Um ano após seu lançamento, o Pix, ferramenta que possibilita a realização de transações financeiras instantaneamente a qualquer hora e sem custos, acumula mais de 112 milhões de usuários, de acordo com dados do Banco Central. Levantamento realizado pela consultoria Gmattos revelou que, pela primeira vez, mais da metade do comércio eletrônico do Brasil aceita o meio de pagamento em suas plataformas.

O estudo contempla 59 lojas online, que representam 85% do mercado de e-commerce do país, e mostrou aceitação da tecnologia por 50,8% delas.

Lançado em novembro de 2020, o serviço faz parte da agenda de inovação e aumento da competitividade encampada pela autoridade monetária e tem estimulado novos hábitos dos consumidores.

Atualmente, as transferências entre pessoas físicas representam 75% das operações efetuadas por meio da ferramenta, enquanto aquelas de consumidores para empresas correspondem a 16%. Para o diretor de crédito da BoletoFlex, fintech que possibilita parcelamento de compras por Pix, Leandro Machado, deve haver equilíbrio entre estes dois tipos de transferência à medida que a adoção da tecnologia como meio de pagamento por lojistas avançar.

“As lojas ainda estão começando o processo de adaptação ao Pix agora que perceberam o quão popular isso se tornou. A transferência de pessoa para pessoa é mais fácil de fazer, por isso se popularizou primeiro. Criar um pagamento Pix com QR code individual que tenha um rastreamento e possa ser conciliado com os sistemas das próprias lojas é mais complexo. Mas essa curva deve virar agora com a terceira fase do Open Banking”, prevê

Nos próximos meses, haverá uma nova funcionalidade de pagamento do Pix promovida pela terceira fase do Open Banking, iniciada no último dia 29, mas que só chegará ao fim no dia 17 de fevereiro de 2022, quando todos os correntistas poderão acessá-la. Este novo serviço permitirá que consumidores efetuem pagamentos nas plataformas digitais sem utilizar aplicativos de bancos, copiar códigos de barras ou fornecer dados do cartão de crédito.

Funciona assim: ao realizar uma compra online, o usuário poderá escolher a opção de pagar pelo sistema open banking, em vez das modalidades já conhecidas, como cartão de crédito e boleto.

Ao escolher este caminho, o site o levará diretamente à plataforma da instituição financeira na qual ele mantém sua conta bancária. Ali, haverá as informações da transação, como o produto que está sendo adquirido, a empresa vendedora e o valor. Após conferir se todos estes dados estão corretos, basta autenticar a operação com as mesmas informações exigidas pelo banco em sua plataforma original, como inserção manual de senha ou chave Pix.

No quesito volume de capital transacionado, as transferências entre pessoas físicas correspondem a 42% do total. As trocas entre empresas, por exemplo, representam apenas 3%, mas são responsáveis por 35% do dinheiro movimentado.

Fundada em janeiro de 2019, a BoletoFlex é um dos negócios que surfou a onda da popularização do Pix. Por meio da plataforma, clientes podem realizar compras parceladas nas lojas parceiras e pagar os valores com o novo meio de pagamento. A empresa cria códigos de pagamento em cada um dos meses ao longo dos quais os consumidores terão débitos para quitar e os envia por mensagens de texto, e-mail ou Whatsapp.

Machado conta que a tecnologia aumentou a confiança de compradores e vendedores ao usar o serviço da empresa, que antes o prestava para pagamentos via boleto. “O Pix é um repositório de chaves, uma estrutura para identificar pessoas em todo o sistema bancário. Dá muito mais segurança para o consumidor ver o pagamento liquidar em tempo real. Com o boleto você compra numa sexta à noite e só vai saber na terça o que aconteceu. Isso facilitou a experiência do consumidor. Com a iniciação de pagamentos isso vai melhorar ainda mais.”

Inclusão bancária

Segundo o BC, o Pix foi, junto com o Auxílio Emergencial, o principal responsável pela entrada de 38 milhões de brasileiros no sistema bancário entre janeiro de 2020 e junho de 2021. Em agosto deste ano, a ferramenta já era o segundo meio de pagamento mais utilizado do país, atrás apenas do dinheiro em espécie, conforme indica uma pesquisa Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

“O aumento da bancarização foi um dos principais ganhos que tivemos. As pessoas passaram a ver os QR codes para pagamento com Pix nos estabelecimentos mais simples, como a padaria e o mercado de bairro. Isso impulsionou uma parcela da população que ainda não tinha conta em banco a abrir uma e ter acesso a este serviço e a muitos outros”, diz o Gerente de Desenvolvimento de Negócios da Sicredi Vale do Piquiri, Leandro Hendges.

Apesar de parte da população ainda ter ressalvas em relação à novidade, sobretudo no quesito segurança, a ferramenta teve 41 milhões de usuários e 95 milhões de chaves cadastradas logo no primeiro mês de funcionamento. Desde então, outras 71 milhões de pessoas físicas e jurídicas aderiram. Entre setembro e outubro, houve salto de quase 3 milhões nesta base, que deve manter a trajetória de crescimento, avalia Hendges.

“Ainda há muito espaço para crescimento se levarmos em consideração o número de brasileiros que têm conta em banco. As pessoas que ainda não utilizam o Pix são aquelas que não têm o hábito de acessar aplicativos de serviços financeiros ou têm realmente dificuldade de usar a internet de forma geral.”

A explicação para esta questão pode ser um choque geracional. Com base nos dados de outubro fornecidos pelo BC, as faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos representam 34,5% e 31,2% dos usuários, respectivamente. O público de idade mais avançada, como aqueles entre 40 e 49 anos e entre 50 e 59 anos, representa um percentual menor da base, com participações de 18,1% e 7,9%, respectivamente. Maiores de 60 anos, por sua vez, são 3,6% desse contingente.

Antes restritos às operações de DOC e TED, por meio das quais era possível fazer transferências somente em dias úteis, durante horário comercial, e mediante o pagamento de taxas, os clientes das instituições financeiras agora têm mais liberdade para movimentar recursos, destaca

“Uma das grandes mudanças promovidas pelo Pix é a possibilidade de mais atores competirem no mercado. Plataformas que não necessariamente são bancos, mas oferecem serviços financeiros, puderam entrar nesse sistema e competir com os bancos nestes serviços que oferecem.”

Dos 762 participantes autorizados a oferecer o Pix, os bancos estão longe de ser maioria. As cooperativas de crédito puxam a fila com 616 inscritos, seguidas das instituições de pagamento, que somam 63 agentes.

A head de produtos da BizCapital, fintech que oferece serviços financeiros para pequenas empresas, Vanessa Medeiros, destaca o papel do Pix em quebrar a assimetria de informação do mercado financeiro. Os grandes bancos de varejo têm grande vantagem na concorrência por concentrarem grande volume de informações de crédito.

“Com a iniciação de pagamento, a transação realizada da conta de um dos nossos clientes no banco para nossa plataforma vai nos munir de informações que podem servir para oferecermos serviços mais inteligentes e adaptados às necessidades de cada um.”

Vanessa revela que atualmente 80% das transações efetuadas por meio da BizCapital são feitas pelo Pix, ferramenta, segundo ela, mais útil para as pequenas empresas do que para as grandes.

“As pequenas empresas se beneficiaram do Pix mais rapidamente, porque elas se adaptam mais facilmente por não terem ecossistemas tão complexos como grandes lojas digitais, por exemplo. Isso pode ser percebido principalmente em estabelecimentos do comércio de rua.”

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