Desde a semana passada, relatos de hospitais nas grandes capitais brasileiras voltando a ficar cheios acenderam uma luz amarela no painel do mercado financeiro. Embora os números oficiais de casos e mortes por covid-19 ainda estejam em baixa, o medo de o Brasil estar, de novo, na trilha de um aumento de contaminação por coronavírus começa a surgir — principalmente porque os números oficiais demoram a mostrar a realidade atual.

Mas se estivermos mesmo na direção de uma segunda onda de casos, o comércio e outros setores da economia poderiam voltar a ser fechados? E quais seriam os efeitos desse fechamento para a economia ainda cambaleante?

Especialistas do mercado ouvidos pelo 6 Minutos acreditam ser pouco provável que o Brasil veja um choque econômico tão grande quanto o vivido em no primeiro semestre de 2020 — principalmente um movimento que cause uma queda tão grande na bolsa de valores. Mas os riscos aumentaram bastante nos últimos dias, e o horizonte de curto prazo promete bastante volatilidade.

Também nesta semana teremos o final da temporada de balanços financeiros, com resultados de empresas como Azul, Intermédica, Qualicorp e Ânima. Veja mais sobre os destaques dos próximos dias.

Entre o espeto e a brasa

Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o governo está preparado para distribuir uma nova leva de benefícios do auxílio emergencial, caso o Brasil viva uma segunda onda do coronavírus. A notícia pegou mal no mercado, que está de olho no endividamento da União e do crescente problema fiscal a ser enfrentado ainda pela gestão de Jair Bolsonaro.

“O risco é vermos o cenário fiscal fora de controle, o que pode obrigar o Banco Central a subir os juros rapidamente. Isso não seria bom para a retomada da economia, pois diminui estímulo ao consumo e atrapalha o crédito”, explica Stefany Oliveira, analista da corretora Toro Investimentos.

Por outro lado, lavar as mãos também seria uma escolha difícil. Caso parte da economia pare, não distribuir algum tipo de ajuda econômica significaria deixar as famílias brasileiras à própria sorte, especialmente as que não têm nenhum tipo de reserva financeira para lidar com a queda na renda. Além disso, o benefício pago nos últimos meses ajudou a manter algum grau de consumo no país, e evitou que as empresas sentissem um baque maior.

Ou seja: aumentar as despesas com uma nova rodada do auxílio seria ruim, porque colocaria as contas do governo sob risco, mas não tomar nenhuma atitude seria igualmente negativo, porque prejudicaria as empresas e as famílias. O governo pode ficar diante de uma escolha de Sofia, ou como diz o velho dito popular: entre o espeto e a brasa.

Recuperação interrompida

O resultado surpreendente do IBC-Br, indicador do Banco Central que serve como um termômetro da atividade econômica, mostrou que o PIB do terceiro trimestre pode ter sido melhor que o esperado, e pode ter ainda colocado um ponto final na recessão econômica atual. A questão é quão sustentável será essa retomada.

“A volta do crescimento no último trimestre do ano deveria ser definida nos próximos 40 dias, o período em que o comércio fica aquecido, em razão da Black Friday e do Natal. Mas as pessoas podem se retrair, por causa do medo de uma segunda onda, e pode ser que a recuperação não aconteça da forma esperada”, diz Alexandre Espírito Santo, economista da corretora Órama.

Ele diz que não apostaria em uma segunda onda de contágio agora, que o verão está começando, mas que a possibilidade de vermos os casos subindo nos próximos meses ainda existe, e que se essa possibilidade se concretizar podemos ver uma volatilidade maior na bolsa de valores.

Quais setores seriam mais afetados?

Em uma eventual segunda onda, a aposta dos especialistas é em uma adoção de restrições moderadas. Não devemos ver, por exemplo, fechamentos massivos, e sim medidas localizadas para tentar conter os surtos em determinadas regiões. “Eu não consigo imaginar um cenário onde os governadores, principalmente os dos maiores estados, voltem a fechar a economia, principalmente porque a situação fiscal desses estados já é bastante delicada”, explica Henrique Esteter, analista da corretora Guide.

No entanto, mesmo que não haja qualquer tipo de lockdown, alguns setores seriam afetados tanto por essas medidas restritivas pontuais quanto pelo próprio medo dos consumidores de sair de casa. “Caso isso venha a ocorrer, vamos ver um impacto nos mesmos setores que sofreram no primeiro semestre, como os shoppings, empresas do setor de educação, companhias aéreas e bancos”, diz Esteter.

Já a analista da Toro acredita que as grandes empresas da bolsa, como Vale e Petrobras, seriam menos afetadas, principalmente pela perspectiva de recuperação futura dos negócios.

E como fica o governo federal?

Ainda que não tenha poder sobre as medidas de restrição impostas pelo Estado, a gestão Bolsonaro ainda terá uma missão importante pela frente, e que pode mexer com os mercados nas próximas semanas. Em paralelo com os planos de contenção de danos de uma possível segunda onda de covid-19, o governo ainda precisará se preocupar com as reformas do ano que vem.

“Estamos caminhando para começar 2021 sem que o Orçamento Federal do ano tenha sido aprovado. O governo precisará negociar com o Congresso para cancelar o recesso de janeiro e para tentar fazer essas agendas andarem já no início do ano”, lembra o economista da Órama.

Ele diz que os estrangeiros parecem estar dando um voto de confiança ao Brasil, retomando, em doses homeopáticas, o investimento em ativos locais. Mas essa reconciliação pode não durar, caso o governo Bolsonaro não consiga retomar agendas que ajudem no crescimento de longo prazo. “Aqui eu não estou nem falando de reforma tributária ou de privatizações. É a simples aprovação do orçamento do ano”, explica Espírito Santo.

Reta final dos balanços

Na semana, algumas empresas ainda divulgarão seus resultados, encerrando o período oficial de divulgação de balanços financeiros da bolsa. Nos próximos dias, Azul, Intermédica, Qualicorp e Ânima reportarão seus números do terceiro trimestre.

Para as empresas de saúde, a atenção maior será nas despesas relacionadas à retomada dos atendimentos pelos usuários dos convênios médicos. Com a reabertura das atividades econômicas, muitos brasileiros voltaram às consultas de rotina — esse tipo de atendimento ficou represado durante os primeiros meses de pandemia. Resta saber se a liberação dessa necessidade represada pesou nas despesas das operadoras de planos.

Já para Azul e Ânima, a recuperação está longe de ser vista. Embora as duas companhias devam mostrar uma melhora operacional em relação ao segundo trimestre, os efeitos da pandemia continuarão a ser sentidos em médio e, talvez, longo prazo. No caso da Ânima, além das despesas para adaptação para as aulas online, a desistência e a inadimplência de alunos devem ter começado a mostrar mais força no trimestre.

Já a Azul conseguiu reabrir algumas rotas regionais e viu o tráfego subir, mas ainda vive uma situação muito distante da normalidade. Uma eventual segunda onda de covid-19 preocupa o setor, que pode perder todo o pouco avanço conquistado nos últimos meses.

Veja o calendário de balanços da semana:

Segunda-feira: Azul, Qualicorp, NotreDame Intermédica, Ânima e Direcional;

Terça-feira: Helbor e Coteminas;

Quarta-feira: Não há divulgação de balanços na data;

Quinta-feira: Não há divulgação de balanços na data;

Sexta-feira: Dasa.

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