O último levantamento da Economatica sobre fundos de investimentos mostrou que a maior parte dos fundos de ações (10 das 12 das classificações Anbima) teve rentabilidade inferior à variação do índice Ibovespa nos últimos 12 meses.

O segundo grupo com pior desempenho em abril, no acumulado de 2021 e nos últimos 12 meses foi o dos fundos que pertencem à classificação “sustentabilidade/governança“, que remete ao tema ESG, sigla em inglês que expressa boas práticas ambientais, sociais e de governança.

Por que esse levantamento da Economatica intriga? Justamente porque espera-se que ter práticas ESG tragam resultados melhores às empresas, provocando um impacto positivo no valuation delas. Por isso, ver o grupo de fundos mais associado com esse tema indo tão mal na lista provoca uma quebra de expectativas.

Classificação ANBIMAPrêmio vs Ibovespa (abril 2021) p.p.Prêmio vs Ibovespa (últimos 12 meses) p.p.Rentabilidade (abril 2021) (%)Rentabilidade (últimos 12 meses) (%)
Ações Small Caps3,046,844,9854,52
Ações Setoriais1,59-7,193,5340,50
Ações Valor/ Crescimento1,07-1,783,0145,90
Ações Índice Ativo1,04-0,862,9846,82
Ações Livre1,03-4,032,9643,65
Ações Invest no Exterior0,81-4,242,7543,45
Ações Dividendos0,68-9,522,6238,16
Fechados de Ações0,63-5,192,5742,50
Ações Indexados0,360,202,3047,88
Ações FMP - FGTS-0,57-15,891,3731,80
Ações ESG (Sustentab. / Governança)-1,94-19,570,0028,12
Fundos de Mono Ação-2,14-19,54-0,2128,14

Para entender melhor esses resultados, o 6 Minutos conversou com três especialistas em ESG: Fabio Alperowitch, CFA da Fama Investimentos, Gustavo Pimentel, diretor executivo da SITAWI e Gilberto Ribeiro, sócio e COO da Vox Capital. Eles disseram que a classificação da Anbima não é uma amostra confiável dos fundos ESG do país e, portanto, os dados levantados pela Economatica não permitiriam concluir que os fundos ESG teriam um desempenho fraco.

Veja a seguir as principais críticas dos três especialistas ao ranking:

Analisar apenas o retorno é insuficiente

O retorno dos investimentos pode ser a dimensão mais buscada pelos leitores. Mas a análise de um fundo olhando apenas para o retorno proporciona uma leitura incompleta. “É preciso olhar também para risco, volatilidade, índice Sharpe [indicador de desempenho com base no histórico de investimento], entre outras variáveis”, diz Pimentel.

A janela de tempo é curta demais – e pegou um período atípico

“Em todas as classes de investimento que focam na economia real, como é o caso das ações, não adianta você falar em retorno na quinzena ou no mês”, diz Ribeiro. “É preciso olhar janelas maiores.”

O maior intervalo de tempo que o ranking mostra se refere aos últimos 12 meses. “Mas, quando se fala em renda variável, o correto seria olhar pelo menos 36 meses”, acredita Pimentel.

Além disso, esses 12 meses em especial pegaram um período em que a Bolsa bateu em seu mínimo – já que abril de 2020 foi o momento de maior depressão ainda sob o choque inicial da pandemia.

“É uma base de comparação de um período anormal, que retrata um momento infeliz. Estar performando melhor ou pior em um determinado momento não significa ser melhor ou pior. Pensar assim seria como dizer que o Neymar é um jogador ruim por ele estar jogando mal em determinada partida”, compara Alperowitch.

Como o Brasil tem pouquíssimos fundos ESG e eles são recentes – muitos não têm nem dois anos de histórico – isso dificulta as coisas. “Falta massa crítica suficiente para que se tenha uma estatística confiável”, diz o CFA da Fama.

A classificação Anbima não representa bem os fundos ESG do país

A amostragem que está sob o guarda-chuva “sustentabilidade/governança” da Anbima não é representativa do que são os fundos ESG no Brasil hoje. Ela foi criada há mais de 10 anos, quando a indústria de fundos ESG era ainda menor, e considera que um fundo ESG só pode ser da categoria ações livre.

“Mas, na verdade, ESG é uma camada adicional a qualquer tipo de fundo: pode estar em fundos de renda fixa ou de private equity, por exemplo. A própria Anbima está revendo a categoria e deve relançá-la entre o 2º semestre e o início de 2021″, explica Pimentel.

Na prática, os principais fundos do Brasil que tratam da temática ESG hoje em dia não estão incluídos nessa classificação. Muitas gestoras que possuem fundos com viés ESG preferem colocá-los em outras categorias, que reflitam melhor a estratégia de investimentos e o perfil risco-retorno do fundo. “Com isso, seus fundos podem ser comparados com um conjunto de pares que faz mais sentido”, afirma o diretor da SITAWI.

