A possibilidade de usar o Pix para realizar operações de saque e troco no comércio a partir desta segunda-feira (dia 29) era aguardada por muita gente. Mas quem tentou fazer uma transação dessas se decepcionou. É que o varejo ainda não está preparado para isso.

Segundo Carlos Netto, CEO da Matera, empresa que acompanha de perto a implantação das novas funcionalidades, o Pix Saque e Pix Troco ficaram prontos agora para os bancos e fintechs que participam do novo sistema de pagamentos.

“Agora é que os bancos e fintechs ficaram habilitados para explorar esse novo mercado. Agora que eles podem assinar contratos com o comércio. Essa é uma implantação em duas etapas. A segunda etapa começa agora”, afirma.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) lembra que nenhum comércio ou banco é obrigado a oferecer as duas novas modalidades de Pix. “A oferta dos serviços é facultativa, tanto pelos bancos, quanto pelos estabelecimentos comerciais, e dependerá de acordos fechados entre ambos ao longo das próximas semanas.”

Na opinião de Netto, empresas de adquirência (maquininhas de cartão) são as primeiras candidatas a oferecer essa nova modalidade de Pix, pois já têm relacionamento com o comércio e dominam a tecnologia de pagamentos.

“As adquirentes têm tudo para virar verdadeiras redes de caixas eletrônicos. O dinheiro já está na loja e as pessoas estão lá querendo sacar. Colocaram a bola na frente do gol, elas só têm que chutar”, afirma Netto. “A vida das adquirentes não está fácil e ainda tem o fato de que todos veem o Pix como inimigo do setor. Essa é uma oportunidade que elas deveriam aproveitar.”

Mas será que o comércio quer implantar o Pix Saque e o Pix Troco?

Renato Mendes, CEO da F5 Business Growth, diz que a vantagem para o comércio oferecer as duas novas funcionalidades do Pix é mínima. “Não compensa, o valor que o comerciante vai receber é mínimo”, diz.

Pelas regras do Banco Central, o comerciante vai receber de R$ 0,25 a R$ 0,95 por transação, dependendo da negociação que fez com seu processador de pagamento.

Além disso, tem toda a questão de adaptação tecnológica e custo dessa mudança para o comércio. “Algumas funcionalidades do Pix têm demorado mais para ser adotadas pelo comércio. Um dos fatores para esse delay é o tecnológico, pois é preciso adaptar os sistemas e isso nem sempre acontece em tempo real e sem custo”, afirma Eduardo Yamashita, COO da Gouvea Ecosystem.

Outro motivo é cultural. “Os novos serviços aumentam a complexidade da operação. Então é preciso mudar desde o treinamento dos funcionários até a gestão do dinheiro, a contabilidade, a sangria de caixa”, diz Yamashita.

Segundo ele, ainda há dúvida sobre o retorno que esses novos serviços darão ao varejo. “O objetivo é que eles tragam mais fluxo de clientes ao varejo, mas há incerteza sobre o impacto desse retorno, principalmente em cidades pequenas que não têm boa estrutura de caixas eletrônicos.”

Benefícios indiretos

Os defensores do Pix dizem que a oferta do Pix Saque e Troco trará benefícios indiretos a bancos e lojistas. “O lojista se livra do numerário mais cedo, mitigando risco de assalto. Mas o principal é a atração e novos clientes. O banco também ganha, pois será o destino de todo numerário sacado na loja que usar seu serviço para fazer o Pix Saque e Troco”, afirma Netto, da Matera.

Para o economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Ulisses Ruiz de Gamboa, o comércio deve aderir ao novo serviço porque haverá incentivos ao setor. “É um jogo de ganha-ganha. O lojista ganha com a tarifa que vai receber e ganha por vender mais, já que vai oferecer ao cliente um facilitador de pagamento.”

Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, também diz acreditar que na adesão do comércio ao Pix Saque e Pix Troco. “O Pix pode atrair os consumidores para os estabelecimentos comerciais. Além de ser opcional, o comércio ainda poderá ser remunerado e aumentar o fluxo de pessoas dentro do estabelecimento, podendo se converter em vendas.”

No entanto, ela lembra que existe hoje um problema de falta de dinheiro em circulação. “Existe um grande problema no comércio, que é a falta de troco, considerando que muitas pessoas usam meios de pagamentos eletrônicos hoje em dia. Mas, caso o comerciante não tenha recursos em espécie para saque e troco, basta informar ao consumidor.”

Segundo o presidente da Febraban, Isaac Sidney, as duas novas funcionalidades trarão mais facilidade para os clientes bancários. “Além de aumentar a capilaridade dos pontos de saque em todo o país, ainda terão potencial para reduzir o custo logístico e operacional com a distribuição de numerário”, informa a entidade em nota.

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