Estrategistas de ações têm reduzido as estimativas para o mercado brasileiro e alertado para um cenário doméstico mais turbulento. Com queda de 47% em moeda americana desde o começo de 2020, o Ibovespa registra performance inferior à de outros 90 índices acionários globais monitorados pela Bloomberg. A bolsa brasileira perdeu cerca de R$ 1,5 trilhão em valor de mercado desde o pico de janeiro, o equivalente a cerca de 20% do PIB do país.

Após a crise do coronavírus ter atingido em cheio as expectativas para crescimento econômico e levado a uma onda de cortes nas estimativas do lucro das empresas, outro fator de risco voltou a incomodar: a repentina deterioração do quadro político local e seu impacto para a agenda de reformas.

Enquanto o Brasil reverte seu esforço fiscal recente e foca no combate à pandemia, alguns investidores temem que a saída dos trilhos não seja apenas temporária, o que poderia levar o endividamento do governo a níveis insustentáveis.

“A agenda de reformas perdeu ímpeto”, escreveram estrategistas do Itaú BBA liderados por Pablo Ordoñez, em relatório de 21 de abril, citando um maior risco político diante das visões divergentes entre os poderes Executivo e Legislativo.

O sentimento piorou em meio à onda vendedora: estrategistas de ações cortaram projeções para o Ibovespa em ritmo acelerado. O índice – atualmente em 83.300 pontos – deve agora fechar o ano em 89.400, segundo estimativa média de nove estrategistas monitorados pela Bloomberg. A nova projeção mostra queda de 32% em relação à pesquisa de dezembro.

Ainda assim, a estimativa implica ganho de cerca de 7% em relação aos níveis atuais. Com bancos centrais ao redor do mundo correndo para resgatar os mercados financeiros e suas economias, o ambiente de juro baixo deve continuar sustentando o fluxo para o mercado acionário local. A Selic, que já está em uma mínima histórica, deve ser cortada novamente na reunião do Copom da próxima semana.

Alguns sinais de esperança despontaram nas últimas sessões, com o presidente Jair Bolsonaro apoiando publicamente o ministro da Economia, Paulo Guedes.

David Beker, estrategista do Bank of America, projeta que o Ibovespa encerre o ano a 76.000 pontos. É a menor projeção entre estrategistas acompanhados pela Bloomberg e 9% mais baixa em relação aos níveis atuais.

Para Beker, o mercado pode ser surpreendido negativamente durante a temporada de balanços do primeiro trimestre, que começa a ganhar tração. Ele menciona setores mais afetados pelo vírus — de varejistas a companhias aéreas — e empresas expostas a esses segmentos, como bancos.

Em meio a guidances suspensos, investimentos adiados e lojas fechadas devido a medidas de confinamento, as estimativas de lucros têm contraído. Empresas de commodities e consumo discricionário registraram as maiores revisões para baixo no último mês, segundo dados compilados pela Bloomberg.

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