O fim do auxílio emergencial vai reduzir a capacidade de compra da população no próximo ano. Pelos cálculos do economista Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a retirada do benefício vai diminuir em R$ 100 a renda média per capita do brasileiro.

Esse cenário traz um ponto de preocupação, já que o pagamento do benefício impulsionou o consumo dos brasileiros nos piores meses da pandemia. Só no terceiro trimestre do ano, o consumo das famílias cresceu 7,6% em relação ao trimestre anterior – a maior alta já registrada pela série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

“Vamos ver a partir do quarto trimestre uma queda do poder de compra com a redução do valor do auxílio pela metade. Essa redução vai diminuir em R$ 30 a renda média per capita do brasileiro, afirma Duque.

Por que esse cenário traz um alerta? Para começar, o pagamento do auxílio ajudou a recuperar setores afetados pela pandemia, como comércio e indústria. Sem o benefício emergencial, a tendência é que o consumidor coloque um freio nos gastos. Para piorar, o fim do benefício, a partir de 2021, vai coincidir com o aumento do desemprego.

“Sem o auxílio, as pessoas ficam sem saber quando receberão no próximo mês, principalmente os informais. A tendência é que muitos passem a economizar, numa espécie de poupança precaucional, porque não sabem como a renda ficará depois”, afirma Duque.

O desemprego vai aumentar? Sim. Segundo cálculos de Lucas Maynard, economista do Santander Brasil, o desemprego vai chegar a um pico de 16,3% no primeiro trimestre de 2021, desacelerado para 15,8% ao final do próximo ano. Com isso, a taxa média de 2021 será de 16%, maior que os 14,4% registrados no terceiro trimestre de 2020.

Isso vai acontecer porque mais pessoas devem sair em busca de trabalho, já que há uma expectativa de início da vacinação contra o coronavírus e da retomada mais forte de atividades que foram muito impactadas em 2020, como o turismo.

E a massa salarial? Vai cair. Com o fim do auxílio, a massa salarial de 2021 vai cair 8% em 2021. Por outro lado, segundo Maynard, a massa salarial de 2020 terá um avanço de 4%. Se não houvesse pagamento do benefício, haveria uma contração de 6% neste ano.

E como ficará o consumo das famílias no próximo ano? Para Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, o efeito negativo do fim do auxílio sobre o consumo será compensado pelo aumento do crédito para a pessoa física e redução da taxa de poupança das famílias. “A redução da taxa de poupança deve atenuar os efeitos do fim do auxílio, assim como o aumento do crédito com juro baixo para a pessoa física”, disse Barbosa.

Walter Franco, professor de Macroeconomia e Corporate Finance do Ibmec SP, também não acredita em queda, mas em redução da alta verificada agora. “Não creio que o consumo chegue a cair em 2021, mas vai crescer menos. É importante lembrar que o consumo vai continuar crescendo no quarto trimestre”, diz Franco.

Mas já é certo que o auxílio vai acabar mesmo? O governo sinalizou que sim. A Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia avaliou que o crescimento econômico do terceiro trimestre, embora abaixo do esperado pelo mercado, confirma a retomada em V da atividade, quadro que dispensa a necessidade de auxílios do governo para o próximo ano.

E é melhor acabar mesmo?  Barbosa, do Itaú, diz que para a economia é pior manter o auxílio que que retirá-lo. “Para a dinâmica de dívida pública, é importante que tire [o auxílio] . Para a dívida não ficar desancorada e explosiva. Porque se mantém mais dinheiro na mão das pessoas, o mercado fica preocupado e as condições financeiras podem piorar. Eventualmente, o juro pode subir e matar o principal motor de crescimento, que é o juro baixo.”

Franco, do Ibmec, afirma que acredita que o governo não vai retirar de vez o auxílio. “Talvez aconteça um rearranjo, incluir no Bolsa Família ou fazer uma reformulação para mantê-lo para uma parte das pessoas no primeiro momento.”

Como fica o PIB, então? As projeções variam entre as instituições. O Itaú estima que o PIB do quarto trimestre cresça 2,9% e manteve a projeção de queda de 4,1% em 2020. Já o Santander estima que o PIB de 2020 terá uma contração de 4,8%, mas que em 2021 haverá um crescimento de 3,4%.

“A expectativa é que o efeito da redução da massa salarial seja compensado pela reabertura da economia, uma normalização da economia que deve ocorrer a partir da segunda metade de 2021 dos serviços prestados à família”, afirma Maynard, do Santander.

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