Apesar da inflação continuar em disparada, os dados fracos da atividade econômica devem reduzir a pressão sobre o Copom (Comitê de Política Monetária) para aumentar a dose do aperto monetário na reunião de dezembro. Contrariando as expectativas do mercado, que esperava por uma alta de 0,5%, o setor de serviços recuou 0,6% em setembro.

Mas não foi só o setor de serviços que se saiu mal. O volume de vendas do comércio caiu 1,3% em setembro. Na indústria, a queda foi de 0,4%, fazendo o setor encolher 1,1% no trimestre.

A queda de serviços é preocupante porque esperava-se que o setor começasse a acelerar com o avanço da vacinação e redução das restrições sanitárias. “Com o número de hoje [sexta-feira] temos os dados fechados do terceiro trimestre das principais pesquisas do IBGE e é seguro dizer que a economia parou no trimestre encerrado em setembro”, afirma André Perfeito economista-chefe da Nécton.

Por isso, as perspectivas de crescimento para 2022 já começaram a ser revistas. O Credit Suisse, por exemplo, rebaixou a projeção para o PIB do próximo ano de crescimento de 0,6% para contração de 0,5% após a divulgação da pesquisa de serviços.

Por que setor de serviços não voltou com tudo ainda? A inflação dos combustíveis vem encarecendo o custo de uma série de serviços. Em setembro, a maior queda do setor de serviços veio do segmento de transporte, com destaque para as passagens aéreas, que já subiram 56,56% nos últimos 12 meses. Só em outubro, a alta de preços foi de 28,76%.

“O principal destaque negativo foi o transporte, principalmente o de passagens aérea, que sofreu um recuo de 9%. Entretanto dá para observar que a receita subiu 3,4%, indicando efeito da elevada inflação sendo repassada para os consumidores, o que afetou a performance desse componente”, disse Yihao Lin, economista da Genial Investimentos.

Mas só isso explica a queda? Não. A disparada da inflação vem freando o poder de consumo das famílias. “Inflação está bem elevada e isso vai pressionando a renda das famílias e afetando o poder de compra das famílias. Isso afeta o setor de serviços, uma vez que com menor renda tem menor disposição a consumir”, afirma Lin.

E o que fazer com esse cenário? O remédio que o Copom usa para controlar a inflação é a taxa de juros, que subiu para 7,75%. Depois do IPCA vir acima do esperado em outubro, analistas passaram a defender um ajuste maior na taxa de juros.

No entanto, a decepção com a atividade econômica pode colocar um freio nessa aceleração do aperto monetário, já que juro maior implica em menos crescimento.

“O resultado negativo sugere que a política monetária não precisa ser mais contracionista do que já está “contratado” por assim dizer”, afirma Perfeito. “Com a renda em queda por conta da inflação e do elevado desemprego, o prognóstico se mantém de desaceleração. Neste sentido a alta de juros se mostra inócua uma vez que a inflação não se trata de demanda aquecida, pelo contrário.”

O Copom avisou que a Selic deveria sofrer um novo ajuste de 1,5 ponto na próxima reunião de dezembro. Os dados fracos de atividade sugerem que o aumento deve ficar nesse ritmo mesmo.

“Esse dado mais fraco de serviços aumentou a probabilidade da gente manter o ritmo de alta da Selic em 1,5 ponto, apesar do dado mais salgado de inflação. Essa desaceleração mais forte do setor que tem sobressaído na ponta positiva deve colocar menos pressão sobre a inflação de serviços prevista para 2022”, diz Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos.

E como fica o PIB? O cenário é de revisão para baixo do crescimento esperado para 2021 e 2022. “Com este dado em mãos, revisamos o PIB para 2022 de 1% para 0,3% na perspectiva de que os juros elevados irão contribuir ainda mais para desacelerar a economia que já está fragilizada”, diz Perfeito, da Necton.

O Credit Suisse está ainda mais pessimista. O banco revisou sua projeção para o PIB de 2022 de crescimento de 0,6% para contração de 0,5%. Para 2021, o Credit Suisse piorou a estimativa a uma expansão econômica de 4,8%, ante taxa de 5,0% prevista anteriormente.

“O resultado de hoje reforça o cenário de piora da atividade econômica que tem sido visto nos últimos meses”, escreveram em relatório Solange Srour, economista-chefe do banco no Brasil, e Lucas Vilela, economista.

Na XP, a expectativa de expansão para 2021 é de 5%, mas com viés de baixa.

(Com Estadão Conteúdo)

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