No começo de dezembro, não havia mistério. Era algo próximo do consenso que o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziria de 5% para 4,5% ao ano a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic. Esperava-se também que a chegada a esse patamar, o menor da história, representasse o último corte do atual ciclo.

Nesta quarta-feira (5), o Copom se reúne, no entanto, diante de um cenário considerado mais complexo por especialistas consultados pelo 6 Minutos. Há dúvidas sobre se o comitê do Banco Central vai manter a taxa atual ou, como pensa a maioria dos representantes do mercado, reduzi-la um pouco mais, a 4,25% ao ano.

De um lado, aqueles que defendem uma nova redução argumentam que a inflação está sob controle, passada a fase mais aguda da disparada no preço da carne, e que a atividade econômica ainda está sendo retomada muito lentamente. Assim, haveria margem para o BC baixar novamente os juros sem comprometer o controle dos preços.

Mas outros agentes de mercado enxergam a necessidade de uma maior cautela. A avaliação é que a Selic caiu de forma rápida nos últimos meses e os efeitos desse novo patamar dos juros ainda não estão exatamente claros. Também há quem pondere que novos fatores devem entrar na conta, como a crise do coronavírus e um dos seus principais reflexos, a disparada do dólar.

Veja abaixo a avaliação de quatro economistas do mercado:

Mário Mesquita, economista-chefe do banco Itaú

Projeção: Redução para 4,25% ao ano
Posição: Defende redução para 4,25% ao ano

No relatório Macro Brasil, assinado por Mário Mesquita, o Itaú projeta que a inflação está em perspectiva de baixa para 2020, com a pressão do preço das proteínas (carnes) sob controle. Para Mesquita, essa projeção deve ter um peso maior na decisão do Copom do que o “balanço de riscos” internos e externos.

A recuperação da atividade econômica, envolta pelo que chamou de “resultados ambíguos”, também não justificaria uma posição mais cautelosa. O relatório argumenta que a aversão ao risco e a depreciação do real derivada da crise provocada pelo coronavírus “tendem a ser passageiros e que, a médio prazo, esses desenvolvimentos configuram pressão negativa sobre a atividade econômica global e um potencial risco de baixa para a recuperação no Brasil”.

Do ponto de vista da atividade econômica, notamos que a economia continua em uma tendência de recuperação gradual, mas dados mais recentes mostraram resultados ambíguos. Ainda assim, melhoras nesse fronte não representam risco significativo de pressão inflacionária no horizonte relevante para a política monetária, uma vez que a capacidade ociosa da economia segue muito elevada sob diversas métricas.

Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados

Projeção: Redução para 4,25% ao ano
Posição: Defende redução para 4,25% ao ano

Para Sérgio Vale, os novos fatores do cenário internacional jogam no lado oposto ao de pedidos por cautela. “O cenário internacional ruim ajuda na ideia de uma economia que ainda precisa de estímulos para crescer”, afirmou o economista-chefe da MB Associados ao 6 Minutos.

Na visão do consultor, a alta do dólar é “temporária e não deve ter impactos na inflação”. “O mesmo vale para o impacto do coronavírus”, projeta.

Certamente há espaço para nova queda de juros. Basicamente porque o nível de atividade ainda está fraco e a inflação continuará baixa ao longo do ano, fechando em 3,7%, abaixo da meta de 4%. Espero queda de 0,25 ponto percentual e há espaço para nova queda de 0,25 na outra reunião (em março).

André Perfeito, economista-chefe e sócio da corretora Necton

Projeção: Redução para 4,25% a.a.
Posição: Defende manutenção em 4,50% a.a.

“Acredito que a autoridade monetária vai cortar 25 pontos-base (0,25 ponto percentual), mas eu acredito que eles não deveriam cortar”, defende André Perfeito. Para o economista-chefe da Necton Investimentos, o Copom “ganha um tom de dramaticidade” com a disparada do câmbio na última semana.

A avaliação é que, em um cenário de aversão ao risco, uma nova redução da taxa Selic possa dificultar ainda mais a atração de investimentos externos e pressionar o dólar para além do atual recorde histórico — R$ 4,28 no fechamento de sexta-feira (31).

Sobre o coronavírus, Perfeito espera uma mensuração mais clara do cenário no final desta semana, quando eventualmente estiver mais claro o potencial de contágio e mortalidade da doença e, por tabela, de afetar o ritmo normal da economia. A princípio, ele concorda que a tendência é de queda nos preços por uma menor demanda, “mas podemos começar a ver a inflação crescer se o coronavírus passar a afetar a oferta”.

O trabalho do Banco Central não é incentivar a economia e os juros já caíram bastante. O que dependia de o BC ajudar, ele já fez. Isso não cabe a ele e estamos em uma situação em que os juros reais vão se aproximar muito de zero. Para o dólar chegar a R$ 4,30 ou R$ 4,40 seria muito rápido.

Silvio Campos Neto, economista-sênior e sócio da Tendências Consultoria

Projeção: Manutenção em 4,50% ao ano
Posição: Defende manutenção em 4,50% ao ano

Na avaliação de Silvio Campos Neto, economista-sênior da consultoria Tendências, a redução da Selic nas últimas reuniões do Copom seguiu um ritmo rápido, o que justificaria ponderação para observar como a economia brasileira vai se comportar com os juros nas mínimas históricas.

“O próprio Banco Central tem defendido uma maior cautela para poder medir os efeitos dessa redução. Sobretudo sobre o mercado de crédito, que tem sido positivo”, afirma.

O consultor avalia que a inflação de fato mais baixa torna possível, apesar de não provável, o ajuste da Selic para 4,25%. No entanto projeta que, se vier, essa nova queda nos juros estaria acompanhada “de uma afirmação mais forte de que é a última do ciclo”.

Estamos prevendo a manutenção da taxa em 4,50% ao ano nesta reunião, porque já há um processo de recuperação econômica, mesmo que gradual. Já houve uma queda bastante expressiva, para níveis nunca alcançados anteriormente, o que também provoca incerteza sobre os efeitos dessa redução.

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