Com a queda na demanda e nos preços de produtos como algodão, açúcar e álcool, o mercado já espera um crescimento menor do agronegócio em 2020, o que mostra que as commodities, que costumam ser o porto seguro do Brasil em crises, não passarão incólumes pela pandemia de coronavírus.

O setor, que responde por quase um quarto do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, crescerá 2,5% neste ano, na avaliação dos analistas ouvidos semanalmente pela pesquisa Focus, do Banco Central.  Apesar de este ser o único setor da economia com previsão de expansão, a alta vem sendo revisada para baixo: no início do ano, antes do agravamento da pandemia, a aposta era de 3%.

A redução tem a ver com o fato de, do início do ano para cá, as cotações das commodities no mercado futuro já caíram mais de 40%, como mostra o índice CRB, que consolida os preços de 19 produtos. É uma lógica simples, e que foi observada de forma extrema com o comportamento dos preços do petróleo: a crise faz cair o consumo, o que leva os preços a também recuarem.

“Olhando o cenário inteiro da pandemia e da recessão econômica, o tom é negativo para as cotações de commodities em geral”, afirma Guilherme Bellotti, gerente de consultoria de agronegócios do Itaú BBA. “Dentro disso, tem as mais e menos sensíveis à renda”.

Quais as commodities mais prejudicadas pela pandemia? Além do petróleo, que viu os preços caírem em oito das últimas nove semanas, as mais afetados estão sendo algodão, açúcar e álcool.

“Alguns segmentos dentro do agronegócio sofrem mais”, explica o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. “No caso do algodão, a queda de demanda mundial tem causado perdas grandes no setor de vestuário”.

Bellotti, do Itaú BBA, explica que, além de as pessoas estarem consumindo menos produtos de vestuário, a forte queda nos preços do petróleo fez com que as fibras sintéticas também ficassem mais baratas, o que ajuda a puxar a cotação do algodão para baixo.

No caso do açúcar e do etanol, diz ele, há um efeito indireto. “O petróleo mais barato fez a gasolina também cair, e pressionou os preços do etanol. Isso acaba fazendo com que as usinas passem a produzir mais açúcar”.

E como está o cenário para soja e milho? Os produtores serão afetados pela crise? Soja e milho são commodities muito mais essenciais, e portanto sofrem bem menos.

Apesar de registrarem queda nas cotações, isso está sendo compensado aos produtores pela alta no dólar: a moeda americana já subiu mais de 40% desde o início do ano, beneficiando os exportadores.

“Embora a soja tenha caído um pouco em dólar, em reais os preços subiram bastante. Isso é consequência da desvalorização cambial e da boa demanda chinesa pelo grão brasileiro. É um setor que está ganhando, com os exportadores correndo para fixar preços neste ano e ano que vem, para garantirem bons negócios”.

Vale, da MB Associados, lembra que a demanda por alimentos segue forte, em especial na China. “Continuamos exportando muito para lá, além do próprio consumo doméstico seguir relevante. Se colocarmos a taxa de câmbio depreciada o resultado é ainda melhor”, aponta.

E quando as cotações das commodities começam a se normalizar? Os mercados globais de commodities devem levar semanas ou mais para alcançar o equilíbrio, pois a oferta e a demanda permanecerão fora de compasso, segundo avaliação do banco Goldman Sachs.

“É tentador argumentar que o pior já passou para as commodities, dado o colapso histórico dos preços do petróleo, a recuperação na China e o estímulo sem precedentes no ocidente”, afirmou o analista Jeffrey Currie em relatório. “É importante lembrar, no entanto, que as commodities são ativos à vista”, completou, referindo-se à dificuldade de prever o comportamento de preços.

(Com a Bloomberg) 

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