Será que a economia engatou de vez? O desempenho da indústria, comércio e serviços manteve em outubro a recuperação iniciada no terceiro trimestre do ano. A incerteza é sobre como ficará o fôlego desses setores em 2021, quando o desemprego subir ainda mais e o auxílio emergencial chegar ao fim.

Como está o desempenho desses setores? Com exceção do setor de serviços, comércio e indústria já estão acima de fevereiro, mês anterior à pandemia. Mesmo sem voltar ao desempenho pré-pandemia, serviços teve em outubro crescimento pelo quinto mês consecutivo.

No entanto, a situação não é homogênea nem dentro dos setores. Enquanto alguns segmentos de comércio vão muito bem, como móveis, eletrodomésticos, farmácias e supermercados, outros vão muito mal. Entre os que acumulam as maiores perdas estão os segmentos de livros, jornais, revistas e papelaria (-33,7%), combustíveis e lubrificantes (-4,7%), tecidos, vestuário e calçados (-4,6%) e equipamentos e material para escritório (-2,1%).

“O varejo puxou a fila da recuperação, muito influenciado pelo aumento do consumo, não só pelo efeito do auxílio, mas também pela mudança no comportamento de compra. Parte do consumo que ia para serviços foi transferida para compra de bens, beneficiando o varejo. A indústria começou a acompanhar esse passo com atraso e serviços ficou para trás”, diz o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria Integrada.

Como está o desemprego? Em alta. No terceiro trimestre, a taxa de desocupação atingiu 14,6%, a maior desde 2012. De acordo com as previsões do Santander, o desemprego vai chegara um pico de 16,3% no segundo trimestre de 2021 e depois passará a cair gradualmente até bater 15,8% no fim do ano – taxa maior que a atual.

Por que esse cenário preocupa? Porque o desemprego em alta vem acompanhado do fim do auxílio emergencial, que reduzirá a massa salarial disponível para consumo. No ano que vem, sem a força desse benefício, a massa salarial deve encolher 8%, segundo o Santander.

O que dá para concluir? Que a recuperação do terceiro trimestre deve se manter no quarto trimestre, período que é já tradicionalmente aquecido pelo pagamento do 13º salário, Black Friday e Natal. “O que a gente tem visto é que é a continuação do crescimento para níveis pré-pandemia, mas em ritmo mais gradual do que ocorreu no terceiro trimestre”, afirma Carlos Lopes, economista do banco BV.

O que esperar então para o começo de 2021? As opiniões se dividem um pouco sobre 2021. “O cenário é de dúvidas, já que o emprego não está se recuperando. E a expectativa é de piora do mercado de trabalho, pois as empresas não vão sair contratando imediatamente”, afirma Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Além disso, segundo ele, a inflação dos alimentos vai conter o consumo das famílias de menor renda, que foram as maiores beneficiadas pelo pagamento do auxílio emergencial. “O crédito a juro baixo e a poupança que as famílias fizeram podem amenizar a queda. Mas as famílias de menor renda sofrerão com o fim do auxílio e ainda temos a incerteza relacionada à pandemia, ela não acabou e a vacinação pode demorar meses.”

Para Lopes, do BV, os sinais para 2021 continua positivos. “Não tivemos piora na intenção de compra de bens duráveis com a redução do auxílio, pelo contrário, continuou alta. Isso não significa que não vamos ter uma moderação do crescimento, mas nada que preocupe que vá causar uma queda do PIB.”

Mauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV, diz que é preciso lembrar dos efeitos da pandemia para a continuidade do crescimento. “Ainda não sabemos a extensão e profundidade de uma segunda onda de coronavírus. O que sabemos é que as pessoas estão menos dispostas a ficar em casa.”

Mesmo assim, se nenhuma nova catástrofe acontecer, Rochlin prevê que o país terá um crescimento de 3% a 3,5% em 2021.

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