A corrida para a presidência da OMC (Organização Mundial do Comércio) é frequentemente caracterizada como outro importante campo de batalha entre Estados Unidos e China.

A principal queixa do governo Trump em relação a órgãos multilaterais como a OMC, com sede em Genebra, é que estão sujeitos a uma influência estrangeira injusta – principalmente da China -, que resulta em políticas que prejudicam os interesses dos EUA.

O argumento não é diferente da lógica do presidente Donald Trump exposta neste mês, quando anunciou a saída dos EUA da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Enquanto isso, a China esteve envolvida em uma campanha de vários anos para expandir sua influência diplomática e colocar pessoas estratégicas nos níveis mais altos de órgãos internacionais de tomada de decisão, como a União Internacional de Telecomunicações, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e a Iata (Organização da Aviação Civil Internacional).

Batalha EUA x China

Os EUA tentaram frustrar esses esforços, tendo recentemente derrotado um candidato chinês ao cargo de diretor-geral da Organização Mundial da Propriedade Intelectual com um candidato de Cingapura, Daren Tang, mais favorável ao Ocidente.

“Essa foi uma grande prioridade para mim e minha missão até chegar à eleição”, disse o embaixador dos EUA na ONU, Andrew Bremberg. “Tang derrotou solidamente o candidato apoiado pela RPC”, disse Bremberg em entrevista, em referência à República Popular da China.

Se a corrida da OMPI é um indicador de como será a disputa na OMC, é importante observar quais qualidades EUA e China buscam no próximo diretor-geral.

Em junho, o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, estabeleceu um teste de três partes para o melhor candidato à presidência da OMC.

Especificamente, eles devem:

  • Compreender a necessidade de reforma “fundamental” da OMC;
  • Reconhecer que atualmente não se pode negociar com a China no âmbito da OMC;
  • Não ser inclinado ao antiamericanismo em segundo plano.

Nesta fase inicial da corrida, há duas candidatas que atraíram a atenção dos delegados de comércio em Genebra: Amina Mohamed, do Quênia, e Ngozi Okonjo-Iweala, da Nigéria.

Ambas são mulheres africanas com estatura política, mas suas semelhanças terminam aí.

Mohamed é uma genuína “insider” da OMC, tendo atuado como delegada de comércio nos anos 2000; como presidente do conselho-geral da OMC, órgão de solução de controvérsias e órgão de revisão de políticas comerciais; e como presidente da conferência ministerial da OMC.

Sua longa experiência na OMC pode ser negativa para o governo Trump, porque simboliza uma perpetuação do sistema que os EUA argumentam estar fraturado e que precisa de reformas fundamentais.

Além disso, Mohamed tem sido evasiva na questão do status de país em desenvolvimento da China e do conflito comercial EUA-China em geral. Isso também pode ser um problema para os EUA, que veem as duas questões como fatores críticos em sua abordagem para a reforma da OMC.

Por outro lado, Okonjo-Iweala nunca atuou na OMC. Ela argumenta que seu status de “outsider” é uma vantagem porque pode trazer outras visões para uma organização profundamente disfuncional.

Além disso, Okonjo-Iweala possui uma série de outras qualidades que podem agradar aos EUA. Ela tem um forte histórico como reformadora durante suas duas passagens como ministra da Fazenda da Nigéria, pediu às nações que abandonem suas linhas vermelhas de negociação e apoia as novas regras da OMC sobre subsídios industriais – algo que os EUA também desejam ver.

Silêncio da China

Quanto à China, não está exatamente claro qual candidato teria sua preferência.

Neste mês, o embaixador da China na OMC, Xiangchen Zhang, disse que um critério-chave para o próximo diretor-geral será sua “firme crença no sistema multilateral de comércio, com forte determinação e capacidade adequada para reunir os membros da OMC”.

“Precisamos de alguém que possa suportar a pressão dos não crentes e seguir em frente”, disse Zhang durante debate transmitido online pelo Instituto Peterson de Economia Internacional, de Washington.

Se a resposta de Zhang parece vaga, não é por acaso.

A China intencionalmente esconde as cartas a fim de evitar a oposição dos EUA ao seu candidato preferido.

Isso porque, se o governo de Pequim se manifestar repentinamente sobre qualquer candidato, é provável que os EUA se dediquem a minar a escolha da China, assim como o governo Trump fez durante a eleição na OMPI.

Zhang reconheceu o mesmo na entrevista: “Tenho que ter muito cuidado neste momento, porque quero ser justo com cada um dos oito candidatos”.

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