Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) – A Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep) começou a fabricar suas primeiras torres de transmissão de energia, estreando em um novo nicho, embora as operações tenham sofrido um significativo atraso ante os planos iniciais devido a impactos da pandemia de coronavírus, disse à Reuters o presidente da estatal.

A produção de torres de energia nas instalações da Nuclep em Itaguaí, no Rio de Janeiro, atenderá inicialmente a um contrato com a Neoenergia, do grupo espanhol Iberdrola, disse Carlos Henrique Seixas.

“Tivemos um problema que fugiu ao nosso controle. A Nuclep em dezembro de 2019 decidiu adquirir máquinas novas na Itália. E aí a pandemia parou tudo, até mais lá do que aqui (naquele momento). Tivemos um grande atraso na recepção dos equipamentos. Eu ia receber em maio, e só recebi em dezembro.”

Com isso, as entregas para a Neoenergia foram postergadas do primeiro semestre deste ano para o segundo, acrescentou o executivo. Além disso, um primeiro contrato previsto, com a transmissora Tabocas, acabou sendo cancelado.

“Nós já estamos produzindo, ainda em fase inicial. As máquinas estão instaladas e já construímos duas torres de testes. Vamos fazer uma inauguração aqui em breve, minha intenção é que ainda em março… a partir de abril entramos em uma sequência mensal de entrega dentro do cronograma.”

A companhia, que atuou na construção de submarinos para a Marinha brasileira e fabrica também equipamentos nucleares, espera obter um faturamento de pouco mais de 120 milhões de reais em 2021 com a entrada no segmento de transmissão de energia, que dobraria em 2022.

A aposta da Nuclep vem em um momento aquecido da indústria –os dois últimos leilões de projetos de transmissão de energia realizados pelo governo tiveram resultados recordes, atraindo desde elétricas multinacionais até grandes empresas nacionais e grupos menores da área de engenharia e construção, além de investidores financeiros.

Antes do atraso no recebimento de suas máquinas, a Nuclep chegou a projetar à Reuters um faturamento de mais de 300 milhões de reais em 2022 com o negócio de torres.

INSUMOS EM FALTA

As fortes atividades no setor de transmissão do Brasil, no entanto, ocorrem enquanto a pandemia de coronavírus impacta cadeias globais de suprimento de diversos setores, o que tem tornado a busca por insumos um desafio, disse o CEO da Nuclep, um contra-almirante da Marinha.

Segundo ele, a companhia tem materiais assegurados para atender o contrato com a Neoenergia, mas tem se desdobrado para garantir estoques para futuras encomendas.

“O problema que vamos ter ainda que resolver é o do material, dos insumos, porque no momento tem uma dificuldade muito grande. Não há insumo, e não é pra mim, para ninguém, é difícil ter o aço. O preço subiu muito, está mais que o dobro que era no final do ano passado”, afirmou.

“No Brasil e no mundo estamos com escassez de chapas de aço. O preço está subindo muito. Mas estamos na batalha, conseguindo aos poucos.”

Ao mesmo tempo, no segmento de transmissão há uma enorme demanda reprimida por torres, uma vez que o mercado sofria ultimamente com falta de fornecedores, destacou Seixas.

“A entrada nessa construção de torres vai ser excelente, porque vamos ter demanda sempre. Não é toda hora que você constrói uma usina nuclear ou um submarino, então a empresa ficava muito tempo sem trabalho”, disse.

A Nuclep deve atingir nos próximos três meses uma capacidade de fabricação de 3,5 mil toneladas por mês em torres.

ANGRA, PRIVATIZAÇÃO

A Nuclep está terminando entregas para a usina nuclear de Angra 3, para a qual fabricou equipamentos, e ainda tem expectativa de participar das obras da usina nuclear, que a Eletronuclear, da Eletrobras, pretende retomar ainda neste ano, após ter aberto licitação para contratar trabalhos iniciais de construção e montagem.

“Vamos entregar os últimos dois acumuladores agora que a Nuclep construiu, e então poderíamos também participar na instalação. Podemos participar em parceria com outras empresas”, comentou o presidente da estatal.

A Nuclep está na lista de possíveis privatizações do governo do presidente Jair Bolsonaro. Questionado sobre os planos, Seixas disse que tem conversado com o BNDES, responsável por definir uma modelagem para a desestatização.

“Eles fizeram um grande levantamento sobre a empresa, quase uma auditoria”, afirmou.

Esses estudos sobre a modelagem, no entanto, ainda não foram concluídos, e portanto não há ainda decisões sobre uma eventual venda da empresa.

(Por Luciano Costa; edição de Roberto Samora)

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