve ser ofuscado pela tensão relacionada às eleições dos EUA.

Essa foi uma cena que já foi vista na semana passada, quando os bons números do Bradesco e Santander não foram fortes suficientes para evitar uma queda no Ibovespa – queda causada pelo receio da 2ª onda de coronavírus na Europa. O mesmo vale para o Banco do Brasil, que divulga resultados na quinta-feira (5).

Veja os principais resultados da semana:

Terça-feira (3): Itaú, BB Seguridade, TIM, IRB Brasil, Minerva.

Quarta-feira (4): Alpargatas, Banco PAN, Gol, Cia Hering.

Quinta-feira (5): Banco do Brasil, Engie, Lojas Renner, Iguatemi, JHSF, Burger King, Banco BMG

Sexta-feira (6): M.Dias Branco

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