A reclamação número  1 dos construtores e incorporadores brasileiros é sobre os preços dos materiais de construção. Os condutores elétricos, por exemplo, subiram mais de 30% desde o início do ano; as instalações hidráulicas e o cimento ficaram quase 20% mais caros.

Esse aumento repentino de custo, causado por uma demanda maior por insumos de construção, pesou no orçamento das empresas que estão colocando projetos de pé, e já está influenciando os preços dos imóveis — tanto os que estão em obras quanto os que serão lançados nos próximos meses.

Como assim? O setor de construção civil possui um indicador próprio para medir a variação dos custos das obras — trata-se do INCC (Índice Nacional da Construção Civil). Os materiais de construção são parte do índice, e é por isso que o encarecimento de alguns itens acaba fazendo com que o INCC suba.

No ano, a variação acumulada do INCC está em 4,6%. Comparativamente, a inflação média ao consumidor, medida pelo IPCA, avançou apenas 0,7% no mesmo período.

E por que o INCC é importante? Esse índice serve principalmente para corrigir os contratos de imóveis comprados na planta, por isso uma escalada do INCC pode dar um susto em quem está sonhando com a casa própria. Funciona assim: todo o saldo a ser pago até a entrega das chaves (ou seja, o chamado fluxo de pagamento para a construtora), é corrigido pelo INCC. Como esse valor costuma ser de até 30% do valor total do imóvel, qualquer correção adicional tem o potencial para doer no bolso.

“A alta dos preços demora mais a chegar ao INCC, mas uma hora ela chega. Evidentemente, essa aceleração pode causar inadimplência. Além disso, o reajuste dos salários das famílias não está acompanhando o custo da construção, o que acaba restringindo o universo de pessoas que têm acesso à compra de um imóvel novo”, explica Odair Senra, presidente do Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo).

E quanto aos imóveis novos? Senra diz, ainda, que embora as construtoras planejem as obras em grandes ciclos, esses aumentos pontuais também afetam os preços dos próximos lançamentos. “As obras que já estão sendo tocadas foram planejadas quando os materiais tinham outro preço. Pra piorar, os itens não só estão mais caros, como está faltando produto. Hoje temos obras paradas, o que causa um custo irreversível pro setor”, afirma ele.

O presidente do Sinduscon explica que esse custo extra faz com que as construtoras já calculem os preços dos lançamentos com um cenário diferente em mente, considerando que a alta dos preços dos materiais pode perdurar. “Vai subir o preço do imóvel, e subindo esse preço sobe também a necessidade de renda mínima para comprar. Isso prejudica o mercado e prejudica a população que precisa adquirir seu imóvel”, diz.

Mas por que a alta dos preços dos insumos é maior do que a variação do INCC? Os materiais de construção são só um dos componentes do INCC — eles têm um peso de 37% no índice. A mão de obra do setor é mais representativa do que os próprios insumos, correspondendo aos outros 63% do INCC. Ao contrário dos materiais, o custo dos salários dos trabalhadores está em queda, em razão da crise do desemprego.

Variação acumulada do INCC e de seus componentes nos últimos 12 meses
Crédito: Reprodução/FGV

“O mercado de trabalho está desaquecido, apesar de o setor da construção não ter parado durante a pandemia. A oferta de mão de obra é abundante, e os salários dos trabalhadores do setor não tiveram reajuste real. Tudo isso amortece a alta dos preços dos materiais de construção e impede que o INCC acelere ainda mais”, explica Ana Castelo, coordenadora de projetos da construção do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV.

Ela explica que a disparada dos preços dos itens de construção foi alimentada principalmente pela demanda maior do consumo das famílias. “Na quarentena, as famílias puderam fazer melhorias no lar, principalmente por causa da liberação do auxílio emergencial. Mas esse é um efeito que se esgota, primeiro porque o próprio aumento de preços já inibe a compra pelos consumidores, e segundo porque a liberação do auxílio está no fim”, diz Castelo.

Sendo assim, a expectativa é que a demanda esfrie e os preços se acomodem, dando um alívio para o INCC. A questão é que como há um atraso no repasse dos preços para o indicador da construção, mais ou menos como acontece com os outros índices de inflação, é possível que o INCC suba um pouco mais antes de começar a ceder.

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