Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) – Uma forte descompressão de risco derrubou o dólar nesta terça-feira, com o real de longe liderando os ganhos nos mercados globais de câmbio, em dia positivo para ativos de risco no mundo, de defesa de regras fiscais no Brasil e de maior possibilidade de alta de juros quanto antes.

A redução dos prêmios no câmbio “conversou” com movimento semelhante no mercado de juros futuros, em que as taxas de DI de longo prazo caíram cerca de 17 pontos-base. Analistas disseram que o tom mais duro do Banco Central sobre a inflação ditou a dinâmica nos dois mercados e influenciou a queda de 0,66% do Ibovespa no fim desta tarde.

O mercado de ações é dos que mais se beneficiam de juros baixos, já que uma política monetária expansionista torna os papéis da bolsa mais atrativos ante a renda fixa.

Profissionais do mercado financeiro começaram a antecipar suas projeções de aumento de juros após a divulgação nesta terça-feira da ata da última reunião de política monetária do BC, considerada por analistas ainda mais dura com a inflação do que o comunicado da semana passada. A impressão, comentou-se nas mesas de operações, é que o BC está “correndo atrás do mercado”.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, deve falar em evento do Credit Suisse em breve.

“A ata (do Copom) veio ainda mais ‘hawkish’ que o comunicado”, disse o Citi em nota. “Acreditamos que o ciclo de alta de juros por vir dará algum suporte ao real”, acrescentou o banco.

Segundo analistas, um dos motivos para a pressão sobre o real nos últimos tempos é o juro em patamar muito baixo, que deixa a moeda mais vulnerável a operações de hedge ou de financiamento para apostas em outras divisas.

O spread entre as taxas de NDF de dólar/real de um ano e de curtíssimo prazo –uma medida do retorno da moeda brasileira– subiu a 2,78% nesta terça, maior patamar desde 29 de dezembro. Mas é preciso lembrar que, no fim do ano, as cotações podem ficar distorcidas por queda na liquidez. Quanto maior essa diferença, mais caro fica apostar contra o real.

O dólar spot fechou em queda de 2,71%, a 5,3231 reais na venda. É a maior baixa percentual diária desde 12 de janeiro (-3,32%) e ocorre após a moeda saltar 5,10% em seis pregões até a sexta-feira passada, movimento que deixou o real mais atrasado em relação a seus pares.

No exterior, o dólar caía 0,2% ante uma cesta de moedas, mas tinha recuo bem mais forte ante rivais emergentes. O real encabeçou a lista de ganhos no dia, seguido por rand sul-africano (+1,1%), lira turca (+0,9%) e peso mexicano (+0,7%), pares próximos do real.

Mas a forte valorização do real teve respaldo também no noticiário doméstico sobre a agenda fiscal e a vacinação contra a Covid-19.

Em evento promovido pelo Credit Suisse, o presidente Jair Bolsonaro mudou o tom e defendeu a vacinação contra a Covid-19 como forma de fazer a economia brasileira voltar a funcionar, em comentários alinhados aos feitos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Ambos defenderam proposta feita por empresários brasileiros de comprar vacinas para imunizar seus funcionários e também doar parte ao Sistema Único de Saúde. Bolsonaro disse ainda que o governo manterá o compromisso com o teto de gastos e não irá transformar em permanentes medidas temporárias criadas para combater a pandemia de Covid-19.

“Quanto pior a pandemia, pior o desempenho da moeda daquele país, na média. O mercado está atento em quem irá sair primeiro da crise sanitária e quem ficará para trás. Isso terá forte influência sobre o preço dos ativos”, disse Dan Kawa, sócio da TAG Investimentos.

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