(atualizada em 10/9/2020)

Enquanto as projeções para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ficam cada vez mais magras, o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) está firme na trajetória de alta. De acordo com as percepções dos economistas coletadas no relatório Focus, do Banco Central, o IPCA deve fechar 2020 em 1,78%, a menor de toda a série histórica. Por outro lado, o IGP-M acelerou e já ultrapassou os 10% em 12 meses.

O que explica o abismo entre os dois índices? Apesar de estarem em polos distintos neste momento, o IPCA e o IGP-M servem para o mesmo propósito: ambos são índices inflacionários e, portanto, acompanham o custo de produtos e serviços.

A diferença essencial está na composição de cada um. Enquanto o IPCA atribui maior peso a itens relacionados ao consumidor, o IGP-M tem como principal base os preços para o setor produtivo (indústria, agropecuária e construção). Explicamos melhor as diferenças entre os dois índices nesta outra matéria.

Ou seja, para as famílias brasileiras o índice que deve ser acompanhado mais de perto é o IPCA, pois é ele quem melhor reflete o custo de vida médio no país.

Por que o IGP-M está subindo mais? O principal fator é a cotação do dólar, mas o aumento de preço de diversas commodities também afetou o índice recentemente.

“O IGP-M contempla a variação de preço de grandes commodities, tanto agrícolas quanto industriais, que sofreram recentemente com a desvalorização do real frente ao dólar. Minério de ferro, soja, carne bovina, e outros produtos básicos avançaram bastante durante a pandemia“, explica André Braz, especialista de inflação da Fundação Getulio Vargas.

Ele diz que a retomada das atividades na China ampliou a demanda por esses produtos básicos, e que essa demanda extra somada à desvalorização do real encareceu os custos de produtores brasileiros.

“Até setembro do ano passado, o IGP-M e o IPCA tinham uma variação acumulada em 12 meses até parecida. O primeiro descolamento aconteceu em dezembro, por causa do aumento do preço da carne no mercado externo, estimulado pela demanda da China”, lembra o pesquisador. Ele explica que a carne tem um peso três vezes maior no IGP-M do que no IPCA, pois no primeiro índice são considerados, por exemplo, os preços de cotação do boi vivo, e não só os produtos provenientes da carne.

É só isso? A carne é um exemplo que explica a fotografia de antes da pandemia, e que ainda tem um peso importante no índice. Outro fator bastante relevante foi o de combustíveis. Embora o preço da gasolina e do diesel tenha despencado no primeiro trimestre, em razão da crise do petróleo no mercado externo, aos poucos a cotação desses produtos foi se recuperando.

“No IGP-M, a gasolina e o diesel pesam muito mais do que no IPCA. Os combustíveis têm um peso grande para o setor produtivo”, explica Braz. Desde maio, o preço da gasolina já subiu quase 60% nas refinarias da Petrobras, e o diesel avançou 16%.

Parte dessa alta recente dos combustíveis não chegou ao bolso dos brasileiros, pois muitas pessoas seguem trabalhando de casa ou se locomovendo menos do que antes. Já o setor produtivo segue precisando transportar seus produtos, o que faz com que a alta dos preços do diesel seja integralmente sentida pela cadeia logística.

Por que o IPCA está mais tímido? Além da trégua dos combustíveis, o índice de preços ao consumidor foi afetado pela paralisação de parte das atividades econômicas. Boa parte do setor de serviços está retomando o funcionamento somente agora, e uma outra parte deve seguir parada por um bom tempo. Alguns exemplos são os serviços de educação e de entretenimento (cinema, teatro e shows).

Nessa retomada, poucos prestadores de serviços estão dispostos a reajustar seus preços, para evitar a perda da clientela. “As empresas não vão aumentar o preço se não há consumo para isso. Elas estão tentando diminuir margem até o limite”, conta Braz, da FGV.

Existe a possibilidade de os custos mais altos dos produtores serem repassados para o consumidor? Por causa do ritmo econômico lento, esse repasse não deve ser disseminado. Alguns produtos industriais, como eletrodomésticos e eletrônicos, começam a sofrer um encarecimento por causa do efeito do dólar mais alto. Mas esse é um efeito bastante pontual, de acordo com o especialista da FGV.

“O repasse é complicado porque não há inflação de demanda. O consumo das famílias está muito enfraquecido por causa do desemprego e da queda na renda”, diz Braz. Ele explica que não há expectativa de que o dólar vá ceder muito além do patamar em que está, e que por isso o câmbio deve continuar pressionando os custos dos produtores.

Quando o cenário pode mudar? A inflação será um bom termômetro para saber se a economia está reagindo ou se ainda estamos longe do ponto de inversão. Embora a projeção de inflação para 2020 esteja abaixo dos 2%, é importante lembrar que a meta estipulada pelo Banco Central é de 4% — ou seja, estamos muito longe do cenário ideal.

“Se a inflação subir de forma ordenada, como sinal de recuperação da economia, será uma boa notícia. Mas se houver algum descompasso, o Banco Central pode entrar em ação para voltar a subir os juros“, diz Braz. Perguntado sobre quão provável esse cenário é, pelo menos em um curto prazo, ele disse que só vê algo parecido ocorrendo no início do segundo semestre de 2021.

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