O PIB (Produto Interno Bruto) frustrou as expectativas do mercado, que esperava um crescimento tímido de 0,1%. O recuo de 0,1% colocou o Brasil em recessão técnica, fenômeno que acontece quando a economia encolhe dois trimestres consecutivos.

“O dado de hoje gera um sinal de alerta para o país. Na prática, o Brasil está estagnado, quando na verdade deveria estar se recuperando da pandemia. Isso é ruim para o país porque pode levar a uma perda de nota nas agências de classificação de risco e, consequentemente, maior dificuldade para atrair investimentos estrangeiros”, afirma Fabricio Gonçalves, CEO da Box Asset Management.

Apesar da queda, houve crescimento de 4% em comparação ao mesmo trimestre do ano passado, principalmente por causa da baixa base de comparação.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o dado de hoje mostra que a economia brasileira está estagnada e que essa realidade deve durar por, pelo menos, um ano.

“Quando a queda é relativamente próxima de zero, dá a ideia de que a economia está parada. Como também passamos por um processo difícil de inflação, podemos considerar ainda que estamos em um período de estagflação”, afirma Vale.

Para Vale, a economia vai continuar fraca durante todo ano de 2022, tanto que algumas casas já esperam que o PIB do ano que vem seja 0. “Ainda temos altas de juros e de inflação para acontecer, então eu diria que a sensação de estagnação começou e vai continuar por um bom tempo. Só vejo a economia melhorando em 2023”, afirma Vale.

“Não retomamos ainda o nível de produção tínhamos há 7 anos. Esse resultado trimestral de agora só reforça a percepção de que o problema é estrutural. Não é no desempenho eventual, ou seja, fortuito do trimestre. Estamos falando de uma perda de dinamismo que se estende por 10 anos”, afirma Mauro Rochlin,  economista e professor dos MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Papel do setor de serviços

O setor de serviços, que representa 70% do PIB, foi o destaque do trimestre. “Contribuição ainda positiva e expressiva do consumo das famílias, algo que deve perder força no quarto trimestre com os atuais dados de confiança e inflação, que podemos usar como bons previsores futuros”, afirma João Beck, economista e sócio da BRA.

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimento, afirma que o dado só não foi pior pelo bom desempenho do setor de serviços. “Sabemos que o setor de serviços é o principal para a atividade econômica no Brasil, que avançou 1,1%. Essa alta contribuiu para que a queda não fosse tão pronunciada, puxada pela queda do setor agropecuário”, afirma Abdelmalack.

Apesar do avanço importante, Abdelmalack diz que o momento é de cautela, já que o cenário de inflação pode comprometer o setor de serviços no quarto trimestre.

“Tivemos um aquecimento do setor de serviços por conta da retomada da atividade econômica, ou seja, tínhamos um consumo represado. Dependendo da evolução do quadro econômico e da inflação, fica a dúvida de como esse setor vai performar uma vez que o consumo da população tende a ficar mais concentrado nos produtos de subsistência”, afirma Abdelmalack.

Para Rochlin, o setor de serviços poderia ter crescido mais, considerando que havia um consumo represado. “O consumo das famílias ficou estável, haveria espaço para alguma expansão. Como o setor de serviços voltou a funcionar, não há pleno vapor, mas melhor do que antes, poderíamos imaginar que o consumo aumentaria mais”, afirma Rochlin.

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O que o governo disse sobre o resultado? A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia afirmou que, mais importante do que avaliar o número do crescimento, é a qualidade do dado.

“Houve elevação da taxa de poupança e da taxa de Investimento (FBCF/PIB), retornando o patamar do começo da década passada. Dessa forma, salienta-se a melhora na qualidade do crescimento do PIB brasileiro”, afirma nota da secretaria.

Sobre a agropecuária, maior queda do trimestre, o governo afirma que houve problemas climáticos que afetaram o desempenho.

“A queda da agropecuária teve impacto relevante no PIB do 3T21. Se fosse zerada a variação da agropecuária na margem, o PIB cresceria na ordem de 0,3% a 0,4% no 3T21 em relação a 2T21. É fundamental distinguir o que é política econômica de fatores climáticos adversos e pontuais da natureza. A maior crise hídrica em 90 anos de história e a ocorrência de severas geadas tiveram impacto tanto em setores intensivos em energia como em setores que dependem do clima, como agricultura”, afirma nota.

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