As características da inflação de 2021 são diferentes das de 2020. No acumulado de janeiro a agosto, o IPCA-15 acumula uma alta de 8,6%, pressionado, principalmente, pelo aumento nos preços dos combustíveis e da energia elétrica. Mas não são só eles que estão pesando no bolso dos brasileiros.

Para André Braz, coordenador do índice de preços da FGV (Fundação Getulio Vargas), dá até para dizer que a inflação de 2021 é mais democrática que a do ano passado. Enquanto os alimentos foram os vilões da inflação de 2020, neste ano os preços administrados é que estão empurrando o índice para cima.

“No ano passado, a inflação ficou muito concentrada no preço dos alimentos e afetou, principalmente, as famílias de baixa renda. Quando a gente vem para 2021, a gasolina e energia têm sido as grandes vilãs. Isso democratiza um pouco a inflação: agora ricos e pobres sentem o aumento de preços. Essa é a inflação que atinge mais a classe média alta, que tem ar-condicionado e mais eletrodomésticos em casa”, disse Braz.

A FGV prevê que a inflação terminará o ano em 7,8%, bem longe do centro da meta que deve ser perseguida pelo Banco Central em 2021, que é de 3,75%. Outras instituições revisaram suas projeções para a inflação nesta semana, caso do Ipea (7,1%) e do Itaú (6,9%).

“O que pode fazer o índice fechar um pouco mais baixo é São Pedro ajudar a chover nos reservatórios e permitir que a bandeira tarifária de energia elétrica volte a ficar no patamar vermelho ou amarelo, menores que o atual”, afirma Braz.

Veja 5 pontos que você precisa saber para entender o que está acontecendo com a disparada de preços:

Espalhamento

Em 2021, a inflação não tem um único vilão – carapuça que coube aos alimentos em 2021. Além da energia e dos combustíveis, os preços de bens duráveis e de serviços vem subindo.

“A inflação está espalhando e esse processo torna o processo um pouco mais perigoso, pois os preços ficam com uma resistência menor a aumentos”, disse Braz. “A gente tem visto os bens duráveis, como eletrodomésticos e carros, subirem de preço por conta de aumento de custos de produção. A inflação deste ano está muito mais espalhada.”

Geadas e outros fatores climáticos

Os efeitos da geada e do tempo seca também afetam a inflação. “O etanol também está subindo, porque as geadas combinadas com a seca quebraram a safra de alguns canaviais. O preço do açúcar e do etanol subiram por causa disso. O café e o milho também foram vítimas das geadas.  O preço do milho encarece o custo da ração, encarecendo o preço da carne de frango”, conta o coordenador de preços da FGV.

A falta de chuvas nos reservatórios também pesou na conta da inflação. “Tivemos uma crise hídrica que fez a agência regulatória acionar a bandeira vermelha patamar 2, o que deu um belo impulso na inflação.”

Aumento do custo de produção e falta de insumos

Os preços não sobem apenas para o consumidor. A inflação pressiona os custos de produção, que acabam sendo repassados para o consumidor final. Combinado a isso, alguns setores sofrem com a falta de insumos. “A falta de componentes fez as montadoras interromperem a produção, engarrafando a oferta de veículos novos. Como faltam novos, o consumidor procura usados, e aí os preços sobem porque subiu a demanda”, diz Braz.

Inflação para ricos e pobres

Apesar de a inflação estar mais democrática, segundo Braz, ela continua atingindo ricos e pobres. “Os preços dos alimentos continuam no radar, afetando mais os mais pobres. E se a alta da gasolina desafia os mais ricos, o GLP desafia os mais pobres. O preço do gás de cozinha vem subindo muito”, afirma Braz.

O espalhamento da inflação agora atinge todos os bolsos. “A gasolina e energia têm sido as grandes vilãs dos preços de 2021. Isso democratiza um pouco a inflação: agora ricos e pobres sentem o aumento de preços.”

Crescimento do PIB e volta da inflação de serviços

O aumento do consumo, tão importante para a economia, também pressiona os preços. “As projeções de crescimento do PIB estão acima de 5%. Ainda que a inflação nos desafie, essa demanda aquecida conjugada com a escassez de fatores produtivos acabam elevando os preços”, conta André Braz.

Segundo ele, a flexibilização das restrições sanitárias vai trazer de volta a inflação de serviços, como restaurantes, lazer e viagens. “Serviços, que antes estavam quase proibidos de serem prestados, estão voltando à normalidade. Já percebemos aumento de preços em restaurantes, hotéis e passagens aéreas. Esses aumentos são esperados porque esses serviços também são vítimas da alta de custos: a querosene de aviação afeta o preço da passagem, os hotéis sofrem com a energia. Todas essas pressões vão impulsionar os preços dos serviços num cenário de manda mais aquecida.”

E como fica a inflação de 2022?

Pelas previsões da FGV, o IPCA de 2022 deve se aproximar de 4%. “A aposta para controlar a inflação é arrefecer a demanda por serviços, que respondem por 30% do IPCA. Se a gente controla serviços e bens duráveis, já controla metade do índice oficial. O restante depende ds preços administrados e dos alimentos, que aí não dá para controlar mesmo, depende das condições de safra e dos preços que são praticados no mercado internacional.”

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