SÃO PAULO (Reuters) – O setor de saúde do Brasil ainda passará por muitas dificuldades nos próximos meses em meio ao agravamento da crise devido à falta de coordenação nacional no combate à Covid-19 e ainda não é possível determinar qual será o impacto financeiro, disse nesta quarta-feira o presidente da Notre Dame Intermédica, uma das maiores operadoras de planos de saúde do país.

“A má notícia é que, infelizmente, a pandemia não está no seu fim, não sei se chegou ao pico, não acho que teremos ainda a solução pelos próximos meses. Acho inclusive, do ponto de vista de indústria, que teremos muitas dificuldades pela frente”, afirmou o presidente da Intermédica, Irlau Machado Filho.

Em teleconferência de resultados da companhia com analistas e investidores, o executivo citou uma série de fatores que têm ampliado as dificuldades do setor, incluindo multas de órgãos de defesa do consumidor por causa de reajustes de planos, ou uso de telemedicina e aumento de custos gerados pela própria pandemia.

“Temos a aprovação do novo conjunto de procedimentos obrigatórios, um movimento em que todos os exames de Covid terão de ser cobertos pelos planos, todos os exames”, disse Machado Filho, mencionando casos em que um mesmo usuário pode pedir múltiplos exames de detecção da doença em intervalos reduzidos, dependendo de suas necessidades.

“Concomitante a isso, tivemos alguns governos, digo ‘algum governo’ que decidiu aumentar imposto sobre insumos hospitalares em um período de pandemia. Isso é um aumento de 18%”, disse o executivo sem mencionar o governo. O governo de São Paulo recentemente decidiu revogar isenção de ICMS que existia sobre produtos médicos, que passaram a sofrer incidência de 18%.

A ação da Intermédica, que aguarda assembleia de acionistas sobre a aprovação de fusão com a Hapvida, recuava 1,85% às 13h22, enquanto o Ibovespa subia 1,02%.

A companhia teve alta de cerca de 18% no lucro líquido do quarto trimestre ante mesma etapa de 2019, mas as margens mostraram retração.

Questionado sobre as perspectivas para o índice de sinistralidade deste ano, Machado Filho afirmou que a empresa vinha conseguindo reduzir o indicador nos últimos seis anos na ordem de 1% a 1,5% ao ano, mas que “por óbvio não sabemos agora qual o limite que esta crise chegará”. No quarto trimestre, o nível de sinistralidade da empresa foi de 71,4%, 3,4 pontos percentuais acima do desempenho do mesmo período de 2019.

O executivo afirmou que a Intermédica tem conversado com clientes sobre a possibilidade de adiarem procedimentos que, no atual contexto de números recordes de mortes e casos diários de Covid-19 no país, não seriam considerados como urgentes.

“Isso está funcionando muito bem, porque as pessoas estão vendo as notícias”, disse Machado Filho.

Na véspera, o Brasil registrou novo recorde de 2.841 mortos por Covid-19 num único dia, o que elevou o total de vítimas fatais da doença no país a 282.127, segundo dados do Ministério da Saúde.

Mas o presidente da Intermédica disse que o posicionamento da empresa sobre adiar atendimentos não essenciais não tem sido um comportamento do setor.

“Tem coisas que me assustam. Hospitais de rede credenciada que requerem leitos do SUS para alocar seus pacientes enquanto não necessariamente paralisaram cirurgias como bucomaxilo, bariátrica, controle de refluxo…coisas que poderiam ser tranquilamente adiadas por dois meses até”, disse o executivo.

Ele explicou que uma cirurgia eletiva requer muitas vezes leitos de UTI disponíveis. “Então se ocupa a própria cirurgia e a UTI enquanto tem gente na frente do hospital com falta de ar, passando mal, podendo morrer por falta de socorro”, disse Machado Filho sem mencionar nomes de empresas.

Um fator que agravou a falta de leitos, segundo ele, foi a ausência de organização nacional para evitar que variantes do vírus se espalhem pelo país, como aconteceu no caso da que surgiu em Manaus, considerada mais perigosa por especialistas. A Intermedica diz ter criado 320 leitos adicionais de UTI em 2020.

“Alguns não muito bem informados ou que foram encaminhados ao erro, juizes inclusive, demandaram transferência de pacientes com cepas absolutamente locais para o resto do país, transformando o país neste celeiro viral.”

(Por Alberto Alerigi Jr.)

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