A coalizão do governo da Argentina dá sinais de tensão com apenas 10 meses no poder, o que complica ainda mais o desafio do país de sair da recessão enquanto a popularidade do presidente Alberto Fernández despenca.

Existem várias divisões entre as diferentes facções dentro da coalizão peronista, que incluem o bloco mais centrista de Fernández e os partidários de extrema esquerda da poderosa vice-presidente Cristina Kirchner. O momento é especialmente crítico, porque o governo começa a ficar sem dinheiro e a pandemia atinge com força a Argentina.

Uma decisão na semana passada do Ministério de Relações Exteriores de participar de uma votação regional para condenar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por abusos de direitos humanos com base em um relatório das Nações Unidas foi duramente criticada por aliados próximos de Kirchner, o que levou à renúncia de um diplomata. O incidente destaca o atual ato de equilíbrio ideológico que se estende à política econômica, às relações com empresas privadas e aos tribunais.

No início deste ano, uma tentativa de nacionalizar uma trading de soja em crise, que foi aplaudida pelos mais radicais, foi revertida após críticas de outros aliados e da poderosa indústria agrícola.

Embora membros da coalizão neguem qualquer divisão significativa, duas autoridades próximas a Fernández admitem que as tensões criam um ruído indesejado. Líderes peronistas dizem em privado que as reformas pró-investimento são necessárias para recuperar a economia, mas o governo não está disposto a pagar o custo político associado a mudanças políticas impopulares.

“O presidente não está exercendo seu poder agora e é por isso que o peronismo está confuso”, disse Andrés Malamud, professor de ciências políticas da Universidade de Lisboa. “É um governo que não governa e, na Argentina, a economia fica complicada sem governo.”

O que está em jogo é se a Argentina conseguirá sair de sua longa história de crises econômicas recorrentes e estabelecer as bases para políticas sustentáveis que durem além de qualquer mandato de quatro anos. Apenas nos últimos cinco anos, a Argentina passou de pária dos mercados financeiros globais à queridinha dos investidores que sediou uma reunião do G-20, mas que voltou a entrar em default da dívida e adotar controles de capital.

Fernández tem negado quaisquer fissuras internas ou diferenças com a vice-presidente.

“Se alguém está planejando uma marcha para que eu me distancie de Cristina está enganado, porque eu não vou fazer isso”, disse o presidente em 11 de outubro.

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