A euforia com os efeitos positivos do avanço da vacinação na economia foi embora. A névoa que impedia uma avaliação realista dos riscos que ameaçam o crescimento começou a se dissipar após a divulgação de que o PIB (Produto Interno Bruto) encolheu 0,1% no segundo trimestre.

Depois dessa queda de ficha, várias instituições revisaram para baixo suas projeções de crescimento do PIB de 2021 (veja quadro mais abaixo). Nem mesmo o avanço de ao menos 5% em 2021, que já era dado como certo, é uma unanimidade. O Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia) da Fundação Getulio Vargas e Goldman Sachs reduziram suas previsões para 4,9%.

“Houve um otimismo um pouco exagerado depois do resultado do PIB do primeiro trimestre, que veio acima do esperado. Combinado a isso, aconteceu uma euforia no mundo todo com a vacinação, que acabou elevando os preços das commodities. E quando existe essa euforia, a gente não faz uma avaliação 100% real da situação, ela mascara os problemas”, disse Sílvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV IBRE e pesquisadora sênior da Economia Aplicada.

O crescimento menor que o esperado não se restringe apenas a 2021. Até o começo da semana, o mercado estimava que PIB de 2022 teria uma alta de 2%. Agora, os bancos estão prevendo um avanço mais próximo de 1,5%.

 Previsão anterior para o PIB de 2021Nova previsão para 2021Previsão anterior para 2022Nova previsão para 2022
Bradesco5,2%manteve2,2%1,8%
Credit Suisse5,3%5,5%2%1,5%
FGV-Ibre5,2%4,9%1,6%1,5%
Goldman Sachs5,4%4,9%2%2% com viés de baixa
XP5,5%5,3%2,3%1,7%

Mas, afinal, o que está acontecendo?

Não existe uma única resposta para essa pergunta, pois esse novo cenário é resultado de uma combinação de fatores. Para começar, segundo Sílvia Matos, havia uma certa miopia gerada pelo avanço da vacinação. “Os países desenvolvidos estavam crescendo muito. Havia uma euforia no mundo com a vacinação, o que aumentou o preço das commodities. Isso trouxe a visão de que se o primeiro mundo crescesse, os emergentes se beneficiariam. A segunda leitura era de que se as commodities vão vem, o Brasil vai bem.”

Só que os otimistas se esqueceram de que uma pandemia não é como uma crise econômica. Há novas ondas e a circulação de novas variantes.

“A pandemia também traz efeitos para as cadeias produtivas, atrapalha a oferta. Os insumos produtivos estão muito concentrados na Ásia, que ficou fechada por muito tempo. Isso desarranjou a produção. Há demanda, mas sem oferta. Isso gera inflação”, afirma Sílvia.

A flexibilização das restrições sanitárias também trouxe de volta a inflação do setor de serviços. Mas só isso não explica as revisões para baixo do PIB. Para 2021, o chamado efeito de carregamento estatístico, já garantiria um crescimento próximo de 5%. “Se o problema fosse só de choque de realidade, a situação não seria tão terrível”, diz Silvia. “A gente visualizava chegar ao terceiro trimestre com muita vacina, com o vírus saindo de cena, havia uma luz no fim do túnel. A gente até poderia crescer mais de 5,5% se não tivesse uma nova onda. Mas a realidade é cruel e veio o processo inflacionário junto”, afirma Silvia.

Então, o que foi que pegou nas projeções?

Muita coisa pegou, mas o que assustou mesmo foi a crise hídrica. “Não tem como ter uma economia funcionando em ritmo normal se não tem energia, se há risco de racionamento, não sobra espaço para olhar para outra coisa. Racionamento é redutor de crescimento. Quem investe ou contrata nesse cenário de falta de energia, de falta de insumos e inflação em alta?”, questiona Sílvia.

O último relatório do Itaú-Unibanco elevou o risco de risco de racionamento de energia elétrica. “Revisamos essa probabilidade de 5% para 10%. O principal risco para o cenário energético no próximo ano é uma nova temporada de chuva (novembro a março) com precipitação abaixo da média histórica.”

Para tentar reduzir o consumo de energia, o governo adotou bandeiras tarifárias mais caras, que encarecem o custo de produção das empresas e pioram as expectativas de emprego e renda para o consumo. “A crise hídrica (e o subsequente aumento do custo da energia elétrica) exerce pressão negativa sobre os níveis de produção e consumo na economia brasileira. Os impactos são sentidos por meio da redução da massa de renda real disponível às famílias (menor poder de compra), elevação dos custos da indústria e perdas na produção agrícola”, diz Rodolfo Margato, economista da XP.

E o remédio para frear a inflação é o aumento dos juros, que deve desacelerar ainda mais a economia. “A persistência da pressão inflacionária (possivelmente implicando uma política monetária mais dura do que o esperado) e eventual desaceleração mais intensa da demanda global (riscos associados à disseminação da variante Delta da Covid-19) representam outros riscos importantes para o quadro da atividade doméstica”, afirma Margato.

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