Principais personagens na eventual disputa pelo Planalto em 2022, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concordam em ao menos um ponto: é preciso reajustar no valor médio pago pelo governo federal por meio de programas sociais e de transferência de renda.

Bolsonaro, que vai tentar a reeleição, confirmou nesta quarta-feira (20), em evento na cidade de Russas, no Ceará, o valor de R$ 400 por mês para o Auxílio Brasil, programa que vai substituir do Bolsa Família, criado pelos petistas.

Lula, em entrevista à Rádio A Tarde, da Bahia, também nesta quarta, disse ver com otimismo a nova proposta de benefício social, mas sugere que o auxílio deve ser R$ 600 por mês.

“Tem gente dizendo que é auxílio eleitoral, que não podemos aceitar. Não penso assim. O PT defende um auxílio de R$ 600 desde o ano passado. O povo precisa. Ele tem que dar. Se vai tirar proveito disso, problema dele”, disse Lula.

Em meio à queda de braço entre as alas política e econômica do governo Bolsonaro para a definição do formato de financiamento do programa no Orçamento de 2022, o presidente não explicou qual a origem dos recursos.

O temor de que o reajuste só seria possível por meio de uma manobra orçamentária que driblaria o teto de gastos derrubou a bolsa e provocou aumento na cotação do dólar ontem.

Hoje, após um anúncio genérico de reajuste de 20% feito pelo ministro João Roma (Cidadania), o mercado ficou estável, mas ainda tenso com a indefinição sobre o valor e a fonte dos recursos.

“Temos a responsabilidade de fazer com que recursos saiam do Orçamento da União, ninguém vai furar teto, ninguém vai fazer nenhuma estripulia no Orçamento. Mas seria extremamente injusto deixar 17 milhões de pessoas com valor tão pouco (sic) no Bolsa Família”, disse Bolsonaro.

Ameaça ao crescimento

O crescimento econômico no ano que vem pode ficar entre zero e 0,5% caso se materialize o rompimento do teto de gastos, disse o economista da gestora Rio Bravo João Leal, apontando um cenário em que a atividade seria pressionada por uma taxa de juros acima de 10%.

“Se houver uma piora fiscal considerável, com rompimento do teto de gastos, o juro é de dois dígitos, como foi na crise de 2014/2015/2016. (…) Confirmando-se esse cenário, a gente estará falando de crescimento bem abaixo de 1,5%, que a é nossa previsão; estaríamos falando de algo entre zero e 0,5%”, disse o economista.

“Pelos últimos eventos, percebemos que o governo já não está mais assim tão comprometido com a agenda de reformas. (…) Isso demonstra claramente que está mais preocupado com 2022 e com a tentativa de agradar ao Congresso com emendas parlamentares.”

O economista da Rio Bravo chamou atenção para os efeitos mais duradouros de toda a insegurança em relação às aventuras do governo nas contas públicas.

“São investimentos sendo paralisados, aberturas de capital sendo paralisadas, mercado muito ruim tanto nas ações quanto nos juros, encarecimento do crédito, curva longa (de juros) estressando, inflação mais alta…”, elencou.

(com Estadão Conteúdo e Reuters)

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).