O recado foi que o Banco Central não está para brincadeira. De olho na inflação, no aumento dos juros futuros e na alta do dólar, o Copom (Comitê de Política Monetária do BC) surpreendeu e subiu a taxa básica, a Selic, em 0,75 ponto percentual, para 2,75% ao ano, acima do 0,50 ponto esperado pela maior parte dos analistas.

O efeito surpresa foi calculado: ao apertar a política monetária além do que já havia sido precificado pelo mercado, o BC manda o sinal de que não tem tolerância com a alta de preços, e que quer forçar uma redução nas taxas de títulos públicos de longo prazo.

Não que isso queira dizer necessariamente que os juros, no final deste ano, estarão em um patamar mais elevado do que os 4,50% ao ano esperados pelos analistas ouvidos pelo boletim Focus. Para economistas, o comunicado da decisão indica que o BC vai subir a taxa básica na mesma intensidade, mas mais rápido: ou seja, cortes maiores concentrados em menos reuniões.

“O aperto total deve ser o mesmo, mas com velocidade maior”, afirmou o economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito. “Mantemos nossa projeção de Selic a 5% no final de 2021, mas agora acreditamos que será através de mais três altas de 75 pontos, e não mais de 50 pontos”.

O aumento era considerado inevitável pelo fato de as expectativas para a inflação, pela primeira vez em quatro anos, estarem acima do centro da meta para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), de 3,75%. Segundo o boletim Focus, pesquisa do BC com analistas realizada semanalmente, o mercado acredita que a variação de preços alcançará 4,60% até dezembro.

“A dúvida se o BC tomaria um caminho mais paulatino e longo ou mais célere e curto foi respondida. Será a segunda opção”, resume Flávio Aragão, sócio da 051 Capital.

Para Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama, a mensagem é que o BC está atento. “A decisão passa uma mensagem ao mercado de que está vigilante e que não hesitará em agir de forma tempestiva pra fazer com que a meta seja observada”, avalia.

No curtíssimo prazo, efeito deve ser nos juros futuros e no dólar

No curtíssimo prazo, um dos efeitos esperados é o impacto na curva de juros, com alguma redução nas taxas cobradas pelos investidores para papeis da dívida brasileira de longo prazo: apesar de a Selic estar em um patamar baixíssimo, a desconfiança com o cenário fiscal e com a inflação já faz os juros de títulos de 10 anos estarem acima de 8%.

“Pode ter efeito na curva se houver a redução das expectativas de inflação para prazos mais longos”, observa o economista Alexandre Schwartsman, consultor da Schwartsman & Associados e ex-diretor do Banco Central. “O Banco Central indica que deve correr atrás da curva”, reforça Aragão, da 051 Capital.

Outro impacto imediato pode ser no dólar, que somente neste ano já subiu mais de 7%. Para muitos analistas, essa valorização preocupa o BC até mais do que a inflação, já que o receio é que a desvalorização do real continue contaminando a economia, pressionando ainda mais os preços.

O exemplo mais famoso desse processo é a alta dos combustíveis, um dos principais fatores que fez o IPCA de fevereiro ser o maior para o mês desde 2016.

A perspectiva é de valorização do real também por causa do comunicado do Fed (banco central americano), que nesta quarta manteve os juros dos EUA e sinalizou que manterá a taxa em patamares baixos pelo tempo necessário.

 

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