A quantidade de fundos ESG é pequena, o que aumenta distorções

Uma categoria com muitos membros é relevante do ponto de vista estatístico. Mas esse não
é o caso dos fundos ESG. Existem muito poucos fundos ESG no Brasil, e os principais não estão contemplados na categoria da Anbima.

Uma amostra tão pequena pode ser estatisticamente irrelevante. “Se o fundo XPTO vai tremendamente bem, podemos concluir que ESG é bom porque XPTO está indo bem? Pode ser casuísmo, sorte, ou então aquele fundo é bom porque o gestor dele é bom. As conclusões de uma amostra pequena são enviesadas”, defende Alperowitch.

O Índice de Sustentabilidade (ISE) não é uma boa referência

Boa parte dos fundos que estão dentro da amostra da Anbima segue o índice de sustentabilidade (ISE) e replica a carteira desse índice. Mas esse índice não é visto pelo setor como uma boa referência de sustentabilidade.

“O ISE tem um monte de problemas. O principal é que ele é voluntário: a empresa vai lá e diz ‘quero fazer parte do ISE’, preenche um questionário e pronto. O nível de governança sobre as informações é muito pobre”, explica Ribeiro.

Uma prova de que o ISE seria questionável é que a Petrobras foi incluída nele em novembro de 2020 – mesmo com todo o debate sobre combustíveis fósseis e a questão da governança sobre as estatais.

O Ibovespa tem correlação excessiva com setores que os fundos ESG carregam pouco

Para aferir o desempenho dos fundos de ações, o levantamento usa como referencial a variação do Ibovespa. Mas esse índice tem uma peculiaridade: a alta concentração de empresas de commodities, como mineração, petróleo e gás. Então, qualquer coisa que aconteça com esses setores mexe muito com o índice, para cima ou para baixo. Se o petróleo ou o minério de ferro desabam, o Ibovespa não vai performar bem; se eles sobem, Vale e Petrobras puxam o índice para cima.

Enquanto a correlação do Ibovespa com commodities é fortíssima, a dos fundos ESG não é. Como esses setores são pouco simpáticos aos valores ESG, sobretudo por razões ambientais, os gestores de fundos com esse viés vão carregar menos Vale e Petrobras nos portfólios.

Por isso, o resultado dos fundos ESG será, por definição, menos correlacionado com a variação do Ibovespa: se petróleo e mineração estão subindo, os fundos ESG vão subir menos. Mas ter resultados descolados do índice não significa, necessariamente, que esses resultados sejam ruins.

Mas então como escolher um fundo ESG?

Se tabelas de rentabilidade que consideram no máximo 12 meses não são a melhor métrica para avaliar os fundos ESG, então qual é o caminho que o investidor deve percorrer para comprar um produto com essa temática? O primeiro passo é ter a mesma preocupação com a escolha da gestora que você teria ao comprar um fundo de outro tipo.

“Um fundo de ações ESG é, antes de mais nada, um fundo de ações. Então, o investidor precisa de uma gestora com um time bom e experiente para gerir fundos de ações”, afirma Pimentel. “O mesmo raciocínio vale para fundos de renda fixa ESG ou fundos de infraestrutura ESG, por exemplo: escolher uma gestora que seja boa naquela classe de ativos.”

Fundos ESG têm estratégias diferentes, então vale a pena também investigar qual é a abordagem daquele fundo em que você ficou interessado, e ver se ela se alinha com as suas expectativas.

“Na abordagem de integração ESG, a avaliação de cada ativo vai auxiliar na tomada de decisão, mas não será determinante. Pode ser que o fundo invista em uma empresa com nota ESG ruim porque acredita, por outros fatores, que ela poderá render muito”, explica o diretor da SITAWI.

Alperowitch diz que é preciso examinar cuidadosamente em que medida e desde quando a gestora aderiu às pautas ESG. Os pontos de atenção incluem a ênfase que o tema recebe nas cartas trimestrais, os compromissos publicamente assumidos, as certificações, a formação acadêmica e o envolvimento dos gestores e analistas com questões socioambientais em suas vidas privadas.

“Veja também como a gestora se posicionou publicamente em questões relevantes da sociedade civil. Ela tem ou teve investimentos em setores polêmicos, como combustíveis fosseis, frigoríficos e Vale? Se sim, por que teve e quando retirou? Será que ela limpou o portfólio para mostrar ao mercado que ‘virou’ ESG?”, pondera. “Se ela também tiver fundos não-ESG, isso é um péssimo sinal. São grandes as chances de que [a oferta de produtos] ESG seja apenas por razões comerciais.”

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