Quer pagar com Pix? Dificilmente você vai ouvir alguém perguntando isso na hora de pagar uma compra no comércio. É que a adesão do varejo ao Pix, nome do novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, ainda é baixíssima.

Com um mês de funcionamento, o Pix tem sido mais utilizado como substituto do DOC e da TED nas transferências de dinheiro do que como meio de pagamento. Números divulgados pelo Banco Central comprovam isso: 84% das transações realizadas com Pix são entre pessoas.

Especialistas em meios de pagamento dizem que a adesão do comércio é importantíssima para popularização do Pix. “Para o consumidor, não muda nada pagar com Pix ou pagar com débito. Quem ganha é o varejo, que vai economizar com taxas de recebimento”, diz Alexandre Pinto, diretor de inovação e negócio da Matera.

O que pode explicar essa demora, então? São vários fatores. O primeiro deles é a demora dos bancos e adquirentes (empresas de maquininhas) para precificar o custo da transação. A maioria preferiu dar um período de isenção aos clientes e deixou para informar depois quanto custará a transação com Pix. Entre os grandes bancos, Bradesco e Itaú fixaram tarifas (1,40 e 1,45%, respectivamente) que serão cobradas das pessoas jurídicas após um período gratuito de experiência.

Para o diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, João Manoel Pinho de Mello, a competição bancária vai garantir taxas mais baratas de utilização do Pix. “Temos cerca de 750 competidores nesse mercado. Tenho confiança de que ao longo do tempo, vários desses competidores vão encontrar o preço correto, o que seja o mais barato e que permita que as empresas se rentabilizem.”

Outro problema, esse muito mais importante, segundo Gustavo Ioriatti, diretor comercial da Linx Pay Hub, é a dificuldade do varejista de confirmar o pagamento da compra.

“Imagina um pequeno varejo. Ele pode imprimir um QR Code e colocar do lado do caixa e pedir para pagar com Pix. Como ele consegue identificar que o pagamento? Vai ter que entrar na conta e ver se pagou, é uma fricção absurda. E quando não é o dono que está no caixa ou são vários caixas? Não dá para dar acesso à conta da loja para todo mundo”, afirma ele.

A Ablos (Associação Brasileira dos Lojistas Satélites) também vê nessa confirmação do pagamento um empecilho para aderir ao Pix. “Os lojistas ainda têm poucas informações sobre o Pix. As lojas não sabem se já estão preparadas para receber com Pix e saber se o dinheiro, de fato, entrou na conta”, diz Tito Bessa Júnior, dono da rede TNG e presidente da Ablos.

O tempo da confirmação é outro desafio: em até 10 segundos (tempo estimado da transação com Pix). “Por ser instantâneo, o varejista precisa ter a informação que recebeu em menos de 10 segundos. Hoje, poucas empresas conseguem confirmar com segurança, e nesse tempo, o pagamento”, afirma Ioriatti.

Por isso, ele diz que a confirmação é mais importante que a precificação do serviço. “Para o comerciante, é mais importante saber que o cliente pagou R$ 50 pelo produto que custa R$ 50 do que o valor da taxa.”

Além disso, bancos e adquirentes ainda não integraram totalmente o Pix a seus sistemas. “Poucos bancos oferecem a integração direta da conta PJ com o PDV. Poucos adquirentes estão oferecendo a funcionalidade do Pix nos terminais”, diz Ioriatti.

Mas é só isso que emperrou o Pix? Não. O novo sistema foi lançado em 16 de novembro, às vésperas da Black Friday, e um mês antes do Natal. Os varejistas preferem garantir as vendas dos meses mais fortes do ano a mudar seus sistemas. “Estamos no meio de um tiroteio, com muitos outros problemas para resolver. O Pix não é prioridade agora. Não vi nenhuma grande rede de moda alardeando que vai entrar com Pix. Nada leva a crer que aderir ao Pix agora vá ajudar a alavancar vendas”, diz Bessa Júnior, da Ablos.

“Os varejistas precisam atualizar o PDV (ponto de venda) para receber com Pix. Muitos preferiram não fazer isso perto da Black Friday ou Natal para não correr o risco de parar o sistema e perder a venda. Neste ano de pandemia, a prioridade é vender”, afirma Ioriatti.

Quais os outros desafios do Pix para disseminá-lo no varejo? Hoje, ele funciona como substituto do débito, pois os pagamentos estão limitados ao saldo disponível em conta corrente. Os próximos desafios são permitir que o Pix funcione como crédito, ou seja, permitir o pagamento a prazo e parcelado.

“Hoje, quase 70% das nossas vendas são a prazo ou parceladas. O Pix funciona como venda à vista. Aceitar o Pix à vista, que é o que tem agora, vai fazer pouca diferença para nosso faturamento”, afirma Bessa Júnior.

A adesão do comércio vai aumentar? Esse cenário de baixa adesão deve começar a mudar a partir do próximo ano. Gabriel Nóbrega, head de estratégia para o setor financeiro da área de Inteligência de Mercado da Globo, diz que muitos comerciantes evitam fazer grandes mudanças em período de grande volume de vendas, caso do Natal e Black Friday.

“Acredito que quem vai puxar a adesão são os grandes varejistas. O setor deve assumir para si até o papel educacional de ensinar a usar o Pix. E aí, virá a adesão do público”, afirmou ele.

O que já existe para melhorar isso? A Linx Pay Hub lançou uma solução que acaba com essa fricção: o cliente paga com Pix, o varejista recebe a confirmação no PDV e o dinheiro cai na conta digital dele da Linx. “Ele pode transferir para outra conta dele, mas também pode usar a conta Linx para fazer TED, DOC, PIx, pagar contas, abrir conta para funcionário, ter um cartão pré-pago bandeirado”, afirma o diretor da Linx Pay Hub.

Quem já aderiu? Grandes empresas como Carrefour e Pão de Açúcar. Na Americanas, Pix está em projeto piloto em dez lojas do eixo Rio de Janeiro e São Paulo. Nas próximas semanas, o novo meio de pagamento estará disponível nas mais de 1.700 Lojas Americanas do país.

No e-commerce, a Americanas foi a primeira a adotar o Pix. Para pagar, basta escolher a opção Pix como meio de pagamento no site e efetuar a leitura do QR Code.

“A experiência de compra e a conveniência do cliente são os principais objetivos de tudo o que fazemos. Com o Pix, a confirmação de pagamento é imediata, tornando mais rápido o envio do produto ao cliente”, diz em nota Marcelo Nunes, diretor financeiro da B2W Digital.

Quer tirar suas dúvidas sobre o Imposto de Renda de 2021? Mande sua pergunta por e-mail (faleconosco@6minutos.com.br), Telegram (t.me/seisminutos) ou WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).