Como esperado pela maior parte dos analistas, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central) manteve os juros básicos da economia brasileira em 2% ao ano. A dúvida que divide o mercado é sobre quando o BC começará a subir a Selic, já que as expectativas para a inflação só aumentam.

O comunicado que acompanhou a decisão, tomada nesta quarta (dia 20), abriu caminho para isso acontecer no futuro próximo, se necessário. O Copom comunicou que deixará de se guiar pelo chamado forward guidance, ou prescrição futura, instrumento de política monetária implementado em agosto de 2020 em que o BC sinalizou que manteria os juros baixos, desde que as expectativas de inflação não subissem demais.

Foi exatamente isso que aconteceu de lá para cá. No último boletim Focus, por exemplo, os analistas do mercado financeiro ouvidos pela pesquisa semanal elevaram as projeções tanto para o crescimento econômico quanto para a inflação neste ano. A perspectiva para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) passou a ser de 3,43%, cada vez mais perto do centro da meta para variação de preços, de 3,75%.

A disparada do IGP-M (Índice Geral de Preços), índice que mede os preços no atacado e que nesta semana alcançou o maior percentual em 12 meses desde 2003, também elevou o pessimismo, já que essa alta pode contaminar a inflação oficial, medida pelo IPCA.

Alta não é automática

O BC informou que a retirada do forward guidance não significa necessariamente um aumento automático de juros nas próximas reuniões. Se o mercado acreditava em manutenção da Selic em 2% de forma unânime para a reunião desta quarta, agora está dividido.

Na avaliação de Daniel Miraglia, especialista em mercados globais da Ohmresearch, uma elevação na Selic  pode vir já no próximo encontro do comitê, em março. “A divulgação da prévia do IGP-M mostra que essa alta no atacado vai acabar contaminando o IPCA, que é o que o Banco Central olha”, afirma. “No balanço de riscos, esse cenário aponta mais para uma inflação acima da meta neste ano”, completa ele.

“Acreditamos que o Copom irá iniciar o ciclo de aperto no encontro de março, com uma alta de 25 pontos base”, disse André Perfeito, economista-chefe da Necton.

Outros economistas acreditam que a retirada do auxílio emergencial, a segunda onda de covid-19 e a lentidão do processo de vacinação no Brasil podem impactar com força a atividade econômica, garantindo preços mais controlados em breve.

“O voto de confiança do Banco Central é que a inflação que vimos nos últimos meses foi apenas um surto inflacionário, que não tem força para se manter principalmente a partir de março”, afirma Fabio Astrauskas, professor do Insper e CEO da consultoria especialista em recuperação de empresas Siegen. “Estímulos como o auxílio emergencial, que ajudaram a pressionar a inflação, não se manterão neste ano, pelo menos não no mesmo nível. Acredito que os juros serão mantidos pelo menos até o segundo semestre”.

Carlos Kawall, diretor do ASA Investments, aponta para uma expectativa de manutenção “prolongada” da Selic. “O BC manteve uma visão cautelosa com relação aos seus passos futuros, em função do agravamento da pandemia no plano internacional e também no Brasil”, afirmou.

Para Flávio Aragão, da gestora 051 Capital, o dólar valorizado, as expectativas de alta nas exportações de commodities e a retomada do setor de serviços podem pressionar os preços. “A decisão do BC de retirar o forward guidance e deixar o caminho aberto para pisar no acelerador se for surpreendido parece acertada”, declarou.

 

 

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