A advogada Marilice Ribeiro Pereira e Silva, 61 anos, perdeu o emprego em maio, quando a filial do escritório em que trabalhava foi fechada. Ela é uma entre as milhares de pessoas que entraram nas estatísticas de desemprego por conta dos estragos causados pela pandemia na economia.

A diferença é que Marilice pertence a um dos grupos de risco para o coronavírus, o dos idosos, o que dificulta ainda mais sua reinserção no mercado de trabalho. “Fui a uma entrevista de emprego e o recrutador me perguntou se eu tinha consciência que era do grupo de risco. Lógico que tenho consciência disso, mas me sinto apta a continuar trabalhando.”

Histórias como a de Marilice, infelizmente, devem ficar cada vez mais comuns. Pesquisas que medem o comportamento do mercado de trabalho já sentiram que a redução de emprego para idosos se acentuou durante a pandemia.

“Já havia preconceito com o idoso no mercado de trabalho: eram vistos como frágeis ou incapazes de exercer algumas atividades. A pandemia acentuou isso, porque agora eles fazem parte do grupo de risco, precisam de isolar”, diz o sociólogo Ian Prates, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que o emprego formal começou a se recuperar em junho para os não-idosos. Entre os maiores de 60 anos, entretanto, o saldo de empregos formais continua negativo.

Mas as demissões aconteceram em todas as idades, não? Sim, mas para os idosos as demissões foram muito mais intensas que entre outras faixas etárias. De março a junho, as demissões entre idosos subiram 25,1% em relação a igual período de 2019. Entre os não-idosos, o aumento foi de apenas 0,9%.

E as admissões? Também caíram muito mais entre os idosos do que entre os não-idosos. De março a junho, as contratações caíram 47,7%, maior que a redução de 31,7% verificada entre os não-idosos.

 janeirofevereiromarçoabrilmaiojunhojulhoagosto
Não idosos127.382236.147-246.457-896.018-324.3762.641161.348263.734
Idosos-12.014-9.332-19.152-38.362-35.077-25.347-20.158-14.346
Total115.368226.815-265.609-934.380-359.453-22.706141.190249.388

A Pnad também captou esse movimento desfavorável aos idosos? Sim. O número de desocupados maiores de 60 anos subiu de 338 mil no quarto trimestre de 2019 para 360 mil no segundo trimestre de 2020.

Por que isso? Por uma combinação de vários fatores. Por pertencerem a um dos grupos de risco, os idosos acabam sendo os primeiros a serem afastados pelas empresas, que precisaram enxugar custos para se manter em atividade na pandemia.

“Eles acabaram sendo preteridos em relação aos mais jovens. Existe um custo trabalhista de contratação que é mais pesado para os idosos. Fora isso existe o preconceito de que eles não se adaptam, que têm dificuldade com tecnologia”, afirmou Prates.

Também não ajuda o fato de 70% dos idosos estarem empregados no setor de serviços, o mais afetado pela pandemia e o último a se recuperar.

Outro motivo, segundo o pesquisador Daniel Duque, do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), é que muitos idosos podem ter deixado a força de trabalho porque preferiram evitar o risco de pegar coronavírus.

Já Prates, do Cebrap, vê mais uma saída forçada do mercado de trabalho. “Eles foram forçados a sair, não foi uma decisão voluntária, foi uma imposição da pandemia que criou uma situação totalmente atípica.”

Como fica a situação daqui para a frente? As perspectivas não parecem serem as melhores para o emprego entre os maiores de 60 anos. “A reinserção no mercado de trabalho, que já era difícil, deve continuar complicada porque não existe uma perspectiva de vacina para o coronavírus que possa permitir um retorno com menos risco para os profissionais idosos”, diz Prates.

Outro agravante, segundo ele, é a falta de políticas públicas voltadas para a inserção do idoso. “O que temos é a ausência de políticas para idosos voltadas para o mercado de trabalho e aprendizado. As chances de reinserção são muito escassas.”

A advogada Marilice diz que segue esperançosa. Em 37 anos de carreira, essa é a primeira vez que fica sem emprego. “Continuo buscando uma colocação.”

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