A curva inteira de rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos caiu abaixo de 1% pela primeira vez na história. A mudança é fruto das expectativas de que o Federal Reserve (o Banco Central Americano) irá reduzir os juros para zero nos próximos meses, o que leva investidores a buscar títulos com vencimento mais longo.

Quais são as projeções? Operadores de mercado já esperam um corte de cerca de 80 pontos-base (0,8 ponto percentual) em março e de 100 pontos-base (1 ponto percentual) até julho, o que empurraria os juros para zero. Essas apostas alimentam um rali dos títulos públicos dos EUA: a taxa dos títulos de 30 anos chegou a mergulhar 59 pontos-base (0,59 ponto percentual).

E em outros lugares? Os rendimentos de referência dos títulos do Reino Unido caíram abaixo de zero pela primeira vez, enquanto os títulos de dois anos da Alemanha e taxas na Austrália e na Nova Zelândia atingiram novas mínimas.

Pode contar um pouco mais? A nova onda de turbulência nos mercados, provocada por preocupações com a guerra de preços do petróleo entre os maiores exportadores do mundo, levou o Fed de Nova York a anunciar um aumento do volume das operações compromissadas overnight e a prazo desta semana, para garantir que as reservas sejam amplas e para reduzir o risco de pressão nos mercados monetários.

Juros zero de referência significam que depósitos e outras aplicações não vão render nada ou quase nada. É um estímulo para que bancos emprestem e para que empresas e consumidores tomem dinheiro emprestado em vez de poupar.

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, conversa com Steven Mnuchin, Secretário do Tesouro dos EUA
Crédito: Kim Kyung-Hoon/Reuters

“Quanto mais penso sobre isso, mais faz sentido para mim que os juros dos EUA caiam abaixo de zero em breve, muito em breve”, disse Chris Rands, gestor da Nikko Asset Management, em Sydney. “Eu não ficaria surpreso se os EUA tentassem taxas negativas, especialmente com a queda do petróleo se somando ao medo do vírus.”

A propagação do coronavírus e o impacto nas cadeias de suprimentos e nos gastos dos consumidores resultaram numa drástica re-precificação das expectativas sobre as taxas de juros globais nos últimos 30 dias. O choque da guerra de preços do petróleo tende a tirar força da inflação.

“Sabemos como foi a crise financeira, o naufrágio da tecnologia, mas esse rali de títulos são águas desconhecidas”, disse Stephen Miller, consultor da GSFM, uma unidade do CI Financial Group do Canadá. “Uma recessão global é agora uma probabilidade, não uma possibilidade.”

Ação de bancos centrais

Na sexta-feira, o presidente do Federal Reserve Bank de Boston, Eric Rosengren, disse que governos deveriam ter permissão para comprar uma gama mais ampla de ativos, caso não tenham munição suficiente para combater uma recessão com cortes das taxas de juros e compra de títulos.

Gestores esperam que o o Banco Central australiano e o Banco do Japão recorram a medidas nessa linha já nos próximos meses.

“O mercado está em pânico”, disse Shinji Hiramatsu, gestor sênior de investimentos da Sompo Japan Nipponkoa Asset Management, em Tóquio. “Ajustes de posição, compras para reduzir perdas…Todo mundo está comprando títulos americanos.”

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