O ambiente de elevada incerteza no mês passado, com inflação disparando, clima de conflito entre poderes, crise hídrica e alta de juros, fez um estrago na busca das empresas brasileiras por financiamento. A procura por empréstimos vinha crescendo com força do segundo trimestre para cá, mas a trajetória de alta foi bruscamente interrompida em agosto, segundo dados da Serasa Experian.

Os números da empresa de avaliação de crédito, obtidos com exclusividade pelo 6 Minutos, mostram que essa demanda teve uma queda de 7,9% em agosto na comparação com julho, a maior retração do ano. A indústria teve o maior tombo, com 12,1%, seguida do comércio (-9,5%) e serviços (-5,4%).

Mesmo assim, o indicador da Serasa ainda mostra que o nível de busca por financiamentos, após cair para um dos menores patamares da história em 2020, no auge da crise do coronavírus, ainda está bem acima do que se costuma observar.

Para especialistas, os números são um sinal de que as pessoas jurídicas estão segurando a procura por capital de giro para os próximos meses por causa das inseguranças da economia brasileira.

“Nos últimos dois meses, o cenário ficou meio conturbando, e isso pode estar fazendo com que as empresas fiquem mais cautelosas na hora de buscar crédito”, afirma o economista da Serasa, Luiz Rabi. “É um momento em que estão tentando entender um pouco melhor o que está acontecendo com a economia, e engavetam e adiam algumas decisões do ponto de vista de negócios e ampliação de produção”.

Inflação e juros mais altos

Um dos principais motivos para essa esfriada no ânimo das empresas é a alta da inflação, que continuou aumentando nos últimos meses e levou o mercado a prever altas de juros cada vez maiores.

“Alguns fatores contribuíram para essa queda. A instabilidade do dólar, já que os empréstimos possuem um componente cambial que assusta um pouco as empresas que estão se voltando para o mercado externo, e o crescimento muito rápido das expectativas de inflação e taxas de juros”, aponta Fabio Astrauskas, professor do Insper e CEO da consultoria especialista em recuperação de empresas Siegen.

Ele lembra ainda que os próprios bancos vem ofertando um crédito mais caro, se antecipando um pouco às decisões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). “Do parte das empresas, houve pelo menos uma parada para pensar um pouco a respeito, analisar o quadro antes de sair pegando crédito de novo”.

Instabilidade política

O economista da Serasa afirma que a incerteza do cenário político –agosto foi o mês em que o clima de tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e o STF (Supremo Tribunal Federal) alcançou o auge –, além da gravidade da crise hídrica, também vem tornando os empresários mais cautelosos.

“As empresas buscam financiamento por três motivos. Para adquirir matéria prima para suas atividades, o seu dia a dia, para rolar dívidas e para investimentos. Desses três, o capital de giro é o mais importante, e está diretamente relacionado com a confiança na atividade econômica”, avalia Rabi.

Tendência

Quando se avalia as empresas por tamanho, o maior recuo foi das grandes (-19,3%), seguidas pelas médias (-17,7%) e pelas pequenas (-7,5%). Uma queda tão grande da busca das grandes empresas por financiamento não era vista desde janeiro de 2018, quando o tombo foi de 19,6%.

Na avaliação do economista da Serasa, a recuperação para as empresas será difícil. “Tem a sazonalidade de final de ano, mas a incerteza está muito grande, e a economia vem exibindo uma trajetória lenta”.

Para Astrauskas, da Siegen, a demanda por crédito de curto prazo vai aumentar nos próximos meses, por causa das festas de final de ano. “A demanda vai subir, já a oferta de crédito por bancos, não tenho tanta certeza que vai acompanhar”.

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