A bateria de novas restrições à circulação de pessoas que vêm sendo anunciadas pelos principais Estados do país para conter o pior momento da pandemia só reforça as apostas de economistas de que a retomada do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil acontecerá somente a partir do segundo semestre.

O impacto será sentido principalmente pelo setor serviços, que teve a maior queda em 2020 (retração de 4,5%) e que representa mais de 70% da economia brasileira. No ano passado, o setor teve, pela primeira vez desde 2017, uma redução do seu peso na atividade, recuando de 73,5% em 2019 para 72,8%.

O  economista Rodolpho Tobler, da FGV-Ibre, lembra que o setor de serviços foi o único que ainda não se recuperado e voltou aos patamares pré-pandemia.

“Em outras crises, os serviços foram menos afetados. Mas essa é uma crise particular, porque não é apenas econômica, é também sanitária”, aponta. “Em especial os serviços às famílias, como bares, restaurantes, hotéis, cabeleireiros, academias, estão muito abaixo do nível antes do coronavírus se espalhar”.

Ele lembra que o setor sempre é o primeiro a entrar e o último a sair das listas de restrições à circulação. “São negócios que acabam sendo particularmente frágeis porque, diferentemente de outros casos, as pessoas não podem compensar o que ficou para trás. Você não corta o cabelo duas vezes, não aluga dois quartos de hotel para compensar uma viagem que não foi feita”, exemplifica.

A situação preocupa pela alta empregabilidade do setor. Dos 8,6 milhões de vagas formais e informais que foram perdidas entre o final do ano passado e dezembro de 2019, 4,5 milhões estão em serviços. “Isso precisa melhorar para que a economia possa se manter no futuro mesmo sem o auxílio emergencial ou outros estímulos temporários”, explica, lembrando que esse cenário só irá melhorar quando a vacinação em massa decolar no Brasil.

PIB pode cair também no segundo trimestre

As novas medidas de isolamento intensificam o pessimismo daqueles que acham que o recuo da atividade econômica possa acontecer não apenas no primeiro trimestre, como já era esperado por causa do fim do auxílio emergencial, mas também no segundo.

“O recrudescimento da doença, infelizmente, é uma realidade”, aponta Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos. “Como não estamos conseguindo vacinar num ritmo satisfatório, a decisão de fechar algumas cidades acaba sendo uma alternativa. Para que a situação não seja ainda pior, será preciso estender o auxílio emergencial o quanto antes, para contrabalancear um pouco esse eventual fechamento”.

Com o impacto da segunda onda de covid e efeitos do fim do auxílio emergencial, o mercado já vem reduzindo as projeções para o PIB em 2021: analistas da pesquisa Focus, do Banco Central, esperam uma alta de 3,29% da atividade, ante 3,5% há quatro semanas.

Para o economista Fabio Astrauskas, professor do Insper e CEO da consultoria especialista em recuperação de empresas Siegen, o controle da pandemia e a vacinação em massa são essenciais para a retomada. “Acredito que os serviços vão ser impactados nos mesmos moldes do segundo trimestre do ano passado”, avalia. “Teremos o primeiro e segundo trimestres bastante comprometidos”.

Parte dos especialistas esperam que esse cenário pessimista acabe sendo compensado a partir do segundo semestre. “Por enquanto não estamos revisando nossas projeções para o PIB”, diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. “Em Paulo, por exemplo, a restrição é para 14 dias. Entendemos que com a aceleração do processo de vacinação, esse lockdown de agora pode ser compensado com um vigor maior da economia a partir de julho”.

Nova onda de restrições

O número recorde de novos casos e mortes por covid-19 pelo país vem obrigando os Estados a tomarem novas medidas de isolamento social, em uma tentativa de evitar um colapso ainda maior dos hospitais.

O governador de São Paulo, João Doria, anunciou na quarta-feira (dia 3) que todo o Estado voltará à fase vermelha por pelo menos duas semanas. Rio de Janeiro, Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os Estados que já anunciaram endurecimento das medidas de isolamento social.

 

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