O fim do pagamento do auxílio emergencial deve causar estragos na capacidade de pagamento da população, principalmente dos mais pobres. Enquanto durou, o benefício ajudou a segurar a pobreza e estimulou o consumo em diversos segmentos.

O problema é que a ajuda de R$ 600 chegará ao fim sem que os efeitos da crise tenham acabado: o desemprego continua em alta e a renda está em queda. O efeito disso, na opinião de especialistas, será o aumento da inadimplência.

“O auxílio ajudou a economia de duas formas: estimulou o consumo e evitou o aumento da inadimplência. Tivemos uma redução da pobreza que não víamos há muito tempo”, disse o economista Flávio Calife, responsável pela área de Estudos e Indicadores Econômicos da Boa Vista.

Para piorar, a extinção da ajuda coincide com o início da cobrança de dívidas que foram renegociadas no início da pandemia. Vários dos boletos que foram pausados voltam ser cobrados agora, mas com o acréscimo de juros.

Em que pé está o endividamento da população? Cresceu durante a pandemia. O percentual de endividamento subiu de 66,2% em março para 67,4% em julho, alcançando o maior nível da história da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio).

A inadimplência também subiu? Sim. A proporção de famílias com contas ou dívidas em atraso subiu de 25,3%, em março para 26,3%, em julho. Outro dado preocupante é que o percentual das famílias que declararam não ter condições de quitar os débitos no mês seguinte subiu de 10,2%, em março para 12%, em julho.

E quando o auxílio emergencial chega ao fim? O calendário de pagamento varia de acordo com a data em que a pessoa começou a receber o benefício. Para quem começou a receber em abril, a última parcela será paga agora em agosto. Ao todo, são cinco parcelas.

O cenário pode mudar se o governo prorrogar o pagamento do auxílio. Mas tudo leva a crer que uma eventual prorrogação se dará com uma redução do valor da parcela, que hoje é de R$ 600.

A inadimplência vai continuar a subir? A combinação de todos esses fatores mostra que o que estava difícil vai ficar ainda pior. “Muitas pessoas usaram o auxílio para pagar contas. E outras repactuaram prazos de pagamento, renegociaram dívidas. As contas estão vencendo, mas sem a ajuda do auxílio para serem quitadas”, afirma Calife.

“Tudo o que foi suspenso volta a ser cobrado. Houve uma diluição de cobrança, que ajudou a achatar a curva de inadimplência. Ela teria um crescimento mais rápido nesse cenário de desemprego. Mas o consumidor contou com vários paliativos, pode parcelar compras, pausar pagamentos. Isso tudo diluiu a inadimplência e a jogou lá para frente”, diz Calife.

Mais algum fator jogando contra? Sim, a tempestade é perfeita. Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas), lembra que a validade do BEM (Benefício Emergencial), que permitiu que empresas suspendessem contratos e reduzissem salários termina em setembro. Ou seja, as empresas mais prejudicadas pela crise podem não ter outra alternativa além de demitir funcionários.

“Como esse benefício deixará de existir, a possibilidade de termos um repique do desemprego lá na frente é bem real”, diz Rochlin.

E quando essa bomba da inadimplência vai explodir? As projeções indicam que ela subirá mais fortemente a partir do início de 2020. “Esses alívios que foram dados no pagamento empurraram a inadimplência lá para frente”, afirma Calife.

Na semana passada, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, disse que havia uma expectativa de  aumento na inadimplência para o final deste ano e 2021.

 

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