A Eurasia, uma das mais respeitadas consultorias de risco político do mundo, rebaixou as perspectivas para o Brasil.

Até a chegada da pandemia do coronavírus, a consultoria acreditava que, apesar da atitude beligerante do presidente Jair Bolsonaro, o Congresso avançava para a aprovação de reformas que levariam a maior crescimento econômico, alimentando um ciclo virtuoso, a longo prazo, para o país. “Esse ciclo se quebrou”, diz Christopher Garman, diretor da consultoria para as Américas. “E poderemos ter um ciclo vicioso.”

Segundo Garman, por causa dos desdobramentos da crise do coronavírus, o país pode correr, inclusive, o risco de um conflito institucional mais sério se Bolsonaro continuar a apelar à retórica antipolítica.

Esse teste não vai acontecer no curto prazo, porque o país e as lideranças políticas, passando pelo Congresso, estão mobilizados para conter o avanço do coronavírus. Mas pode ocorrer daqui a poucos meses, quando o país provavelmente estará em recessão e o pior momento da crise de saúde pública tiver passado.

“Os momentos mais dramáticos, do ponto de vista econômico e social, ainda estão por vir”, afirma.

Veja a seguir a entrevista de Garman:

Além do coronavírus, há outras razões para maior pessimismo com o Brasil?

Antes do coronavírus, nós estávamos num equilíbrio. Tínhamos o presidente com a postura de manter uma retórica contra o establishment político. Ao mesmo tempo, lideranças no Congresso tinham chegado à conclusão de que manter uma agenda de reformas fiscais e econômicas era de seu interesse eleitoral. Também havia um alinhamento inédito de governadores e líderes no Congresso para aprovar uma reforma tributária. Era um ambiente com tensões políticas, mas, paradoxalmente, com incentivos para que os atores avançassem com as reformas.

Com o choque do coronavírus, teremos dois momentos políticos. Um será imediato e terá a ver com a reação da classe política à crise. As primeiras reações do governo foram desastrosas. O presidente minimizou a crise, com medo da repercussão econômica. A reação da equipe econômica foi a de querer acelerar as reformas. Ou seja, o governo foi lento em medidas para mitigar os efeitos sociais e econômicos.

Mas, no curtíssimo prazo, ainda mantemos certo otimismo.

Por quê?

Estamos enxergando um governo mais focado em uma agenda de mitigar os efeitos sociais e econômicos para as empresas e a população. Eles estão atrasados, mas passaram a fazer esse movimento. Estamos também enxergando no Congresso uma imensa boa vontade para aprovar com celeridade toda essa agenda.

Mas, depois, nós vamos ter um segundo estágio: passados os primeiros três, quatro meses, vamos viver as repercussões de uma economia que deverá estar no chão, com deslocamento social e econômico profundo e crescimento baixo não só este ano, mas também no próximo ano.

Que cenário o senhor vislumbra?

Nós poderemos ter crescimento baixo; um presidente que reage ao seu enfraquecimento, indo às suas bases e reforçando a retórica anti-establisment contra a classe política e uma classe política desesperada com suas chances de reeleição em 2022. Então, a coalizão reformista no Congresso também poderá se fracionar.

Aquele cenário de que aprovar reformas era do próprio interesse dos parlamentares, com um presidente um pouco mais tranquilo da sua posição política e com um ciclo virtuoso de reformas e crescimento econômico se auto-alimentando, esse ciclo foi quebrado. E poderemos ter um ciclo vicioso.

Que consequência terão os panelaços contra Bolsonaro?

O presidente fez uma leitura muito equivocada de como deveria reagir à crise e deve pagar um custo político pela postura que adotou. Estamos vendo que os governos que tratam a crise do coronavírus como uma guerra podem se beneficiar disso. Nos EUA, o presidente Donald Trump, num primeiro momento, estava minimizando a crise como se fosse apenas uma gripe mais feia, porque estava com medo de que as pessoas entrassem em pânico e a economia parasse. Mas ele mudou, tomou medidas mais agressivas e a aprovação da sua gestão da crise subiu de 38% para 47%. Se Bolsonaro fizer uma mudança para tratar a crise como uma guerra, ele pode até se recuperar.

Acredita que a atitude belicosa do presidente com os governadores continuará?

Minha aposta é que ele vai mudar, assim como o presidente Trump mudou, porque a crise vai atropelar. A estratégia de não gerar pânico para evitar a economia entrando em colapso é perdedora. Não tem como vencer. O presidente vai reconhecer isso. Mas ele não vai fazer uma reviravolta total. O cálculo do Palácio do Planalto é que Bolsonaro chegou lá sem apoio de ninguém e precisa alimentar a narrativa contra o establishment para se sustentar politicamente. Quando entra em dificuldades, o instinto do presidente é redobrar a retórica polarizante.

O apoio a essa retórica está minguante ou não?

Não sabemos ainda o preço que ele pagou pela minimização da crise, mas pode ser relativamente grande. O preço virá na frente. Num cenário de recessão, o presidente dificilmente manterá apoio. Enfraquecido politicamente, se ele insistir numa retórica anti-establishment, isso pode se tornar perigoso.

Nós fizemos um downgrade (rebaixamento) do Brasil a longo prazo porque a segunda derivada dessa crise nos preocupa muito mais do que o conflito institucional de curtíssimo prazo. Neste primeiro momento, o Congresso vai cooperar.

Há possibilidade de um conflito institucional sério mais à frente?

Essa hipótese, com certeza, entrou no radar. É isso que queríamos sinalizar com um downgrade a longo prazo. O cenário político que virá depois da crise vai depender muito do que acontecerá nos próximos dois, três meses. Os momentos mais dramáticos, do ponto de vista econômico e social, ainda estão por vir.

(Com Estadão Conteúdo)

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