Na última quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro vestiu uma gravata verde e, ao discursar por três minutos na Cúpula do Clima, prometeu neutralidade nas emissões de carbono até 2050 e o fim do desmatamento ilegal no prazo de nove anos.

Por mais que as declarações tenham sido vistas com muito ceticismo no Brasil e no mundo, só o fato de o atual governo ter adotado um tom mais moderado no encontro reflete algo que fica cada vez mais claro: o compromisso com o meio ambiente é essencial para os negócios, e sem ele ficará mais difícil exportar ou atrair investimentos.

Não é por outro motivo que uma parcela importante do agronegócio vem defendendo o alinhamento do Brasil com as metas internacionais. Os principais bancos privados do país também assinaram em 2020 um plano para contribuir com a conservação e desenvolvimento sustentável da Amazônia no ano passado.

A defesa do clima, que anteriormente era nota de rodapé nas decisões sobre alocação de recursos, vem pesando cada vez na tomada de decisões. É um movimento que se nota nas grandes instituições financeiras do mundo.

O JPMorgan Chase, por exemplo, fixou uma meta de financiar US$ 2,5 trilhões em iniciativas que combatam a mudança climática e promovam o desenvolvimento sustentável. O maior banco dos EUA segue os passos do rival Bank of America, que também aumentou o financiamento para projetos que promovam uma economia de baixo carbono.

Emergência climática

Para entender a razão dessa mudança de chave, é importante saber em primeiro lugar que o mundo enfrenta uma emergência climática que não é uma ameaça vaga para um futuro distante. Se as emissões de gases estufa se mantiverem no ritmo atual, daqui a somente algumas décadas um pedaço do planeta pode se tornar inabitável.

“Se o aquecimento global seguir nessa velocidade, corremos o risco de 18% do planeta se tornar inabitável já em 2070. Se a crise migratória da Síria foi grave, é importante sabermos que pode ser muito pior com a migração climática. É uma questão de segurança nacional e envolve todo o mundo”, aponta Roberto Attuch, CEO da OhmResearch, plataforma de análises independentes.

A pandemia de coronavírus foi uma espécie de chacoalhão, já que lembrou a escala que esse tipo de desastre pode tomar. Especialistas em meio ambiente lembram que o aquecimento global vem derretendo a chamada “permafrost”, que é um solo congelado no Ártico que, ao derreter, libera gases, vírus e bactérias, com consequências desconhecidas.

“Finalmente caiu a ficha e as pessoas entenderam que temos uma emergência climática acontecendo. É uma questão existencial para a humanidade, que envolve cooperação global”, aponta Attuch.

Uma nova geração

Os especialistas lembram que, além da realidade do aquecimento global batendo à porta, a chamada geração Z, definição para as pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 até o início do ano 2010, demonstra uma postura totalmente diferente em relação ao meio ambiente e preocupações sociais.

Fabio Alperowitch, fundador da FAMA Investimentos, a primeira gestora voltada a fundos ESG do Brasil, lembra que o mundo está em meio a um processo que é uma transição geracional. “Os millennials nasceram com um chip para questões ambientais, sociais, de diversidade. São elementos muito importantes para essa geração, e isso se reflete na maneira de consumir, de se expressar, de procurar um trabalho. Isso vem mudando a forma de se fazer negócios”.

A tendência é que, cada vez mais, essa geração consuma produtos responsáveis do ponto de vista social e do meio ambiente, pressionando os governos para adotar regulamentações mais duras em relação ao tema. O governo do Reino Unido, por exemplo, já anunciou que planeja emitir os primeiros títulos verdes soberanos do mundo para investidores de varejo.

“Para a geração baby boomer, que nasceu depois da guerra, a prioridade era só crescimento. Mas quem vai estar vivo daqui a 30, 40 anos precisa se preocupar com o planeta”, afirma Attuch, da OhmResearch. “As empresas estão aprendendo que se não se preocuparem com o meio ambiente e aspectos sociais agora, não terão clientes no futuro. Hoje, quem tem 20, 30 anos de idade sabe que corre o risco de morar em um planeta inabitável no futuro”.

ESG em crescimento

Esse é um movimento que vem sendo notado com força no mundo dos negócios, até porque aas companhias alinhadas com critérios ESG (sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa) e fundos que investem nessas empresas entregam resultados financeiros melhores do que as que não possuem essa preocupação.

Além de o consumo consciente ser uma tendência global, essas empresas se beneficiam de taxas de juros mais baixas, possuem menos problemas com os órgãos reguladores de seus mercados e atraem mais talentos.

“Nos anos 90, o mundo vivia a expressão do capitalismo mais hostil, em que as empresas perseguiam o lucro passando por cima de qualquer coisa. O pensamento era: faço o que preciso para obter resultados, inclusive se for em prejuízo do meu fornecedor, do meu funcionário”, aponta Alperowitch, da FAMA. “Mas algumas empresas começaram a mudar essa mentalidade e a entregar resultados”.

Ele lembra que há fundos de investimento, por exemplo, que possuem filtros para excluir alocações em empresas não alinhadas ao ESG. “Esse é o novo normal. Temos toda uma nova geração que pensa assim. É um novo momento do capitalismo”, afirma.

 

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