Uma divulgação considerada protocolar acabou acendendo uma luz amarela nos mercados globais. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 0,8% em abril — a expectativa era de inflação em 0,2%.  Trata-se da maior alta desde abril de 1982, e gerou expectativas de mudanças nas políticas monetárias da maior economia do mundo.

Por que a inflação disparou nos EUA? Os Estados Unidos estão empenhados em promover uma recuperação rápida da economia depois do choque provocado pela pandemia de covid-19. Os caminhos para injetar dinheiro na economia são vários, e vão de estímulos fiscais vigorosos ao compromisso com investimentos em infraestrutura.

Essa retomada é necessária e bem-vinda, mas pode ter um efeito colateral: inflação elevada. E, diante de uma pressão inflacionária forte, o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) pode se ver obrigado a elevar a taxa de juros antes do que se supunha.

“O Fed estava prevendo em seus relatórios trimestrais que só subiria juros em 2024. Mas, com a atividade econômica aquecida, os investidores já começaram a apostar que ele começaria a elevar juros antes”, comenta Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos. “Quando a gente tem um dado de inflação mais forte, na casa dos 4,6%, isso coloca mais fogo nessas apostas.”

E o meu bolso com isso?

Como se sabe, os mercados não gostam de surpresas. A primeira reação das principais Bolsas de Valores do mundo foi operar no vermelho logo após a divulgação. Abaixo, o 6 Minutos destaca alguns possíveis impactos da inflação alta nos EUA sobre o seus investimentos.

Juros sobem lá. E aqui também: Caso o Fed precise mesmo aumentar os juros para conter a inflação, os demais Bancos Centrais do mundo podem rever suas estratégias de juros baixos. “Os bancos centrais dos outros países também são forçados a subir suas taxas de juros”, responde Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos. “Isso acontece porque os juros dos EUA são uma referência de prêmio livre de risco.”

Ou seja, se o investidor sabe que pode obter uma certa taxa investindo sem risco algum nos EUA, os outros países precisam oferecer taxas mais generosas, que compensem o risco maior de investir em suas economias. Isso inclui o Brasil, que tem um risco-país bastante considerável e também se vê pressionado a subir juros.

Dólar fica mais caro: “Com esse menor diferencial de juros da economia desenvolvida sobre as emergentes, há menos fluxo de investimento estrangeiro para as economias periféricas”, explica Camila. “Isso tende a provocar a valorização do dólar.”

Bolsa é duplamente penalizada:  Primeiro, pela própria saída de investidores estrangeiros da Bolsa, que preferem aplicar com menos risco nos EUA e não mais em empresas brasileiras. E segundo, porque o aumento dos juros provoca uma diminuição do valor das empresas, puxando suas ações para baixo.

“O valor atual de uma empresa é o que ela pode gerar de benefícios futuros. Você pega os lucros do futuro, soma e vê quanto pode pagar no negócio hoje”, explica Lang. “Só que o valor do dinheiro no tempo é medido pela taxa de juros desse tempo. Quando as taxas de juros mais longas sobem, isso provoca um aumento do custo do dinheiro, e aquele lucro futuro da empresa, quando trazido a valor presente por uma taxa maior, provoca uma diminuição do valor presente da empresa. Aquele lucro futuro hoje vale menos, então a empresa vale menos.”

O head de renda variável da Valor explica que isso é especialmente negativo para as empresas de tecnologia. “Elas não geram lucro hoje, e sim lá na frente. Quando você traz esse lucro que acontece lá na frente a uma taxa de juros mais alta, a empresa acaba perdendo muito valor”, afirma.

O que faço agora?

Calma, não há motivo para preocupação. Para Lang, os dados de inflação dos EUA vieram fortes, mas não haverá uma repercussão tão imediata assim nas outras economias. “Por enquanto, isso tudo é só especulação. O mercado precisa dar uma corrigida nas expectativas, mas não é isso que vai fazer a gente embarcar em uma espiral negativa”, acredita.

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