Sem faturar, metade das empresas de capital aberto tem recursos para sobreviver apenas por três meses. Com o dinheiro disponível em caixa, conta corrente e aplicações financeiras, elas conseguiriam pagar fornecedores, folha de salários e outras despesas operacionais só durante esse período.

Os dados são de um levantamento feito pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) e pela consultoria Economática. O trabalho foi baseado no balanço de dezembro de 2019 de 245 companhias, e mostra a evolução do caixa com o decorrer de uma paralisia nas atividades, em razão do coronavírus.

Como o cálculo foi feito? As seguintes premissas foram adotadas na simulação:

  • As empresas teriam faturamento zero (nem mesmo as vendas a prazo foram consideradas);
  • Todas as dívidas vencidas no período de três meses seriam renegociadas;
  • A variação do dólar, que afeta as dívidas e o faturamento de algumas empresas, foi desconsiderada.

Nesse cenário, 23,3% das companhias já ficariam com o caixa negativo nos primeiros 30 dias. Esse número sobe para 37,1% após dois meses e para 48,6% em 90 dias. A outra metade das empresas chegaria ao final de três meses ainda com o caixa positivo, podendo arcar com as despesas por um tempo maior.

Se as empresas maiores estão nessa situação delicada, como ficam os pequenos e médios negócios? “Esse é o retrato das maiores empresas e das mais capitalizadas do País”, afirma Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe. “A situação das pequenas e médias é outra história, bem mais problemática, e exigirá medidas consistentes para evitar quebradeira. Elas vão sofrer mais do que as grandes, que ainda têm algum caixa a ser consumido.”

Na avaliação de especialistas, uma das características dessa crise é que ela vai atingir todas as empresas globalmente. Para o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP), Marcio Holland, os efeitos no curto prazo serão devastadores no mundo todo. E no médio prazo ainda serão imprevisíveis.

Como fica o PIB, nesse cenário? Na avaliação do professor da FGV, com o choque negativo sobre a economia, é provável que o Brasil tenha recessão econômica neste ano, com risco de contaminar o desempenho do ano seguinte.

Mesmo as empresas que hoje têm uma folga no caixa serão afetadas pela crise. Isso porque a expectativa é de forte queda na renda, com reflexos no consumo de produtos e serviços. Por isso, especialistas que lidam com reestruturação de dívidas já calculam uma escalada do número de recuperações judiciais.

“Vejo um ciclo de reestruturação, seja via recuperação judicial ou extrajudicial pela frente”, diz o sócio do escritório Stocche Forbes Advogados, Guilherme Coelho.

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