Setembro foi um divisor de águas para a confiança dos empresários da indústria e do comércio. Nos dois setores, o índice de confiança medido pela FGV (Fundação Getulio Vargas) ficou acima do período pré-pandemia. O caso da indústria é ainda mais emblemático: o indicador atingiu o nível mais alto desde janeiro de 2013, portanto antes da crise de 2014.

O otimismo só não é generalizado porque a confiança dos empresários do setor de serviços continua abaixo do que era antes da crise do coronavírus. Em setembro, apesar de ter crescido, o otimismo de serviços deu sinais de desaceleração.

Mas o que vem puxando essa confiança para cima? São vários fatores. O primeiro é que o buraco foi menos fundo que o esperado no começo da crise. “Quando a pandemia começou, o índice de confiança da indústria caiu como nunca antes tinha ocorrido. Mas os números do final do segundo trimestre e do começo do terceiro trimestre indicam que a queda não vai ser tão grande quanto se esperava no início”, diz Fabio Klein, economista da Tendências Consultoria.

Outro motivo, talvez o mais importante, foi o efeito do auxílio emergencial para a economia. “A recuperação tem a influência dos auxílios do governo, que promoveram aumento da renda e sustentaram algum tipo de atividade econômica”, afirma Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da FGV).

Mas a partir de agora, lembra ele, o pagamento do auxílio foi reduzido pela metade. “A renda fica mais apertada a partir de outubro, com a redução do valor do benefício.”

Então já dá para sair comemorando? É bem cedo para isso. Primeiro, porque a recuperação não é uniforme nem mesmo da indústria e do comércio. Alguns segmentos se recuperaram melhor que outros. “Não são todos os setores que tiveram aumento da confiança. A de automotores, por exemplo, ainda está abaixo do começo do ano”, diz Renata de Mello Franco, economista do Ibre/FGV. “Quem vem crescendo forte é a indústria de bens intermediários.”

Em segundo, o setor de serviços continua sofrendo para se recuperar do tombo sofrido na pandemia. “O fundo do poço foi mais fundo para serviços do que para a indústria e comércio. Serviços para as famílias, que incluem refeições fora de casa e alojamentos [hospedagem] ainda sofrem para se recuperar, tanto pelos cuidados com a saúde quanto pelo encolhimento da renda”, diz Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da FGV).

Segundo ela, a interrupção de produção provocado pela pandemia deu impulso no otimismo do setor. “Isso desorganizou a produção de muitas empresas, que tiveram de aumentar a produção para atender a demanda aquecida.”

Outro ponto importante é que as sondagens mostram que a confiança da indústria e do comércio subiram apenas no curto prazo. Quando se observa um horizonte de seis meses, pouca coisa mais longe, ainda há muita cautela. “Quando perguntamos sobre o ambiente de negócios para os próximos seis meses na indústria, o indicador ficou em 96,5 pontos em setembro, ainda abaixo de fevereiro (104,9 pontos)”, diz Renata.

O que afeta a confiança no médio prazo? A principal dúvida é sobre como a economia reagirá ao fim do auxílio emergencial. “O empresário não sabe como será o substituto do auxílio emergencial. Sem esse tipo de ajuda, haverá queda no poder de compra, o que gera muita cautela quanto ao futuro”, diz Rodolpho.

Também pesa o aumento da taxa de desemprego, que coincide com a reabertura da economia. “O empresário não sabe se esse momento bom atual vai ser capaz de gerar um círculo virtuoso que possa se estender por muito mais tempo. Ainda há muita incerteza. Ninguém faz uma dívida de longo prazo, como a compra de um carro, sem saber se terá emprego e renda para quitá-la no futuro”, afirma Renata.

Então essa confiança toda deve voltar a cair? É bem provável que esses indicadores não se sustentem em patamares tão elevados nos próximos meses. “O pós-pandemia não nos autoriza ainda a ter esse otimismo todo. Entramos numa super crise e os programas de ajuda do governo têm data para acabar”, afirma Klein, da Tendências.

Para Tobler, a confiança da indústria e do comércio devem desacelerar, ficando mais próximas do que acontece com serviços.  “A tendência é que os outros setores caminhem para o ritmo de serviços, e não o contrário. Todas as incertezas que se têm sobre o futuro contribuem para essa cautela.”

PeríodoÍndice de confiança do comércioÍndice de confiança da indústriaÍndice de confiança de serviços
janeiro98,1100,996,1
fevereiro99,8101,494,4
março88,197,582,8
abril61,258,251,1
maio67,461,460,5
junho84,477,671,7
julho86,189,879,0
agosto96,698,785,0
setembro99,6106,787,9

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